Votos de Ano Novo

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acabou a hora do trabalho
começou o tempo do lazer
você vai ganhar o seu salário
pra fazer o que quiser fazer

o que você gosta e gostaria
de estar fazendo noite e dia
ler, andar, ir ao cinema, brincar com seu nenén
e até mesmo trabalhar também

quando quiser, se assim quiser
se assim quiser, como quiser
como quiser, quando quiser

ir de bicicleta ao mercado
escolher um peixe pro jantar
encontrar a namorada ou o namorado
escolher alguém pra visitar

quando quiser, se assim quiser
se assim quiser, como quiser
como quiser, quando quiser

Arnaldo Antunes, Se assim quiser

São Paulo S/A.

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São Paulo S/A. conta a história de Carlos, um rapaz de classe média que consegue uma rápida ascensão financeira. A trama se passa no final da década de 50 e início de 60, portanto no meio do processo de industrialização acelerada de São Paulo, mudando radicalmente a paisagem social da cidade. É o grande momento das ilusões do progresso, época de ouro de uma classe média arrivista e profundamente imiscuída na ética do homem cordial. O filme retrata de forma impiedosa as aspirações e os desejos desse grupo social, mostrando o vazio que o norteava. O personagem principal parece ser o único com uma certa consciência desse vazio. Essa consciência lhe garante um papel bastante trágico, afinal sabe-se vazio, mas não tem nenhuma condição de superar sua condição. Com isso, Carlos é um sujeito amargurado, ríspido, desiludido, perdido. A única fuga é o envolvimento amoroso. Entretanto, esses relacionamentos rapidamente se mostram tão vazios quanto tudo o resto. A sua consciência parece tão aguda que nem a loucura surge como opção de fuga. Carlos sabe que é apenas um corpo dócil nas engrenagens da nascente sociedade industrial em São Paulo. Essa crítica já bastaria para tornar o filme interessante, um retrato de uma época que já não existe mais. Afinal, a sociedade industrial, em muitos sentidos, já foi superada. O emprego estável não é mais uma possibilidade real. A família, na sua acepção tradicional, encontra-se fragmentada, bem como qualquer tipo de laço social fixo. Na verdade, vivemos num tempo todo fragmentado, tempo de vidas fugazes, descartáveis, recicláveis. A angustiante vida burguesa, precisa como uma máquina, deu lugar a uma sociedade fluida, angustiantemente livre. Assistir ao filme nesse contexto permite uma leitura incrivelmente atual. Carlos é o prelúdio dessa sociedade fluida, fadada ao eterno recomeçar, recomeçar, recomeçar. Carlos não podia suportar a fixidez das engrenagens industriais, será que a fluidez de uma modernidade líquida seria uma opção menos angustiante? Essa é a questão que o filme me deixou…

Onde Brilhem Os Olhos Seus

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Com a circulação acelerada de músicas digitais parece cada vez mais difícil prestar uma atenção mais prolongada a um novo disco. O frenesi da novidade deixa tudo muito descartável. Pouca coisa fica muito tempo no meu mp3 player. Por isso, quando encontro algo interessante, que prende a atenção por mais tempo, que vale escutar repetidamente, até a exaustão, fico muito contente. Esse é o caso do primeiro disco solo de Fernanda Takai, Onde brilhem os olhos seus. O trabalho é uma releitura das canções de Nara Leão, fazendo um apanhado das várias fases da cantora. A interpretação de Takai, junto com os arranjos de outros integrantes do Pato Fu, cria uma sonoridade muito delicada, um pouco melancólica, mas uma melancolia leve e doce. Algumas canções trazem arranjos divertidos, que lembram o estilo conhecido do conjunto mineiro, outras são bem despojadas e simples. A versão de Insensatez é especialmente tocante, dificilmente poderia ser mais bela. Com isso tudo, é um cd que deixa uma agradável sensação alegre ma non troppo

Maria Antonieta

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Antigamente havia uma distinção entre estória e história. A primeira tinha um caráter eminentemente fictício, enquanto a segunda era algo pautado pelos fatos reais (será que alguém ainda acredita nisso…). Literatura e cinema, em geral, estariam enquadrados na primeira categoria. A história dos historiadores, de acordo com seus métodos rigorosamente científicos, deveria ser enquadrado na segunda categoria. Essa distinção está em desuso hoje em dia, mas não deixo de pensar nela após assistir Maria Antonieta de Sofia Coppola. O filme narra a vida da rainha que foi destronada pela Revolução Francesa. O bacana do filme é que a diretora consegue transformar uma narrativa canônica em algo muito particular. Ela não se importa em reconstituir a “verdadeira” rainha, nem os verdadeiros modos da nobreza decadente de Versailles. Não é nada disso. Sofia Coppola não quer contar uma história, ela quer contar uma estória. Uma estória muito bonita, sobre deslocamentos e muita solidão, tudo isso envolto em uma fotografia que salta aos olhos. Maria Antonieta é só um pretexto para tratar disso, algo feito com muita sutileza e delicadeza. O filme causou um grande frisson em Cannes… a crítica, especialmente os franceses, não gostou da forma que a História da França foi retratada no filme. A Maria Antonieta de Coppola não era fiel aos “fatos”. Mais do que isso. O filme teve a audácia de colocar um tênis All-Star entre as bugigangas da rainha. Que ultraje! Esse é o grande problema dos historiadores… tão ensimesmados com suas histórias, esquecem da importância das estórias…

Reflexões Futebolísticas I

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A principal impressão deixada pelo Campeonato Brasileiro de 2007 foi sobre a (in)pertinência dos pontos corridos como a fórmula ideal para disputas de futebol. Sempre defendi esse sistema como o mais justo, aquele que privilegia o time mais constante e mais organizado. No entanto, fui forçado a rever essa posição esse ano. Bem, os acontecimentos são conhecidos: o São Paulo disparou na liderança próximo ao fim do primeiro turno. Com isso, o clube foi campeão faltando ainda 4 rodadas, repetindo o resultado do último campeonato. Há inúmeras explicações para isso, creio que a força econômica do clube ajude bastante a entender essa vantagem sobre os demais. Por conta disso, comecei a vislumbrar a chance do campeonato brasileiro passar por um processo de europeização: a possibilidade da disputa afunilar cada vez mais em volta de alguns poucos clubes. São Paulo e Santos, por exemplo, desde o início da disputa por pontos corridos estão acostumados a ocuparem as primeiras posições. Isso é algo comum na Europa. Na Espanha, França. Itália ou na Inglaterra existe um rol de poucos times que se alternam na disputa do campeonato. Na França, o Lyon garantiu uma hegemonia sem precedentes. Na Espanha, a disputa quase sempre é alternada entre o Real Madrid e o Barcelona. Na Inglaterra, Manchester, Arsenal e Liverpool disputam com o arrivista Chelsea. A competição italiana também não conhece grandes disputas, resumindo-se quase unicamente ao Juventus, Milan e Inter. A disputa por pontos corridos é comum a todos esses campeonatos. Com efeito, esse sistema favorece poucos clubes, em geral aqueles com maior força econômica, diminuindo as casualidades inerentes ao futebol. Ao contrário dos mata-matas, no qual um time inferior pode contar com a sorte e o acaso para vencer a competição, os pontos-corridos valorizam a constância e o equilíbrio. E isso só pode ser conquistado com dinheiro. O curioso é que os defensores dos pontos-corridos quase sempre apontam para a justiça dessa forma de competição. Nessa perspectiva, vence sempre o melhor. Curiosamente esse é o mesmo lema daqueles que se opõem ao sistema de cotas para as universidades públicas. Em síntese, se o campeonato brasileiro continuar nesses moldes existirá sempre o risco dos clubes mais ricos (e organizados) assegurarem uma vantagem cada vez maior sobre os demais, criando uma disputa afunilada e injusta. Os mata-matas podem privilegiar a bagunça dos clubes, mas também garantem resultados inusitados. Qual é a graça de uma competição que depende apenas da previsibilidade entediantemente burguesa (e já peço perdão pelo termo… algo fora de moda atualmente…)?
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