Diário de um ano ruim

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Lembro-me que no começo da minha faculdade, já faz um certo tempo, um professor pediu como avaliação do curso a escrita de um ensaio. Na época, estava mesmerizado pelo rigor da pesquisa acadêmica, logo um ensaio não me parecia algo assim tão relevante. Que ingenuidade… Bem, hoje não vivo mais tão encantado com a “seriedade” acadêmica e por isso que fiquei tão encantado com o novo livro de J. M. Coetzee, Diário de um ano ruim. O escritor sul-africano certamente é um dos meus escritores contemporâneos favoritos, afinal é dono de uma narrativa muito cativante. O grande interesse de seu novo livro, no entanto, não se limita a isso. Em Diário, o autor radicaliza um procedimento que já havia sido utilizado em alguns de seus livros anteriores: unir a reflexão ensaística com a literatura. Para tanto, o escritor divide seu texto em três partes, três discursos simultâneos pelas páginas do livro. Na primeira estão as opiniões que formarão um livro de um velho escritor. Abaixo (literalmente abaixo, as páginas do livro estão divididas em três partes) esse mesmo escritor vai narrando seu encontro com uma bela moça filipina, a qual acaba por virar a digitadora de seus textos. Finalmente, há a narrativa da própria moça. As três partes vão se conectando a todo o momento, construindo uma bela reflexão sobre a velhice e o papel das idéias em um mundo que não mais parece se importar com elas. Com isso, Coetzee consegue realizar um experimento estilístico bastante interessante sem abandonar a essência da literatura, o ato de narrar uma história. E não dá para olhar para um livro como esse sem pensar, com uma certa tristeza, como os horizontes da reflexão acadêmica parecem cada vez mais capazes de sufocar qualquer chance de pensamento.

Sobre a vida acadêmica

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“Uma famosa romancista é convidada por alguma universidade para dar uma palestra. Sua visita coincide com a visita do professor X, que lá está para dar uma palestra sobre (digamos) as moedas hititas e o que elas podem nos revelar sobre a civilização hitita
Num impulso, a romancista comparece à palestra do professor X. A platéia tem apenas seis outras pessoas. O que X tem a dizer é interessante, mas sua fala é monótona e há momentos em que ela sente sua atenção se desviar. Ela chega a dar uns cabeceios.
Depois, ela puxa conversa com o professor que convidou X. X, ela descobre, é muito estimado entre seus colegas acadêmicos; mas enquanto ela está alojada em um hotel de luxo, X está acampado no sofá da sala de seu hospedeiro. Embaraçada, ela se dá conta de que enquanto ela faz parte de uma ala modestamente florescente da indústria do entretenimento, X pertence a uma ala negligenciada e desprestigiada dentro da academia: resquícios dos maus parasitas acadêmicos dos velhos tempos que não trazem nem dinheiro nem prestígio.
A palestra dela, no dia seguinte, atrai uma grande platéia. Em suas observações preliminares, ela compara a cálida recepção a ela com a fria recepção a X (…). A disparidade lhe parece vergonhosa, diz; em que se transformaram as universidades?
No jantar em sua honra, depois da palestra, ela se surpreende ao descobrir que o reitor, longe de se incomodar com suas observações, ficou satisfeito. Toda controvérsia é boa controvérsia, ele diz a ela (…). Quanto a X, esses acadêmicos da velha guarda não estão tão mal como ela parece pensar. Gozam de estabilidade no emprego, de salários substanciais, e em troca de quê? De conduzirem pesquisas que no esquema geral das coisas equivalem a não mais que hobbies de antiquários. Onde, senão nas universidades públicas, eles conseguiriam uma situação tão vantajosa?
De volta a sua casa, ela escreve ao professor X, relatando sua conversa com o reitor. X responde: Não devia se sentir mal, diz ele, não me lancei aos estudos hititas para ficar rico ou famoso. Quanto a você, diz ele, você merece tudo o que receber, você tem a centelha divina…”
(J. M. Coetzee, Diário de um ano ruim, p.196-197)
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