Terminei esses dias a leitura de “Os Irmãos Karamazov”, a grande obra de Fiódor Dostoiévski. Escrever sobre um dos grandes clássicos da leitura é sempre uma temeridade. Parece que tudo já foi dito, o peso da tradição é sempre sufocante. Não pretendo, por isso, fazer uma resenha ou um comentário abrangente. Prefiro esboçar uma idéia que me surgiu durante a leitura dos capítulos finais.

Como se sabe, a parte final do livro gira em torno do julgamento de Dmitri Karamázov pelo assassinato de seu pai, Fiódor Karamázov. O julgamento se torna uma grande disputa entre o promotor, Hippolit Kiríllovithc, e o advogado de defesa, Fietiukóvitch. As poucas evidências do crime apontam para Dmitri, porém não há nenhuma prova categórica e definitiva. O grande peso da acusação é todo o histórico de violência entre pai e filho, o qual resultou numa série de episódios de difícil explicação. Por isso, ao promotor cabe recuperar este quadro e traçar um profundo perfil psicológico do acusado, na expectativa de convencer aos jurados de sua culpabilidade. O advogado de defesa, um arguto observador, percebe com clareza a importância do quadro psicológico e utiliza toda sua força para desmontá-lo, demonstrando a fraqueza epistemológica dessa maneira de conduzir a investigação. Nas suas palavras, “a psicologia, embora seja uma coisa profunda, ainda assim parece uma faca de dois gumes”, podendo servir tanto para comprovar a culpa do réu, quanto sua inocência. Mas, é impossível para demonstrar qualquer coisa sobre o caso. A narrativa deixa o leitor em dúvida, será que Dmitri é o assassino? Resposta impossível, claro. O que interessante é a força da argumentação e o que ela desvela. O que está em jogo no julgamento não é exatamente encontrar a verdade dos fatos, demonstrar efetivamente a culpa do réu, mas realizar uma narrativa tautológica, ou seja, que parte da culpabilidade prévia e consegue convencer (comprovar) a todos da sua validade. Este procedimento só tem uma validade, uma veridição, a possibilidade de se inscrever no real como algo verdadeiro e legítimo, graças aquilo que o filósofo francês Michel Foucault chamou de função psi.

Como ele explica, o sistema disciplinar, que se estabeleceu na sociedade ocidental entre os séculos XVII e XIX, demandou o funcionamento de um conjunto de instituições voltadas para a individualização e a fixação da disciplina nos corpos sujeitados. Esta lógica, porém, só funcionava a partir da existência de um elemento estranho ao próprio mundo disciplinar: a família. Era esta instituição que realizava a mediação entre todas as instituições disciplinares (escola, fábrica, quartel, presídio, hospital, etc.). Entretanto, com o desenvolvimento global de uma sociedade disciplinar, a família foi se esgarçando, tornando-se cada vez mais um elemento exógeno ao funcionamento mais geral do espaço social. Assim, foi se conformando um campo que reatualizava o papel fundamental desempenhado pela família: o psiquiátrico. Nas palavras do filósofo: “a psiquiatria vai se apresentar como empreitada institucional de disciplina que vai possibilitar a refamiliarização do indivíduo”.

A psiquiatria se torna, assim, o elemento móvel que trabalha para reinserir os indivíduos mal adaptados ao esquema disciplinar. Por isso, o saber psiquiátrico, e todas suas variantes psi (psicologia, psicopedagogia, psicanálise, psicocriminologia) assumem o papel central na organização de todo aparato disciplinar. A sua conexão íntima com o espaço familiar vai permitir que esta se torne o espaço supremo de verdade, de explicação, de determinação das ações de todos os indivíduos. A família deficitária explica e torna cheio de sentido a ação desviante daquele que resiste ao sistema disciplinar. Por isso, cada vez mais, a própria possibilidade de comprovação da culpa criminal vai residir na lógica de funcionamento da função psi. Pode-se dizer, que a função psi permite a substituição de um sistema jurídico baseado na demonstração por um baseado na comprovação.

O texto de Dostoiévski revela um momento de tensão neste processo. Como explica Paulo Bezerra, no posfácio do livro, o autor russo guardou uma forte impressão de um julgamento real, no qual o acusado foi considerado culpado pelo assassinato de seu pai sem nenhuma evidência conclusiva, baseado apenas na parcialidade do processo jurídico. Este evento acabou servindo como um dos motivos para a elaboração de “Os Irmãos Karamazóv”. O caráter polifônico do romance cria uma zona cinzenta em torno da validade da comprovação psicológica do crime. O sujeito psicológico é posto em suspensão na impossibilidade de realizar uma leitura que esvazie a ambigüidade da narrativa. É muito interessante pensar neste espaço de opacidade que se forma em torno da função psi no romance com a profusão de discursos totalmente transparentes ao tema que se produzem na contemporaneidade. A ambigüidade dos atos de Dmitri é própria da incompleta conformação do sujeito psicológico, um processo que certamente já está encerrado nos dias de hoje. Com isso, a radical imanência da idéia “Se Deus não existe, tudo é permitido” é revirada por uma nova transcendência: não mais divina, mas agora psicológica.

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2 Comments to ““Os Irmãos Karamázov” e o Sujeito Psicológico”

  1. ALEPH DAVIS disse:

    Obra ótima. Gostei do teu enfoque, pois Freud já achava este “o romance mais significativo já escrito” e escreveu um artigo chamado “Dostoevski e parricídio” em que investiga como as neuroses do autor aparecem no livro à luz do complexo de Édipo. Também só li há pouco tempo, li todos dele.

    Abreijos textuais

  2. Leandro disse:

    Olá Davis, agradeço o elogio. Vou tentar dar uma olhada no texto do Freud. De qualquer modo, acho que este texto mostre a força da função psi… Valeu pela dica. Abraços

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