Boleiros

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O futebol ocupa um lugar sem igual em nosso imaginário, não há nada que alimente tantas expectativas e que governe tanto nossos ânimos e emoções. Essa força imaginativa, como não podia deixar de ser, é repleta de lugares-comuns e idéias feitas, as mesas redondas quase idênticas que pipocam pela televisão aos domingos são exemplares nisso. Talvez seja isso que torne a presença do futebol no cinema ou na literatura algo tão complicado. Poucos são os filmes que o elegem como um elemento central de suas narrativas. Isso já torna o filme Boleiros, de Ugo Giorgetti, um filme digno de atenção. Mas seu interesse, na verdade, não se limita apenas à transformação do futebol em matéria cinematográfica. Giorgetti consegue retrabalhar os lugares-comuns, que permeiam nosso imaginário futebolístico, em uma teia de memórias animadas por uma profunda ligação afetuosa pelo esporte. Estas memórias são resgatadas na conversa de um grupo de velhos boleiros, já aposentados dos gramados, que se reúnem para lembrar os velhos tempos. Dessa conversa vai surgindo uma sucessão de episódios pitorescos – como o juiz corrupto que burla todas as regras; o jogador talentoso, mas que não consegue lidar com seus problemas pessoais; o técnico linha-dura que tenta disciplinar o jogador malandro; o jogador machucado que encontra sua cura nas mãos de um pai-de-santo – que vai recompondo as lembranças de um tempo que não volta, do tempo da bola e da grama, cercado pelas pulsões da multidão. É desse tempo que trata o filme, tempo ido, melancolicamente perdido para o presente. A alegria desse tempo é contrastada com a sensação de decadência da situação presente. Os corpos altivos dos boleiros no passado são contrapostos aos corpos idosos dos ex-boleiros. Essa contraposição cria um futebol que não é o futebol das grandes conquistas, das carreiras vitoriosas e multimilionárias, do glamour mundial, mas o futebol daqueles que já não brilham mais, que guardam um punhado de lembranças um pouco amargas, lembranças dominadas pela sensação da decadência do corpo envelhecido. É isso que faz a beleza do filme, desse olhar que acompanha algo que não lhe pertence mais, um olhar repleto de afeto e carinho, mas que não pode mais se realizar senão pelo olhar. Os boleiros de Giorgetti se tornam, assim, uma representação trágica do próprio esporte, uma representação daqueles que realizam uma entrega ardorosa de si, recebendo de volta apenas um punhado de lembranças dos dias gloriosos. Nesse sentido, os boleiros vivem ao extremo os dilemas de nossa relação com o corpo – num tempo em que o corpo é visto como matéria provisória, que exige um cuidado constante com a saúde, a força, a vitalidade da juventude, o corpo como uma expressão da subjetividade –, quando o envelhecimento é o maior pecado. Envelhecer é ser excluído da comunidade, da comunidade da potência e da vitalidade. Os boleiros olham para o passado lembrando seu tempo áureo, e o fazem com a certeza de que já não fazem mais parte daquele passado. O cuidado com o corpo, postulado ético central em nosso tempo, não pode evitar a decadência do tempo, esse é o grande dilema. O filme consegue, portanto, construir uma bela reflexão sobre essa exclusão, sobre o lugar da velhice e da memória em nosso mundo.

Educação Biopolítica

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“Nos anos 80, nos EUA, considerava-se uma criança demasiado ativa como manifestando um déficit de atenção. Ela entrava no registro das patologias da química cerebral e da constituição genética. Milhões de estudantes são hoje tratados com ritaline ou outros medicamentos em virtude de sua dificuldade de aprendizagem ou de perturbações que provocam em suas classes. São tratados por ansiedade, depressão, problemas de comportamento etc. A educação familiar é protegida, dessa forma, de qualquer dúvida quanto ao seu funcionamento, tem certeza de jamais estar errada. (…) A biologização do sintoma da criança naturaliza suas condutas – que pretensamente agora exprimem sua patologia e não mais seu sofrimento por estar imersa em uma situação em que não encontra sua razão de ser. A escuta da criança, o suporte afetivo, o acompanhamento ao seu lado, a detecção de violências familiares ou escolares deixam de se impor quando se trata de cuidar estritamente do sintoma (a criança transformada em terminal biológico) sem ter mais de interrogar as causas (o sistema de relação em que está imersa)”

David Le Breton, Adeus ao corpo, p. 58

Wall-E

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A animação Wall-E, dos estúdios Pixar, parece, inicialmente, mais um daqueles filmes preocupados em alertar-nos sobre os perigos de uma catástrofe ecológica global. A distopia ecológica é um tema bastante popular, é incrível como esta abordagem conquista tanto as pessoas… felizmente, a história do robô Wall-E não se limita a construir mais um discurso politicamente correto sobre a necessidade de proteger o meio-ambiente. Indo muito além da questão ecológica, o filme aborda, fundamentalmente, a questão da (in)comunicabilidade contemporânea. No mundo de Wall-E, os humanos foram obrigados a abandonar a Terra e se refugiar em uma gigantesca nave espacial até que o planeta esteja novamente em condições de abrigar os seres vivos. O protagonista, no entanto, não acompanhou a fuga, já que foi programado para limpar a sujeirada que foi deixada para trás. Acompanhado apenas por uma barata, Wall-E segue cumprindo sua tarefa, enquanto coleciona um infindável número de objetos que encontra pelo caminho. Wall-E segue em sua missão solitária até o dia em que encontra uma pequena plantinha no meio da sujeira. Esta planta ativa os mecanismos de outro robô, Eva, que tinha como objetivo rastrear a superfície do planeta em busca de sinais de vida. O encontro dos dois e as tentativas de Wall-E em se relacionar com Eva constituem a trama do filme, cheia de peripécias e um leve humor. O que é interessante é o contraste entre os modos de existência de Wall-E e a vida dos humanos, quando o robô chega ao espaço. Os homens vivem cercados por máquinas e não realizam nenhum tipo de atividade, sequer se movem, pois são carregados por uma espécie de cadeiras flutuantes. Suas vidas são todas pautadas pelas rotinas automáticas das máquinas: seus alimentos, suas diversões e até mesmo suas comunicações são operacionalizadas pelo gigantesco computador da nave. Não há uma conversação verdadeira, todos se comunicam apenas pelos computadores; não há sequer um gesto direcionado ao outro, os humanos não se tocam e não se olham, vivem em contato constante com as máquinas. Essa existência particular afetou não apenas os modos de ação, mas até mesmo os seus corpos, a ausência de qualquer atividade, combinada com fartas refeições (fartas, mas insípidas, tudo que os humanos consomem é servido em copos enormes de refrigerante), transformou todos em seres imensamente gordos e incapazes dos mais simples movimentos. Essa existência humana, totalmente maquinal, é contrastada com a vivacidade de Wall-E. O pequeno robô se movimenta pela nave, quebrando as rotinas das máquinas, entrando em contato com os corpos humanos. O que Wall-E mais deseja é segurar a “mão”, criar um vínculo, um afeto, estabelecer uma verdadeira conversação com o outro. O robô acaba sendo o único personagem que busca, realmente, viver uma experiência humana, viver a experiência do gesto, da abertura ao corpo do outro. Este gesto “humano” mostra uma imensa capacidade para erodir os gestos “maquinais” dos homens, quebrando a rotina automática, abrindo canais de conversação. Os homens-máquinas, quando afetados pela ação de Wall-E, não escapam ilesos. O que surge, portanto, metaforizado na figura do robozinho, é o potencial transformador do gesto não-disciplinado, capaz de reinstalar uma vitalidade perdida, quebrando os modos de vida mecanizados. Por isso, num mundo onde os vínculos virtuais – amizades virtuais, namoros virtuais, sexos virtuais – são tão disseminados, o gesto de Wall-E ganha uma dimensão importante, servindo como uma metáfora da nossa dificuldade, ou até mesmo da nossa incapacidade, para estabelecer uma verdadeira comunicação com o diferente, o outro.

Cinema e Poesia

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O privilégio do cinema é permitir a um grande número de pessoas de sonhar o mesmo sonho juntos, e de nos apresentar a ilusão como se fosse a pura realidade. Isto é, em resumo, um admirável veículo para a poesia.

Jean Cocteau, Testamento de Orfeu.

Dois Irmãos

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A marca que domina os personagens da peça “Dois Irmãos”, uma adaptação do texto homônimo de Milton Hatoum, é o desejo. Seja pela sua presença sufocante e irrefreável, seja pelo seu oposto, pela ausência congelante e vazia, a tragédia da família de libaneses na Amazônia nasce do desejo. A trama central da peça é o conflito insuperável dos gêmeos Yaqub e Omar, diferentes em tudo: Yaqub é centrado, disciplinado, tímido, aplicado nos estudos e comedido nos modos; Omar é puro desejo, festeiro, extrovertido, hedonista e sem limites. Ainda que de personalidades tão antagônicas, ambos acabaram nutrindo uma paixão pela mesma garota, fato que serve de gesto inaugural de todo o conflito. Em torno do conflito dos irmãos, gira o restante da família: o patriarca Halim, que nutre uma paixão sem limites por sua esposa, Zana. Esta nunca consegue se desprender de seus filhos, especialmente Omar. Rânia é a filha mais nova da família, guardando uma relação ambígua com a mãe e seus irmãos. Finalmente, vive na casa uma cunhatã chamada Domingas, tratada quase como escrava, mas que estabelece uma relação íntima com os gêmeos. Muito mais do que uma história de ódio fraternal, a peça fala sobre a força paralisante e trágica do desejo. É o desejo de Halim por Zana que o submete a todas as vontades de sua esposa. São essas mesmas vontades que impedem Zana de libertar seus filhos, de permitir que eles partam e vivam. É o desejo negado a Rânia, quando sua mãe não lhe permite que viva com o homem que ama, que a torna fria e reclusa, vazia e quase sem vida. Mas, não há dúvida nenhuma que os dois personagens que expressam com mais força a ambigüidade do desejo sejam os dois gêmeos. Omar é puro desejo, que na sua força irrefreável acaba por ferir e causar sofrimento a todos que lhe são próximo. Já Yaqub é o absoluto contrário. Sua disciplina austera tenta a todo custo dominar seu desejo, mas isso o torna uma pessoa vazia e cheia de ódio, incapaz de reatar qualquer vínculo duradouro com sua família. Na impossibilidade de superar essa ambigüidade do desejo é que vai se estruturando um conflito trágico, que acaba por arrasar todos. Vale dizer que a tensão interna da família extravasa para além do núcleo doméstico, possibilitando uma articulação da narrativa com os movimentos mais gerais da sociedade brasileira no período, como por exemplo, na tomada de posições contrárias dos gêmeos frente ao golpe militar de 1964. Por isso tudo, a peça “Dois Irmãos” é uma história que toca com força o espectador. A montagem, bastante simples, sem nenhum recurso exagerado, contribui bastante para a força do texto, fazendo jus à beleza da obra original.

A peça está em nova temporada, agora no Teatro Imprensa, até o dia 16/03.

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