Gripe, Tamiflu e a política do pânico

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Gran Torino de Clint Eastwood

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O mais recente filme de Clint Eastwood, Gran Torino (2008), revela uma leitura muito interessante sobre a sociedade americana contemporânea. O filme conta a história de Walt Kowalski, um típico americano branco: um machão que trabalhou a vida inteira numa fábrica de automóveis, de modos grosseiros, muito briguento, patriótico e defensor dos bons valores americanos. Não é difícil imaginar esta figura. É a materialização do american way of life. O problema é que Kowalski vive num mundo convalescente. O filme se passa na cidade de Detroit, o que não é desprovido de simbolismo. A cidade cresceu junto com a indústria automobilística, se tornando o exemplo mais bem sucedido do modelo fordista de sociedade. Em 1950, a população da cidade girava em torno de um milhão e oitocentas mil pessoas. Porém, o crescimento vertiginoso foi seguido por uma queda igualmente veloz. As mudanças econômicas mais globais, especialmente a partir da década de 1970, provocaram um êxodo muito grande da população branca que vivia na cidade. A população estimada em 2008 é quase metade daquele valor: cerca de novecentas mil pessoas [1]. Com isso, começou a acontecer uma mudança importante no perfil étnico da região, notando-se cada vez mais uma presença significativa de não-brancos. Como as possibilidades econômicas diminuíram assombrosamente, aqueles que ficaram enfrentam dificuldades crescentes. A trama do filme acompanha esse processo. O bairro de Kowalski é quase desprovido de americanos brancos. Há negros, há imigrantes latinos, há chineses (especialmente da etnia hmong). Kowalski percebe com muita clareza a decadência de seu modo de vida, a presença desses grupos étnicos é vista como uma grande ameaça. Ele se torna um sujeito isolado, especialmente com a morte de sua esposa, é como se o american way of life fosse sendo devorado pelas margens. O descompasso do personagem com seus próprios filhos, que já abandonaram a velha Detroit em busca de chances mais promissoras, é também um índice dessa experiência convalescente. Tanto é que, para Kowalski, é incompreensível como seu filho pode ser dono de um carro japonês e não um americano. O mundo globalizado, pós-fordista, pós-moderno, pós-tudo, sugou toda a pujança do velho mundo de Kowalski. A ele nada restou além de viver lado a lado com aqueles que ele sempre desprezou: a marginália do sonho americano. No entanto, pouco a pouco ele começa a travar conhecimento com seus vizinhos chineses. A relação que era inicialmente muito tensa e agressiva se transforma e acaba cativando o velho ranzinza. Porém, a Detroit do presente se tornou uma espécie de terra de ninguém: a crise econômica, o empobrecimento da população e o esvaziamento do Estado neoliberal, transformaram a cidade num prato cheio para a ação de gangues e encrenqueiros. O filme, aparentemente, começa a caminhar em direção conhecida: a velha história do paladino da justiça (Kowalski) que consegue restabelecer a ordem num ambiente injusto e cheio de bandidos (a gangue dos chineses que perseguem a vizinhança). No entanto, nesse novo mundo não há mais espaço para valentes, e tudo que Kowalski consegue é piorar a situação, sua tentativa de resolver o problema por conta própria se mostra um grande fracasso. É nesse ponto que o filme opera uma verdadeira reviravolta nas expectativas que estavam se anunciando. Kowalski realiza um grande sacrifício para (re)instaurar a ordem no seu mundo. Não é mais tempo de acreditar na ação individual, mas depositar sua fé na ação institucional (a política, o Estado, etc.), a única instância capaz de conter a crise que se instaurou na trama. Esta reviravolta aponta para duas coisas. Em primeiro lugar, há uma espécie de consciência da agonia do american way of life, as transformações globais da sociedade nas últimas décadas arrastaram toda possibilidade de se reafirmar o sonho do americano típico, devorando todos os signos desse mundo. O sacrifício de Kowalski é a consumação do último significado desses signos. Mas, o mais interessante é decorrência política que surge dessa primeira constatação. A necessidade de afirmação da justiça, um elemento que também está presente no filme anterior de Eastwood (A Troca), é também uma forma de criticar os rumos políticos da sociedade contemporânea. A terra de ninguém é a pura materialização de um ideal de governo que acredita ser capaz de funcionar minimizando ao máximo o papel das instituições na vida social. O que o filme aponta é justamente para os limites desse processo, qual seja, a explosão da violência que nasce numa sociedade totalmente desregulamentada, seja a violência econômica, com o empobrecimento generalizado, seja a violência física propriamente. Por isso, não é mais possível apostar na justiça com as próprias mãos, ao feitio do cinema americano clássico. É por isso que o sacrifício do valente é tão importante, pois ele se torna necessário para instaurar uma nova ordem. É claro que essa leitura é cheia de idealismos, pode-se dizer até um pouco metafísica, mas não deixa de ser uma crítica vigorosa e um tanto inesperada. E a força dessa crítica cresce no filme graças a sua poderosa narrativa, muito bem construída por Eastwood.

[1] Wikipédia, http://en.wikipedia.org/wiki/Detroit

Match Point

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Match Point (2005), um dos filmes mais recentes de Woody Allen, conta a história de Chris Wilton, um jovem tenista que abandonou as quadras em busca de oportunidades para construir uma vida estável e séria. Para tanto, se emprega em um clube aristocrático de Londres, onde trabalha como professor de tênis. A atividade, porém, não passa de um emprego transitório, enquanto aguarda uma chance mais promissora. A chave do filme reside nisso: a chance. Nesse sentido, é importante observar que a palavra, segundo o dicionário Houaiss, provém do termo francês chéance, cujo significado é a “maneira que os dados caem”, seja ela favorável ou desfavorável. A metáfora do filme não é bem os dados, mas a bola de tênis que raspa na fita da rede. Ela pode cair de qualquer lado da quadra, é um lance absolutamente imponderável, capaz de alterar os rumos de uma partida.

Wilton é muito cônscio desse caráter arbitrário da vida. Ele sabe que o jogo do mundo é um jogo de chances, e vive segundo este saber. Como ele diz: “O homem que disse: ‘prefiro ter sorte a ser bom’ entendeu profundamente o sentido da vida. As pessoas temem ver como grande parte da vida é dependente da sorte. É assustador pensar que boa parte dela foge do nosso controle. Há momentos no jogo, em que a bola bate no topo da rede e, por um segundo, ela pode ir para o outro lado, ou voltar. Com um pouco de sorte, ela cai do outro lado. E você ganha. Ou talvez não caia. E você perde.”

E parece que nosso protagonista é um sujeito de sorte. Os dados logo lhe sorriem: durante suas aulas, ele conhece, tornando-se rapidamente muito íntimo, Tom Hewett, um jovem aristocrata muito rico e influente. Com isso, começa a freqüentar sua família e se envolve com sua irmã, Chloe Hewett. O relacionamento lhe abre muitas portas nas empresas da família Hewett, o que lhe garante um ingresso promissor no mundo dos negócios. Todavia, o imponderável não tarda a mostrar sua outra face: Chris conhece Nola, uma atriz fracassada, instável e muito sedutora. E logo se apaixona incontrolavelmente.

Com isso, acaba se formando um triângulo amoroso. De um lado, está seu relacionamento com Chloe, que lhe assegura uma vida estável e tranqüila, cheia de confortos e luxos, mas sem nenhuma paixão. Do outro, está seu affair com Nola, cheio de tensão e energia, uma paixão desmedida. O sexo vazio e mecânico com a esposa é contraposto ao sexo desconcertante com a amante. A situação, porém, logo escapa do controle, pois Nola engravida.

A gravidez abala o frágil equilíbrio que Chris tentava garantir em sua vida. Sua amante se recusa a desistir do filho e começa a exigir o divórcio de seu amante. Frente ao inesperado dilema, ele vacila muito, pondera sua situação e tenta de toda maneira encontrar o caminho menos doloroso. Abandonar os luxos da riqueza e abraçar seu desejo inebriante, ou seguir numa vida fria e séria. A sedução do conforto acaba prevalecendo. Contudo, a impossibilidade de romper seu relacionamento, sem abalar seu próprio casamento, provoca uma atitude extrema: o assassinato de sua amante. O plano é meticulosamente orquestrado por Chris, tudo para evita o imponderável. Nada mais vão.

A polícia descobre uma pequena evidência e parece que toda a história vai desmoronar. Mas, novamente a sorte acena para nosso protagonista. Não vale explicar em detalhes, mas num lance absolutamente casual, toda a suspeita do policial cai por terra e Wilton escapa das investigações, tudo que lhe resta é prestar contas à sua própria consciência: “seria adequado se eu fosse preso e punido. Pelo menos seria um pequeno sinal de justiça. Alguma pequena medida de esperança na possibilidade de sentido”. É isso que Chris fala para os fantasmas dos mortos que voltam para lhe assombrar a consciência. Num mundo de chances, indeterminado, pura facticidade, não há espaço para uma justiça transcendental, algo que garanta uma ordem ao universo, um esquadro que traça a linha da moralidade.

Nesse sentido, é muito interessante traçar um paralelo com o livro de Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo. O livro já serviu como ponto de partida para uma infinidade de filmes, só para lembrar dois exemplos bastante diversos: Nina de Heitor Dhalia e Pickpocket de Robert Bresson. O filme de Woody Allen também dialoga com o clássico da literatura russa. Esse diálogo é realizado de maneira muito livre, como se buscasse apenas em trazer ecos da obra para o filme. Esta intenção está anunciada desde o início do filme, quando uma tomada mostra Chris em seu quarto lendo demoradamente a obra de Dostoievsky. Daí em diante, Chris aparece um pouco como um Raskolnikov contemporâneo, um homem desmedido e por isso capaz de realizar qualquer ato.

No livro, porém, há ainda um espaço para redenção e para justiça. O ato selvagem de Raskolnikov não resta impune, sua consciência não lhe permite. Tocado pela paixão de Sônia, o personagem acaba se entregando à justiça para receber sua punição. A justiça se torna possível na medida em que um campo transcendental (a paixão) ainda pode organizar o campo de ação dos agentes. Raskolnikov não deixa de representar a metáfora cristão por excelência: paixão-expiação-redenção.

O diálogo do filme retoma esse dilema, mas invertendo seu sentido. Pode-se dizer que Match Point radicaliza ao extremo a tensão proposta por Dostoiévski. A possibilidade de redenção, que acaba acenando para um horizonte minimamente positivo, é totalmente esvaziada no filme. Isso porque nem mesmo a paixão ocupa um espaço relevante na vida do personagem. O vazio de sua situação domina seu próprio desejo. É disso que nasce a tragédia do filme. A incapacidade de viver seu desejo lhe aprisiona na roda da fortuna, no constante enfrentamento com o imponderável, pura ausência de sentido. A monstruosidade dessa situação é tamanha que não há nenhuma possibilidade de escapatória. Ao final do filme, tudo que vemos é um sujeito destroçado pela suas ações, incapaz de se engajar para adiante.

A idéia do filme, porém, não é recuperar um espaço de moralidade que se perdeu nessa ausência de sentido. Na realidade, há uma espécie de ética que se evidencia a contrapelo do filme. O que vai se revelando é que num mundo carente de sentido, de qualquer tipo de garantia transcendental, é necessário se apegar ao próprio mundo, ao próprio corpo, ao próprio desejo. É como se fosse necessário desembaralhar a paixão da expiação, pois se pode viver apostando na redenção. A facticidade da vida não garante nenhuma justiça, por isso o melhor é escolher um caminho que tente não se aprisionar na pura chance. Nesse sentido, é muito interessante uma observação de Woody Allen a respeito de algumas leituras de seu filme: “as pessoas já vão concluindo que estou dizendo que qualquer coisa serve, mas na verdade estou fazendo a pergunta: dado o pior, como podemos continuar, ou até mesmo por que deveríamos escolher continuar? Claro, nós não escolhemos – a escolha está impregnada em nós. O sangue escolhe viver”[1].

O sangue que escolhe viver, por sinal é a fala de um personagem no filme Neblina e Sombras, é aquilo que impulsiona nossa existência, é o campo dos afetos e desejos, da maneira como afetamos e somos afetados pelos outros. Esse me parece ser o tema central do filme, na falência de todo nosso sistema de moralidade, aquilo que está tão intimamente atrelado ao par punição/justiça, é necessário orientar a existência em direção de um caminho ético, na qual não se nega a dimensão desejante da existência. Uma ética do desejo implica num cuidado com si e com o outro, implica em escolher como seremos afetados e como afetaremos os outros. Nessa relação puramente imanente não existe nenhuma contradição entre a possibilidade de alguma ética e a facticidade da vida, pois não se busca num plano superior a realização de uma justiça do mundo.


[1] Conversas com Woody Allen, p. 172.

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