Do corpo biopolítico

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“A bioascese é um cuidado de si, mas, à diferença dos antigos, cujo cuidado de si visava a bela vida, e que Foucault chamou de estética da existência, o nosso cuidado visa o próprio corpo, sua longevidade, saúde, beleza, boa forma, felicidade científica e estética, ou o que Deleuze chamaria a “gorda saúde dominante”. Não hesitamos em qualificá-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista – diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana. Que, ademais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações, um reservatório genético, um dividual estatístico, com o qual somos lançados ao domínio da biossociabilidade (“faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos” etc.), isto só vem fortalecer os riscos da eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada… Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no âmbito da sobrevida, da produção maciça de “sobreviventes”, no sentido amplo do termo.”



Peter Pál Pelbart

“Vida Nua, vida besta, uma vida”

Viver sem tempos mortos

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Assisti no domingo ao monólogo “Viver sem tempos mortos”, interpretado por Fernanda Montenegro e dirigido por Felipe Hirsch. O texto é baseado na correspondência entre Simone Beauvoir e Jean-Paul Sartre, a montagem é simplíssima, quase não há cenário, apenas um tablado com um pequeno banco e um foco de luz, a atuação é contida, discreta, tocante. Tudo funciona para potencializar a força do texto, das palavras, idéias e da vida da filósofa francesa. Em pouco mais de uma hora, a atriz encena uma Simone envelhecida que rememora sua vida, os acasos e encontros que a moldaram, suas idéias e suas paixões, e, mais do que tudo, seu relacionamento com Sartre. Acompanhando a narrativa, pude relembrar um momento no qual nutri um grande interesse pelas idéias existencialistas. Foi bem no começo da minha faculdade, quando conheci alguns textos de Sartre, especialmente suas obras literárias, mas também os textos filosóficos mais didáticos, como o Existencialismo é um humanismo, entre outros. Nunca me aventurei com leituras mais complexas, como as grandes obras de Sartre. Mas, o pouco que li me encantou. A idéia de engajamento, subjacente ao ideário existencialista, especialmente a figura do intelectual engajado parecia ser o grande símbolo do mundo acadêmico ao qual entrava. O intelectual, como se sabe, é aquele individuo que está sempre pronto para se apresentar como um crítico da sociedade estabelecida, o defensor das injustiças sociais, um indíviduo capaz de emitir sua opinião sobre a generalidade dos problemas e das questões de relevo. Este modelo de intelectual nasceu na França, com o famigerado caso Dreyfus, e encontrou sua figura mais luminosa em Jean-Paul Sartre. A idéia de comprometimento com uma causa maior, do ato transformador da sociedade, repleto de certa grandiloqüência, é algo que contagia. Com o tempo, porém, fui percebendo que o intelectual nada tinha a ver com o mundo acadêmico, e que na realidade o tipo acadêmico era bem o inverso disso tudo: um sujeito que se dedica ao seu trabalho ultraespecializado, incapaz de emitir uma opinião sobre qualquer coisa que extravase seu tema de estudo, em suma, aquele tipo que não sabe dizer nada de especialmente relevante para qualquer um que não seja outro tipo como ele. O intelectual engajado, nos dias de hoje, se tornou uma espécie de mito. O tema central da peça Viver sem tempos mortos, certamente, é a questão do engajamento. Porém, um engajamento totalmente diferente. É o engajamento de uma existência ética. A Simone Beauvoir que é retratada na peça busca, entusiasticamente, uma fidelidade consigo mesma, uma existência dedicada a um autodescobrimento, a recusa de compromissos desprovidos de sentido, que duram pela pura reiteração de um hábito carcomido. O relacionamento de Simone com Sartre é o grande exemplo disto tudo. Baseado num compromisso de honestidade, os dois guiaram suas vidas com um respeito raro, sem o peso dos votos de matrimônio ou da fidelidade conjugal, mas que não impediram a existência de um afeto especial e duradouro. Este relacionamento abriu mão do formalismo conjugal para se estruturar em torno de outra coisa muito diversa: a fidelidade com a própria existência, no sentido de uma constante criação e recriação de si. Uma postura que recusava entusiasticamente o ato reificante do hábito cotidiano. É a busca por uma existência mais livre, menos amarrada pelos compromissos banais que tomam conta de nossas vidas. O engajamento de Simone não se resume ao seu relacionamento com Sartre, mas está intimamente relacionado com seu projeto intelectual e com seus compromissos políticos. A ação política está, portanto, coerentemente conectada com a política dos afetos cotidianos. Está é a grande dificuldade do caminho traçado por Simone. É por isso que a noção de engajamento é tão importante. O engajamento que aparece no texto é muito diferente daquele do intelectual. É muito mais modesto, menos globalizante, mas muito mais poético. E nenhum pouco menos político. É o engajamento daqueles que buscam viver uma existência menos disciplinada, que tentam criar um mundo mais estético, uma estetização da existência. É o engajamento de uma vida sem tempos mortos, sem o peso mortificante dos compromissos vazios e estéreis. Num momento em que a desilusão com o político e o esfacelamento do ideário do engajamento é a tônica do imaginário social, esta postura ganha uma relevância sem igual: estetizar a existência nada mais é do que reintroduzir a radicalidade do ato político, ato criativo por excelência, na vida cotidiana.

Neblina e Sombras

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Woody Allen realiza, constantemente, um diálogo com o cinema em sua produção. Sua obra está recheada de filmes que falam de outros filmes, de filmes que homenageiam outros filmes, de filmes que se inspiram em outros filmes. Neblinas e Sombras (1992) é um excelente exemplo desse esforço respeitoso, criativo e inventivo do diretor em trabalhar com o cinema como matéria-prima de seus filmes. No caso, o cinema não é exatamente o tema central da narrativa, como em A Rosa Púrpura do Cairo ou em Dirigindo no Escuro. Mas, o filme todo é construído como uma grande homenagem ao expressionismo alemão. A história, uma adaptação de sua peça Morte, é simples: Kleinman (interpretado pelo próprio Woody Allen), um burocrata com uma vida bastante ordinária, é acordado no meio da noite por uma organização de vigilantes que estão perseguindo um misterioso assassino; meio sem saber o que deve fazer, ele recebe ordens de circular pela noite cheia de neblina atrás do sanguinário vilão. No meio dessa confusão, ele encontra uma artista do circo que visita a cidade, fato que provoca uma reviravolta na sua vida. A simplicidade do enredo é contraposta à fotografia muito bela, toda rodada em preto e branco, cheia de efeitos de sombra, num cenário – que foi inteiramente construído em estúdio – meio asfixiante e opressivo, buscando recuperar o clima dos clássicos expressionistas. Este diálogo, no entanto, não serve apenas como um jogo de citações. O que torna tudo muito interessante é a forma como Woody Allen se apropria desta ambientação para construir seu próprio universo cinematográfico.

Este universo, como se sabe, é bastante pessimista. A vida de Kleinman é totalmente opressiva, cheia de humilhações e privações. O personagem rasteja atrás do seu chefe, esperando uma promoção; rasteja atrás de sua noiva; rasteja atrás dos demais membros da organização secreta. Não há espaço para viver. É uma vida nas sombras. Não é por acaso que o assassino simbolize a própria morte, o último laço das sombras que pairam em torno do personagem. Porém, é no campo da ilusão e da mágica, ou seja, no campo próprio do cinema, que aparece uma brecha para a fuga dessa existência. A cena final é bastante exemplar, uma cena que fala da necessidade da mágica e da ilusão para viver uma vida fora das sombras, para inflar com o ato criativo a existência ordinária. É como se na impossibilidade de viver verdadeiramente na realidade, fosse necessário misturá-la com a irrealidade do cinema. Para retratar esta opção nada melhor do que uma homenagem ao cinema clássico.

Jornal de Resenhas

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Em 2001, por ocasião do seu aniversario de 80 anos, o jornal Folha de São Paulo comemorava o fato de que chegava “a ter, com a publicação do caderno diário Ilustrada, do semanal Mais! e do mensal Jornal de Resenhas, cerca de cem páginas de jornal voltadas para a cultura em uma semana”. Bons tempos. De lá pra cá, o jornal cancelou a publicação do caderno de resenhas e diminuiu bastante o espaço dos cadernos culturais (Ilustrada e Mais!). O espaço dedicado aos lançamentos literários, ao debate crítico das publicações, ou mesmo para resenhas mais extensas, se tornou quase inexistente. Esta perda de visibilidade da resenha livresca não é um fenômeno exclusivo deste periódico paulistano. O Estadão, infelizmente, não realiza uma cobertura muito melhor. Até mesmo outras iniciativas editoriais, como a revista Entrelivros, não conseguiram prosperar. Como se sabe, a revista foi cancelada no final de 2007, tendo lançado 32 exemplares. Por tudo isso, é bastante louvável a iniciativa da Discurso Editorial em relançar o Jornal de Resenhas. O caderno agora é publicado sem nenhum vínculo com qualquer grande periódico (mas conta com o apoio do Ministério da Educação, da Caixa Econômica e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), com uma tiragem elevada (75.000 exemplares), distribuído ao mercado universitário e vendido em bancas e livrarias (por um preço razoável, 3 reais). Dizem que a periodicidade é mensal, porém encontrei esses dias na livraria apenas o primeiro número, de março, por isso não estou certo disso. A publicação é uma iniciativa de um grupo de professores da FFLCH-USP e traz resenhas assinadas por professores da referida universidade, bem como das demais estaduais paulistas (UNICAMP e UNESP) e de federais. Os textos tratam de diversas áreas, no primeiro número há resenhas de livros de história (3), filosofia (3), economia (1), cinema (2), obras literárias (2) e crítica cultural (4), além de um ensaio, assinado por Sérgio Miceli, sobre a obra de juventude de Borges. Os artigos são breves, mas nada que se compare às micro-resenhas da imprensa diária, realizando com sucesso sua proposta de divulgação e debate do mercado de livros. Na falta de uma publicação de grande qualidade, o Jornal de Resenhas é uma iniciativa interessante e feliz, ocupando um espaço meio abandonado pelas demais publicações. Veremos que aparece nos próximos números…

Casanova e a Revolução de Ettore Scola

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“Casanova e a Revolução”, do diretor italiano Ettore Scola, faz uma leitura muito particular da Revolução Francesa. O filme, como indica o título original, La nuit de Varennes, se passa durante a famosa tentativa de Luís XVI em fugir da Paris revolucionária, em 1791. Como se sabe, a fuga não foi bem sucedida, o rei foi preso e reconduzido a Paris. O fato ajudou a radicalizar a revolução e acabou resultando no julgamento e assassinato do rei. O filme não retrata exatamente a tentativa de fuga e captura do monarca francês, mas acompanha uma comitiva que seguia seus passos. Nela, seguiam Restif de la Bretonne, um famoso publicista do período, hoje mais conhecido pelo seus livros eróticos (o mais famoso é o Anti-Justine, uma resposta polêmica ao texto do Marquês de Sade), Thomas Paine, uma dama de honra de Maria Antonieta junto com seus consortes e companheiros. No meio do caminho, juntou-se o velho Giacomo Casanova. Por isso, a narrativa está muito mais centrada nos dramas desses indivíduos do que na reconstrução dos eventos políticos que corriam pela França. No filme de Scola, a Revolução serve como uma grande metáfora da velhice. O Casanova do filme, interpretado magnificamente pelo mais genial dos atores italianos, Marcello Mastroianni, é uma pálida figura do que fora no passado (é bem interessante compará-lo com o Casanova de Fellini). O grande sedutor das cortes européias se tornou um homem envelhecido, incapaz de exercer sua arte erótica, vivendo uma existência meio melancólica, uma indiferença com o mundo, quase desligado das paixões mundanas. Seu corpo carcomido pelo tempo, cheio de dores, marcas, rugas, pequenas degradações marca uma substituição da sua antiga dignidade. Tudo que lhe resta é um sábio distanciamento do mundo. Casanova é o símbolo do Antigo Regime que está rapidamente acabando, de um mundo antigo revolucionado por novos hábitos e novos personagens. O grande drama do filme subsiste nisso, na tensão entre um mundo antigo e a juventude do novo. Ettore Scola fala muito mais dessa condição melancólica do homem do que da própria Revolução Francesa. Só que a velhice de Scola, ainda que melancólica, não é trágica. Casanova também representa aquela sabedoria da experiência, tão misteriosa para o nosso mundo, daquele que sabe que a renovação da juventude é a renovação do mundo, e tudo que resta é um sereno sair de cena. Não é gratuito que o título italiano do filme seja Il mondo nuovo. É dessa transação entre o velho e o novo, entre o estável e o revolucionário, que trata o belo filme de Ettore Scola.

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