Nome Próprio

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O novo filme de Murilo Salles, “Nome Próprio”, me parece uma excelente oportunidade para começar a refletir sobre a geração-blog, a minha geração e, provavelmente, a sua também. O filme conta a história de Camila, uma blogueira que anseia por escrever um livro. Enquanto não consegue começar sua obra, Camila vive uma sucessão de relacionamentos instáveis, amizades fugidias, sem rumo e sem casa. Tudo se desenrola com fluidez. No mundo de Camila não há espaço para qualquer fixidez. O único papel válido é esse papel que não se deixa capturar, que não assume qualquer papel. Esse mundo particular, no entanto, não é um mundo privado. Na verdade, Camila se dedica a narrar suas experiências em seu blog. Nele escreve sobre suas frustrações, abandonos, traições, sobre si, seus problemas. Em suma, sua vida privada, sua autenticidade, seu eu mais profundo. Abre-se, com isso, para o mundo, se revela, permite que adentrem no seu espaço mais íntimo. Não é gratuito que o espaço dessa narrativa seja um blog: sua natureza, um texto recortado, sem o esqueleto narrativo de um texto tradicional, consegue combinar com perfeição a forma com o conteúdo. Nesse sentido, o que se vê é uma personagem que encarna com bastante justeza essa modernidade líquida, avessa aos constrangimentos dos papéis sociais fixos e estáveis, que configura nossa vivência contemporânea. Ademais, Camila sente uma necessidade brutal de falar, de confessar seus sentimentos, de falar de si, de expor sua intimidade e seu eu. Camila representa o ponto de fuga de nossa sociedade confessional, dessa necessidade tão nossa de falarmos de nossas subjetividades. O blog acaba se tornando o elemento que configura a própria subjetividade de Camila. Assim, Camila conquista uma liberdade para ser tão autêntica quanto quer, livre de todos os constrangimentos, exceto um: a obrigação de falar de si, de ser ela própria, de viver ao máximo sua individualidade. Hum, nada mais familiar a todos nós…

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