O objetivo dessa reflexão é realizar um comentário crítico do ensaio “Liberdade, Mau encontro, Inominável” do antropólogo francês Pierre Clastres. Tal texto estabelece um diálogo entre as pesquisas desenvolvidas por Clastres, no campo da antropologia política, e a obra clássica de Etienne de La Boétie, o “Discurso da servidão voluntária”, escrito na primeira metade do século XVI.

O interesse de Pierre Clastres pela obra de La Boétie não é fortuito. A questão que ocupou o centro de suas reflexões foi a do poder. A frase que abre um dos seus primeiros ensaios, “Copérnico e os selvagens” (1962), é bastante clara: “Pode-se questionar seriamente a propósito do poder?”. Esse questionamento buscou, acima de tudo, abrir mão da perspectiva que assume as relações de poder estabelecidas na sociedade ocidental como a essência trans-histórica do poder. É preciso perceber que o poder não é essencialmente coerção e violência. Em linhas muito grossas, é a tentativa de atender a tal questionamento que motiva a obra de Clastres.

Por conta disso, a recuperação da obra de La Boétie não se mostra nenhum pouco surpreendente. Afinal, nas palavras do próprio Clastres, foi esse autor um dos poucos que conseguiu pensar na “contracorrente” da tradição de pensamento político ocidental, percebendo que a divisão entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem não é um traço inerente à vida social.

Nesse sentido, a leitura que interessa Clastres não é aquela que tenta enxergar no texto de La Boétie o resultado de um determinado processo histórico que estava em curso na França seiscentista. Pelo contrário. Isso seria muito pouco para a importância da reflexão apresentada em tal obra. O que Clastres enxerga no “Discurso da servidão” é a presença de uma crítica poderosa contra toda tradição política ocidental, é a percepção da possibilidade de se pensar a sociedade em outra lógica de exercício do poder, na qual não haja uma ruptura essencial entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem.

Pierre Clastres argumenta que essa crítica, na obra da La Boétie, é construída de forma abstrata, não “há conteúdo historicamente concreto das sociedades de liberdade”. Isso porque a marca da ruptura entre as ditas “sociedades de liberdade” e as sociedades na qual a ruptura entre mandantes/mandados se estabelece está situada justamente no nascimento da História. Por isso, La Boétie, nos explica Clastres, não estabeleceu a passagem de uma sociedade para outra, não há esse movimento, apenas o “brutal mau encontro que faz desabar o antes da liberdade no depois da submissão”.

Não existe, portanto, uma necessidade histórica, uma espécie de lei social, que movimenta as sociedades humanas em direção ao trágico destino da submissão. O que há, na realidade, é um “acidente trágico”, um desenlace que não era necessário e que poderia não ter ocorrido. Com isso, é possível realizar uma “crítica da ontologia do poder”. Se a divisão entre os que mandam e os que obedecem não era algo necessário, faz parte da “natureza do homem, [a existência de] uma sociedade sem opressão e sem submissão”.

Na perspectiva de Clastres, a obra de La Boétie “formula explicitamente duas questões: por que, em primeiro lugar, a desnaturação do homem ocorreu, por que a divisão se instalou na sociedade, por que adveio o mau encontro? A seguir, como os homens perseveram em seu ser desnaturado, como a desigualdade se reproduz constantemente, como o infortúnio se perpetua a ponto de parecer eterno?”. Clastres aponta que a primeira questão não é respondida pelo filósofo, que tenta dar, em troca, uma resposta duradoura para a segunda. Essa é a intenção da sua obra. A resposta da primeira é impossível, pois seria o mesmo que “perguntar a razão do irracional, tentar reduzir o acaso à necessidade, querer, em uma palavra, abolir o mau encontro”.

Clastres entende que a resposta para a segunda pergunta resida na desnaturação do homem provocada pelo “mau encontro”. Segundo ele, a desnaturação muda a natureza do homem, realizando-se “não para o alto, mas para baixo, é uma regressão. (…) Nem anjo nem animal, nem aquém nem além do humano, assim é o homem desnaturado. Literalmente, o inominável”. Como deve ser evidente, esse processo de desnaturação é um processo de mão-única, uma passagem sem retorno: após o “mau encontro”, com o surgimento da cisão social e, conseqüentemente, o aparecimento do Estado, não há mais possibilidade de retorno ao estado natural de liberdade.

Isso porque, “a desnaturação exclui a lembrança da liberdade e, com isso, o desejo de reconquistá-la. Toda sociedade divida está, portanto, destinada a durar. A desnaturação se exprime ao mesmo tempo no desprezo que quem manda sente necessariamente pelos que obedecem e no amor dos súditos pelo príncipe, no culto que o povo presta à pessoa do tirano. (…) O amor à lei – o medo da liberdade – faz de cada súdito um cúmplice do Príncipe: a obediência ao tirano exclui a amizade entre sujeitos”.

Esta leitura permite uma articulação da obra de La Boétie com as próprias pesquisas etnológicas de Pierre Clastres. Como se sabe, o antropólogo teve uma formação inicial na área da Filosofia, mas rumou na direção da antropologia ainda bastante jovem. Com isso, teve a oportunidade de desenvolver pesquisas de campo com diversas tribos americanas, especialmente na região do Paraguai, com algumas tribos guaranis. A partir dessas experiências de campo, o antropólogo estruturou uma reflexão sobre a organização política e o exercício do poder das sociedades primitivas americanas.

Como explica Miguel Abensour, a reflexão de Clastres realiza dois movimentos, de um lado destaca a universalidade do político, não há sociedade humana sem instituição política do social; de outro, demonstra como a política e o poder ocidental não é universal, mas apenas uma modalidade regional.

A grande questão, portanto, que estrutura o pensamento do antropólogo é resgatar essa alteridade do poder das sociedades primitivas para realizar uma crítica de nossa própria sociedade. Em alguma medida, sua obra consegue alimentar com dados empíricos aquilo que La Boétie havia conseguido estabelecer apenas de maneira teórica. A etnologia, na sua perspectiva, tem como “vocação de saber (…), em primeiro lugar, às sociedades anteriores ao mau encontro”. Afinal, nas sociedades primitivas a cisão social não se faz presente, o Estado não consegue se estabelecer. E isto não ocorre por alguma forma de incompletude ou incapacidade, mas por uma recusa: “elas [as sociedades primitivas] ignoram o Estado porque não o querem, a tribo mantém na disjunção chefia e poder porque não quer que o chefe se torne detentor de poder, ela recusa que o chefe seja chefe”.

Ao estudar a estrutura política das sociedades primitivas, Clastres acredita encontrar uma organização social que funciona de maneira a evitar o “mau encontro”, recusando o nascimento das relações de poder e impedindo que o “desejo de submissão se realize”. Seus dados empíricos conseguem recuperar a reflexão de La Boétie e levá-la adiante, reforçando a crítica ontológica do poder. As sociedades primitivas servem como demonstração da fatuidade daquilo que consideramos mais universal: a necessária conexão entre o exercício do poder e a coerção violenta.

Para concluir, creio que as palavras de Bento Prado Júnior sejam as mais adequadas: a partir da leitura da obra de La Boétie, a reflexão de Clastres é marcada pela “imbricação entre Antropologia, Política e Metafísica – ou melhor, à Arqueologia simultânea desses discursos, hoje dispersos. Se o etnólogo era obrigado a abandonar sua sociedade, a exilar-se numa sociedade outra, para melhor compreender a sua, o pensador, ao contrário do cientista, é obrigado a desertar o pensamento político presente, buscar seu outro no passado, para melhor assimilar aquilo que rumina no presente”.



Referências Bibliográficas:



CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência



ABENSOUR, Miguel (org.), L’esprit des lois sauvages: Pierre Clastres ou une nouvelle anthropologie politique



PRADO JÚNIOR, Bento, “Prefácio” em Arqueologia da violência

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4 Comments to ““Liberdade, Mau encontro, Inominável” de Pierre Clastres”

  1. Anonymous disse:

    Oi Leandro.
    Gostei muito do seu texto.
    Gostaria de ler o prefácio do A Arqueologia da Violência, escrito pelo Bento Prado Jr. Você tem para me mandar via mail?
    Adriana
    acferreira@pop.com.br

  2. Leandro disse:

    Olá Adriana. Agradeço o elogio, mas infelizmente eu não tenho uma cópia digital do texto. Consultei do próprio livro (que nem era meu, mas da biblioteca da minha universidade). Se qualquer hora dessas eu encontrá-lo na internet, pode ficar certa que lhe enviarei uma cópia.

    Leandro

  3. Anonymous disse:

    em http://www.poars1982.wordpress.com encontram-se vários textos de Clastres. O prefácio do Bentro Prado Jr. pode ser encontrado neste link

    http://www.scielo.br/pdf/ra/v46n2/a11v46n2.pdf

    abraços,
    leonardo.

  4. Leandro disse:

    Olá Leonardo, agradeço pelos links, muito úteis. O texto do SCIELO, porém, não é o prefácio que eu menciono em meu texto. Este texto é uma entrevista de 2003, na qual Bentro Prado Júnior menciona algumas vezes seu prefácio. De qualquer maneira, a entrevista é muito rica e interessante, certamente pode contribuir muito para quem está interessado no tema. Agradeço novamente e aguardo novas visitas ao blog. Um abraço

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