Caco Galhardo: genial !!

0

XXY

0

Por Alain El Youssef

Em tempos de biopolítica é difícil encontrar algo que escape a este tipo de poder, uma vez que tudo (ou quase tudo), hoje em dia, parece estar englobado por essa lógica. Uma rara exceção a este modus vivendi pode ser visto na produção argentina intitulada XXY. Este filme narra a história de Alex, uma hermafrodita criada (à base de remédios) como uma menina. Encontrando-se no início de sua vida sexual, a protagonista do filme se vê diante dos problemas que sua condição acarreta para a sua vida pública, principalmente no âmbito dos relacionamentos pessoais. Por meio destes, Alex acha-se frente ao seguinte dilema: continuar a ser mulher ou se tornar um homem? Para completar a trama, um cirurgião plástico aficcionado por “bizarrices” (um agente biopolítico por excelência) reside por alguns dias na casa da família de Alex com o intuito de convencer a família a fazer a cirurgia corretora. Mas embora tudo pareça indicar para a tomada de uma decisão, Alex opta por enfrentar todas as conseqüências de possuir ambos os sexos, não fazendo nenhuma alteração em seu corpo. Decisão, esta, bastante ousada e, até certa forma, incompreensível para uma sociedade como a nossa. Todavia, ao optar por não optar, Alex nos ensina que a vida ainda pode ser perfeitamente vivida, independente das características físicas dos nossos corpos e para além dos códigos normatizadores. Não seria esta uma ótima lição para um país onde a população é uma das que mais faz cirurgias plásticas (muitas vezes fúteis) em todo o mundo?

Simpatia

1

A proposta da peça Simpatia, com roteiro de José Rubens Siqueira e direção de Renata Melo, é contar a “história de gente comum que contêm os grandes temas, as coisas importantes da vida”. Essas histórias foram construídas por meio de depoimentos femininos, mostrando a “valentia”, o “heroísmo” e os esforços dessas mulheres para se inserirem na “sociedade de Mercado sem se render à desumanização da Lei do Mercado”. Esse tema surrado do uso pode resultar numa grande peça, numa bela história, quando retomado em nova chave, dando um novo sentido, um novo significado. No entanto, essa escolha pode causar grandes problemas quando não se consegue escapar do clichê, insistindo em idéias pré-concebidas e temas recorrentes. O texto de Siqueira, infelizmente, acaba realizando a segunda possibilidade. O texto é composto de fragmentos de histórias, repetindo a exaustão certas imagens e concepções comumente associadas ao mundo feminino, construindo um discurso excessivamente piegas e normativo. O ponto de apoio de grande parte das narrativas é o espaço privado. É a preocupação com a família, com a maternidade, com o casamento que dão contorno à vida dessas mulheres. O trabalho aparece também, mas sempre como algo que problematiza o universo privado, que força o abandono do lar, do marido, da família. Tudo isso contado da forma mais batida possível: a moça que foi violentada pelo parente e foi expulsa de casa, as amigas que fofocam sobre seus problemas conjugais e sexuais, a senhora rica que foi abandonada pelo marido (no caso, ele se suicidou) após a falência, o problema do marido alcoólatra, etc. Uma infinidade de cenas que remetem ao velho clichê do universo feminino, é acima de tudo disso que se trata Simpatia. Vale dizer que o título expressa um péssimo duplo sentido. Remete tanto a compaixão que a peça busca inspirar no seu público quanto aos recorrentes “pequenos rituais para conseguir coisas boas ou prevenir ruins”. É isso mesmo, a boa e velha mandinga. Pois é, um sem-número de narrativas versam sobre o papel das simpatias na vida dessas mulheres, na conquista de seus sonhos e na superação das dificuldades de suas vidas. Curiosamente, há uma historieta que satiriza a coisa toda da simpatia, criando uma situação completamente absurda, no entanto essa é encenada por um ator. No final das contas, as simpatias se somam ao amontoado de chavões que nosso imaginário social constrói quando pensamos no universo feminino, reificando papéis e quase que naturalizando determinadas relações de gênero. Bem, apesar disso tudo, há um ou outro momento que consegue criar algo bacana, especialmente duas cenas bem no final do espetáculo: uma que traz uma senhora angustiada pela progressiva perda de sua sanidade e outra sobre a relação entre uma senhora, seu cão velho e seu filho. Duas histórias sobre velhice que poderiam ser muito melhor exploradas. A montagem também é toda muito bem feita, boas atuações, um cenário cheio de truques, enfim resultado de um belo investimento e patrocínio. Pena que isso, por si só, não faça as coisas ficarem mais interessantes.
Em tempos, acabei de descobrir que a belíssima peça “Últimas Notícias de uma história só” vai reestreiar no dia 02 de abril, no Teatro Augusta. É excelente e imperdível, especialmente se estiver num horário mais acessível (da última vez era exibida no pior horário para quem depende de transporte público, meia noite).

O Fantasma dos livros não-lidos

4
Meu quarto é cheio de pilhas de livros. Não tenho espaço pra guardá-los da forma adequado, então vou empilhando como dá, e depois que meus armários ficaram cheios, fui obrigado a mantê-los permanentemente pelo chão. Felizmente, quando mantenho uma ordem mínima, ainda é possível andar pelo quarto. Bem, entre essas pilhas existe uma que me vive me assombrando, a pilha imaginária dos livros lidos pela metade. Imaginária porque, obviamente, não sou meticuloso o bastante para separá-los assim. Mas eu sei bem onde eles estão. Aqueles romances que comecei a ler e nunca terminei. Claro, porque são apenas os romances que nos assombram quando não os terminamos. Todo mundo sabe que livros acadêmicos, teses, artigos, essas coisas mundanas, não foram feitos para serem lidos inteiros, não é nenhum tipo de ofensa deixar uma tese pela metade. Mas romances, esses sim, foram feitos para serem lidos. Começar algo e não terminar é quase um pecado. Claro, há aqueles casos que logo se nota que não vale o esforço, livro sem importância, sem interesse, sem valor estético ou afetivo. Não são esses que me refiro aqui. Os Livros que assombram são aqueles que dizem alguma coisa, que valem o esforço, mas mesmo assim ficam pela metade. Em geral, são aqueles que terminam numa leitura rápida, aqueles mais duros, de digestão lenta. Aquele tipo de livro que é estranho a um mundo frenético como o nosso. Lembro alguns que foram ficando assim: O Idiota, O caminho de Swann, Viagem ao fim da noite, Cem anos de Solidão, Sursis, Ilusões Perdidas, Sobre heróis e tumbas. Todos começados, lidos com interesse, mas que foram esquecidos, por algum motivo inexplicável, na pilha de livros. Agora, aguardam o dia da retomada, sempre ligado ao difícil dilema: continuar de onde parei? Recomeçar tudo novamente? Esses livros não lidos são como projetos abortados, algo muito próprio de um ababelado. Por isso me assombram…

Juno

0

Juno é um filme leve, ligeiramente divertido, uma breve diversão, algo feito para animar as pessoas. Ele é muito bem sucedido nessa proposta, a história é cheia de momentos bonitinhos para agradar a todos, a bela trilha sonora ajuda muito nisso, sem ela tudo seria muito chato. Mas, para isso acaba optando por não retratar uma situação sem qualquer conflito. O filme conta a história de Juno, uma moça de 16 anos que engravida e decide não realizar um aborto. Mas também não se sente capaz de criar a crionça, já que reconhece sua falta de maturidade. Por isso, resolve doá-lo para um casal que não pode ter filhos. Todos acham essa solução perfeita, os pais de Juno, o casal que anseia por uma bela crionça, a amiga do colégio, o “namoradinho” de Juno. Ninguém parece se importar, os conflitos rapidamente são apaziguados, nada atrapalha os planos de Juno. Certamente, o filme nos mostra um mundo melhor, muito melhor que o nosso. Especialmente porque nesse mundo ninguém precisa se responsabilizar por nada. Juno não precisa se decidir pelo aborto nem por se tornar mãe, não precisa arcar com o peso de suas decisões. Nesse sentido, o filme é muito atual, reflete uma aspiração bastante disseminada, afinal quem não gostaria de viver assim, sem precisar seriamente se responsabilizar por qualquer coisa que seja?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...