Quintanices

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Tão Simples

A verdadeira coragem consiste, apenas, em não nos importarmos com a opinião dos outros… Mas como custa!

Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho, p. 195

Michel Gondry (um esboço)

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Ano passado, quando estava montando minha programação da Mostra Internacional de Cinema, descobri que seria exibido o filme “novo” de Michel Gondry, diretor do belíssimo “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança” (2004). Novo não era propriamente o termo certo, afinal o filme, “La Science des Rêves”, era de 2006. De qualquer modo, não fora exibido por aqui, nem seque lançado em DVD. Fiquei bastante animado, mas infelizmente muita gente também ficou e acabei sem ingressos. Depois de muita procura, finalmente consegui encontrar o filme na Internet. E de quebra, consegui baixar também seu trabalho mais novo, “Be Kind Rewind” de 2007. Gostei bastante de ambos. O que mais me agradou foi perceber como esse jovem diretor está construindo uma linguagem bastante própria e interessante.

O que chama atenção nos seus filmes é a forma como a realidade vai sendo borrada pela inconstância das lembranças e dos sonhos, criando uma atmosfera meio surreal e um pouco nonsense. Em “La Science”, o protagonista Stephane, interpretado por Gael Garcia Bernal, vive embrenhado em um mundo no qual seus sonhos se interpenetram com sua vida real, servindo como um escape da realidade asfixiante de um emprego banal. Esse movimento acaba tornando meio difusa a linha que separa a realidade e os sonhos de Stephane. Suas pequenas epifanias oníricas vão ganhando uma materialidade, o que acaba por afastar o personagem daqueles que estão próximos, deixando-o cada vez mais preso em seu mundo.

Essa experiência, mediada pela subjetividade, pela interiorização do sonho, acaba redundando em uma dificuldade de comunicação, de um isolamento, de uma fratura na sociabilidade, nas possibilidades de interação entre os personagens. Em alguma medida, esse é o tema também do “Brilho Eterno”, expresso pela falência do relacionamento do casal protagonista. Da incapacidade de se comunicar o que resta é virar-se para dentro, e esforçar-se por obliterar qualquer vínculo mais duradouro.

O par lembrança/sonho acaba ganhando uma concretude violenta no universo de Gondry. Isso, no entanto, não elimina a dimensão lúdica dessa experiência. Na verdade, algumas das cenas mais belas de “La Science” são, justamente, os sonhos de Stephane, construídas com soluções simples, mas bastante surreais. Tudo muito colorido, muito expressivo. A força das imagens é tremenda, emulando o efeito de um vídeo-clipe. Não é gratuito que uma boa parte da produção de Michel Gondry, para além de seus filmes, seja desses clipes.

Esse esgarçamento do tecido social é um tema recorrente na produção do diretor francês, sendo retomado em “Be Kind”. No filme, Jack Black e Mos Def interpretam dois colegas que, após estragarem todas as fitas de uma locadora, começam a criar suas próprias versões dos filmes. O lado nonsense volta a tona com as filmagens toscas que a dupla vai realizando. A diferença é que aqui há um olhar um pouco mais leve sobre o tema do isolamento, a virada para o interior se dá de outra forma. A experiência de refilmar os filmes é compartilhada pela vizinhança, o que consegue restabelecer uma certa sociabilidade.

O filme acaba tratando novamente da lembrança e do sonho, mas em outra chave. Neste, a questão é tentar preencher de sentido uma experiência que, por natureza, é vazia. O ponto máximo desse processo é a construção coletiva de um documentário ficcional, baseado apenas na imaginação da vizinhança. O que era antes um movimento para dentro, uma introspecção onírica, acaba se tornando um ato coletivamente compartilhado.

Além disso, a idéia do documentário retoma uma questão que também aparece nos seus demais filmes: o caráter fluido e artificial das lembranças. Em “Brilho Eterno” isso se dá de maneira negativa com a possibilidade de apagar memórias dolorosas, remover aquilo que não pode mais ser vivenciado. Na impossibilidade de se curar dos traumas, de viver o luto da perda, há uma negação da experiência.

Já em “Be Kind” isso funciona num sentido inverso, numa perspectiva positiva, criadora. A comunidade em torno da locadora “inventa” um passado, um conjunto de fatos e acontecimentos, toda uma trama narrativa, para construir um documentário que dê sentido para suas experiências. A história a ser contada não precisa ser verdadeira, na acepção forte do termo, para ter um significado.

Em alguma medida, no mundo de Gondry há um nítido descolamento entre uma realidade do mundo, algo como os “fatos como eles são”, e as possibilidades de narrar essa realidade. Constatação banal, eu sei. Mas a pretensão positivista de narrar o mundo continua permeando o universo dos historiadores. Os filmes de Gondry, assim, servem como uma interessante possibilidade de reflexão sobre o frágil estatuto de nossa suposta realidade.

Noites Brancas de Luchino Visconti

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Noites Brancas de Luchino Visconti é um dos meus filmes preferidos. Baseado no livro homônimo de Dostoievski, conta a história de Mario (Marcello Mastroianni), um jovem funcionário que foi transferido para a pequena cidade de Livorno. Lá, o personagem vive uma existência bastante solitária, pois não conhece ninguém além da família de seu chefe e da senhoria de sua pensão. Essa rotina, no entanto, é quebrada quando Mario se encontra com Natalia (Maria Schell), uma moça bela e triste que aguarda ansiosamente pelo retorno de um misterioso homem. Mario, é claro, se apaixona pela moça e ambos passam a se encontrar, noite após noite, compartilhando as dores dessa espera agonizante.

O filme, além de contar uma bela história de amor, é importante pela sua inovação estética. Como se sabe, Luchino Visconti foi o cineasta que produziu algumas das mais importantes obras daquilo que convencionalmente foi chamado de “neo-realismo” italiano. Em linhas muito gerais, esses filmes eram marcados pelo esforço de representar com fidelidade a degradação da realidade social italiana em decorrência da guerra. Esse efeito era alcançado por meio de certos procedimentos: filmagens em espaços abertos, sem a construção de cenários; utilização de atores amadores; a temática preferencial era aquela que atentava para os modos de vida das classes operárias…

Com Noites Brancas, Visconti abandona esses procedimentos. A fotografia do filme, sobretudo, rompe com a forma usual, não utilizando nenhuma tomada em espaço aberto. Tudo é feito dentro de um estúdio, no qual foi construída uma Livorno fantasiosa e onírica. A cidade emana um ar decadente e melancólico. Tudo é muito triste. Os efeitos de luz deixam as ruas e as construções com um leve ar irreal. O mais interessante é que o aspecto da cidade vai se transformando de acordo com os sentimentos dos personagens. Aquele aspecto sombrio e triste vai dando lugar a uma cidade mais jovem e alegre. As luzes ganham vida e a neve, que começa a cair apenas no final do filme, criam uma nova Livorno. É nesse momento que a dolorosa espera é suspensa e a felicidade não parece algo tão distante. Por essa razão, alguém disse que a Livorno viscontiana é uma cidade metafísica, na qual a realidade está misturada com o sonho e com o desejo.

Esse aspecto onírico consegue materializar o espírito dos personagens: solitários que precisam se abraçar com força em seus próprios sonhos e desejos, aos quais a força da realidade é insuportável. É impossível não se comover com as lágrimas de Mastroianni. Lágrimas que trazem todo o peso da realidade, sempre mais forte que qualquer sonho ou desejo.

Velha História

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Descobri meio por acaso os livros de Mario Quintana. Desde então, fico encantado com suas poesias. O poeta consegue criar imagens belas e singelas a partir das pequenas coisas. Agora a pouco, assisti um pequeno curta baseado no poema Velha História que é lindíssimo. O filminho, dirigido por Claudia Jouvin, está disponível no Youtube. Uma pequena preciosidade…

Velha História

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no “17″! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial… Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: “Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!…” Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando… até que o peixinho morreu afogado…
(Mario Quintana, Quintanares, p. 105)
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