O passado

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O livro do escritor argentino Alan Pauls é imenso. Mais de 500 páginas lidas com um certo pesar. Desse esforço, resultou uma reflexão: qualquer um que queira escrever algo tão imenso tem que se garantir; seu texto não pode ser recheado de altos e baixos, tem que ter um valor que justifique o tempo gasto para sua leitura. Acho que isso não se aplica ao livro de Pauls. O tema do livro é bem interessante. É a história da separação de Rimini e Sofia, um casal que ficou junto por muito tempo. Essa separação provoca uma progressiva dissolução da dignidade dos personagens, cada vez mais enredados numa história que não quer passar. Com o foco da narrativa centrada no personagem de Rimini, vemos como sua vida, seu trabalho, seus modos, tudo vai sendo degradado. Essa degradação é fartamente narrada pelo escritor, em alguns dos momentos mais interessantes do livro. A sensação que o livro provoca é de que não existe final feliz numa história de amor. O tempo parece corroer tudo e quando o casal tenta se abandonar esse mesmo tempo se volta contra eles, criando uma espiral de tormentos e desenganos. Não existe salvação para os apaixonados. No entanto, tenho a sensação que a história se arrasta de forma exageradamente longa, perdendo sua força numa narrativa sem atrativos especiais. A descrição pormenorizada da dor de Rimini enquanto consome quantidades cada vez maiores de cocaína, acompanhada de um processo de auto-mutilação cria um efeito muito forte. Entretanto, é sucedida por uma série de episódios menos dramáticos, como se diluísse a força daquele momento. Enfim, seria um livro que teria me agradado muito caso fizesse um belo regime (tirando umas 300 páginas e pronto, um livro bem mais interessante…). De qualquer modo, se o livro tem uma temática interessante ao apostar nesse sentido trágico dos relacionamentos, sua adaptação cinematográfica segue outro rumo. O filme de Hector Babenco parece com uma versão de Instinto Fatal latino-americana. O filme retrata Sofia como alguém incapaz de superar o relacionamento e arcar com o peso do passado sozinha. Rimini, por outro lado, tenta seguir com sua vida, buscando construir novos relacionamentos. Daí, surge uma personagem feminina completamente descontrolada e um homem fraco, incapaz de seguir sua vida como bem queria. Aquele Rimini degradado que surge do livro some. Surge apenas um sujeito perseguido por sua ex-mulher. Novamente é exemplar a cena da cocaína, enquanto no livro é o exemplo máximo do sofrimento de Rimini, no filme surge como algo gratuito, algo que o personagem consome enquanto trabalha. Daí, o fato dele cheirá-la sobre a foto de Sofia não diz muito. A sensação que o filme passa é bem diversa daquela que tive com o livro, nada daquele caráter trágico inerente aos relacionamentos humanos, o que surge na película é uma idéia muito mais banal, qual seja, a de mulheres que sofrem demasiadamente por amor, incapazes de superar o peso do abandono. Nada mais banal do que isso…

Feira de livros da História

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A Feira de livros da História é um momento único no ano. A chance de comprar livros muito mais baratos é realmente algo que me anima. Desde 2001 sempre aguardo a feira para rechear minhas prateleiras com novas aquisições. A feira tem de tudo um pouco. Editoras das mais diversas deixam seus livros em bancas espalhadas pelo prédio da História. Lá tem livros de humanidades, literatura, científicos (o que será isso?), quadrinhos, etc. Uma das melhores coisas da feira é observar as compras das pessoas conhecidas. Nesse momento dá pra aprender muito sobre essas pessoas. Acho que poucas coisas revelam mais sobre uma pessoa que seus hábitos de leitura. É claro que não basta comprar, afinal muita coisa que compramos na feira serve apenas para ocupar espaço na prateleira de casa (bem, tenho livros de 2001 que ainda sequer dei uma olhada…). De qualquer modo, creio que o interesse de comprar um determinado livro, mesmo que não seja lido, já diz bastante sobre a pessoa. Comprar um livro pressupõe algum interesse naquilo, alguma importância pessoal. Algo assim… Por isso gosto tanto de xeretar nas compras dos outros: tem aquele que compra um monte de livro sobre seu tema de pesquisa; tem aquele que compra um monte de quadrinhos; tem aquele que compra um punhado de literatura; tem aquele que procura os livros mais baratos, em geral aquelas edições de bolso; tem aquele que faz compras ecléticas; tem aquele que compra livros caros e, portanto, acessíveis apenas graças ao desconto da feira. Enfim, tem de tudo. E quando fico olhando as sacolinhas dessas pessoas, acredito estar as conhecendo um pouco melhor. Fico tentando imaginar o que minhas próprias compras diriam de mim mesmo…

Mutum

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O tema do olhar infantil é um motivo recorrente em filmes recentes. Não é difícil encontrar exemplos: Kamchatka, O ano que meus pais saíram de férias, Machuca, Io non ho paura, Ninguém pode saber, etc. São filmes no qual a infância, o olhar da criança, precisa tentar decifrar um mundo dolorido, de perda e dificuldades. No entanto, apesar do sofrimento, esses filmes conseguem criar um certo ar lúdico e poético, um ar próprio do mundo infantil, algo em desuso em nossos dias. Acho que Mutum pode ser situado nessa mesma temática. O filme de Sandra Kogut é uma adaptação do conto Miguilim de Guimarães Rosa, contando a história de uma família no sertão de Minas Gerais. No entanto, essa adaptação não se preocupa em seguir fielmente a narrativa do conto. Na verdade, o filme é bastante despojado de uma narrativa muito elaborada. Vemos uma sucessão de pequenos episódios, as vezes amarrados de forma bastante tênue, nos quais o menino Thiago vai aprendendo a lidar com a dor da perda, da separação, da mudança, da partida. Essa é a grande beleza do filme. A dor enxergada pelo espírito infantil de Thiago. Assim, quando seu irmão está convalescendo na cama, o garoto tenta ensinar um papagaio a falar o nome do seu irmão. Ou a felicidade do menino em lavar a cachorrinha Rebeca. Essas pequenas sensações vão sendo ofuscadas pela perda: do irmão, do cão, do tio, do pai. Esse contraste vai criando uma história simples e sensível. Simples porque é quase crua, sem atores profissionais, sem trilha sonora, sem narrativa em off, sem efeitos. Apenas a beleza das cenas e da atuação comovente dos meninos. É o olhar infantil que está em foco. Nesse sentido, o final do filme é especialmente belo, quando o menino redescobre o mundo ao colocar um par de óculos antes de partir do Mutum. É o momento de começar a abandonar a infância e enxergar o mundo com novos olhos, olhos cada vez mais tristes…

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO

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Gosto de histórias de amor. Sempre gostei. Talvez seja por isso que tenha me impressionado tanto A Via Láctea de Lina Chamie. O filme é uma história de amor muito pouco usual. Na verdade, quase não há história. O enredo não é linear, sendo composto por fragmentos. Fragmentos de lembranças, de citações, de músicas e, o mais interessante, fragmentos da cidade de São Paulo. O diálogo dessas citações vai criando no filme um tom cada vez mais onírico e poético. Algumas cenas são belíssimas. Gostei especialmente da sensação de redescobrir uma cidade perdida no nosso cotidiano apressado de paulistano. Enfim, um filme que por meio de seus múltiplos fragmentos consegue contar uma bela história. Ou algo assim…

Mostra de Cinema

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Pensei em escrever um texto sobre alguns filmes da Mostra. Acabei enrolando bastante e não escrevendo nada. Agora que já ando esquecendo tudo que vi, acho melhor escrever um comentário mais geral sobre a Mostra desse ano. Devo dizer que não sou um freqüentador tão assíduo como gostaria de ser. Nunca comprei pacotes de ingressos ou permanentes. Assisto sempre alguns poucos filmes. Poderia dizer que o faço porque escolho apenas aqueles que mais me interessam. Mentira. Esse ano fiz uma lista imensa de filmes que gostaria muito de ver. Enfim, talvez me falte um espírito de Mostra, aquilo que motiva alguém a assistir 40 ou 50 filmes em pouco mais de duas semanas. Quem sabe na próxima…

Bem, ainda que não me embriague de filmes, espero com muita ansiedade a época da Mostra. Adoro passar horas olhando a programação, escolhendo filmes, lendo as sinopses, tentando identificar os diretores, os países com meus filmes favoritos, e eventualmente assistindo um filme ou outro. Foi com uma grande expectativa que aguardei a Mostra desse ano. Quando ela chegou, no entanto, não me senti tão animado. Os filmes não pareciam tão interessantes quanto no último ano (ainda que tenha gostado muito dos que vi), as filas pareciam ainda maiores, os horários não batiam, e meus compromissos pareciam impedir que pudesse acompanhar tudo com o devido cuidado. Enfim, realmente não estava no clima que pensei que estaria. Mas, mesmo com todo esse desânimo, teve algo que realmente vai me fazer lembrar dessa mostra com muito carinho… foi minha primeira mostra junto com a Mariana. E isso fez toda diferença.

Bem, quanto aos filmes… Gostei demais de cinco filmes: Persepolis, Hana, Em Paris, Jogo de Cena e Perdido em Pequim. Esse último, por sinal, foi uma bela surpresa que tive. O filme conta a história de uma moça que foi estuprada pelo seu patrão na frente do seu marido. Tudo fica ainda mais complicado quando ela descobre que está grávida, e seu marido bola um plano para deixar a criança com o patrão em troca de muito dinheiro. O filme lembra um outro filme que gostei muito, A Criança dos irmãos Dardenne. Nos dois filmes o que vemos são adultos incapazes de agir como tal, ou seja, sem responsabilidades ou compromissos. Tudo é gratuito e ninguém deseja abraçar as conseqüências.

Hana foi outro filme que me surpreendeu bastante. É a história de um samurai que deve vingar a morte de seu pai no Japão do século XVIII. No entanto, ao contrário das expectativas, não é mais um filme de samurais defendendo valores tradicionais de honra e prestígio. Nada disso. O filme, na realidade, é uma grande macaqueação disso tudo, pois o samurai é covarde e não pretende lutar com ninguém para resgatar a honra perdida de sua família. Assim, ao invés daqueles filmes cheios de lutas e batalhas sem fim, Hana conta a história desse personagem vivendo numa pequena comunidade pobre. Além disso, o filme tem um lado cômico bastante surpreendente, especialmente para quem assistiu Ninguém Pode Saber, o filme (lindíssimo) anterior do diretor de Hana.

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