O filme mais recente de Michael Moore, Capitalismo: uma história de amor, é sua obra menos interessante. Com uma argumentação frouxa e tese simplista, o trabalho não convence, nem comove. Ainda assim, há alguns (poucos) momentos luminosos e que, desconsiderando a fraqueza do conjunto, permitem algumas boas reflexões. Um desses momentos, talvez o ponto alto do filme, é o caso dos dead peasants: trata-se da prática, adotada por muitas corporações e grandes empresas, de assegurar a vida de seus funcionários. Porém, ao contrário dos seguros tradicionais, os beneficiários destes são as próprias companhias. Isso cria uma situação absolutamente particular: a lógica dos seguros é que seus beneficiários, já que são os familiares, não desejam a morte ou o dano do assegurado. Já para a empresa, a morte não só é interessante, como desejada. Nessa situação, não é apenas o trabalho explorado dos empregados que proporcionará os ganhos financeiros, mas é a própria vida que é transformada em matéria de cálculo e lucro para a empresa. Como o filme nos mostra, há todo um planejamento, com estimativas e previsões, do ganho financeiro que será alcançado com a morte dos funcionários assegurados. O caso ilustra muito bem aquilo que alguns autores chamam de ordem biopolítica, quando “a vida trabalha para a produção e a produção trabalha para a vida”. Mais do que produzir apenas mercadorias, o grande motor do processo econômico no mundo contemporâneo é a produção de subjetividades, de necessidades, de desejos, de corpos e mentes. E nessa ordem, quando a gestão da vida se torna tão decisiva, facilmente a biopolítica se converte no seu contrário: tanatopolítica. Não apenas produzir subjetividades, mas também todo um espaço dedicado à própria anulação da vida. É a lógica do fazer viver e fazer morrer. A partir do binômio bio/tanatopolítica surge uma nova categoria de subjetividades: aquelas vidas que não merecem viver. Como fala Giorgio Agamben, “toda politização da vida implica necessariamente numa decisão sobre o limiar além do qual a vida cessa de ser politicamente relevante, é então somente ‘vida sacra’ e, como tal, pode ser impunemente eliminada”. Logo, o efeito direto da ordem biopolítica, quando a vida se transforma no objeto central do exercício do poder, é justamente essa possibilidade de constantemente redefinir o limite entre as vidas que merecem viver e as que não merecem. É nesse ponto que podemos retornar ao filme. O caso dos dead peasants ilumina, com grande precisão, este lado negativo da ordem biopolítica, Os peasants estão muito próximos das vidas sacras analisadas por Agamben. Por estarem inseridos na ordem produtiva apenas de forma precária e parcial, eles se tornam as figuras mais irrelevantes, absolutamente a parte do espaço político. Nem por isso estão excluídos da lógica mais ampla da ordem biopolítica: é na morte que estas vidas sacras (o dito homo sacer) são reintroduzidas no espaço da produção. É a partir da constituição dessas vidas sacrificáveis que as engrenagens mais gerais do maquinário de governo contemporâneo, chamado por alguns de Império, entra em funcionamento. Isso que não pode ser esquecido ou ignorado. Sua posição particular, de excluído da ordem política, portanto, não se configura numa exceção, mas é algo intrínseco à lógica biopolítica. Basta um olhar atento para identificar em muitas outras situações a reprodução dessa condição de dead peasants. Essa questão, porém, passa muito longe das reflexões de Michael Moore. Na realidade, ele nada faz além repetir as mesmas teses batidas a respeito do capitalismo, da exploração e da importância da democracia, perdendo uma boa oportunidade para desvelar uma importante peça de funcionamento da ordem política contemporânea.

Pra qualquer um com um mínimo de bom senso e discernimento não é difícil enxergar o movimento de transformação da experiência histórica da ditadura militar brasileira num grande monumento que organiza, captura e atribui sentido aos processos políticos contemporâneos. A luta contra o regime de exceção, instaurado no Brasil em meados do século passado, se converteu na grande luta da sociedade civil brasileira, uma luta vencida e superada. São aqueles que nela combateram – os intelectuais, os estudantes, os grupos armados – que agora assumem os postos mais preeminentes da sociedade, prontos para a condução do governo democrático que nasceu de seus árduos esforços. Com a superação do autoritarismo, da tortura e da violência política, basta deixar o livre jogo das forças políticas funcionar e todas as mazelas sociais serão, eventualmente, superadas. Essa é a grande narrativa de nosso presente, disseminada em registros absolutamente diversos (discursos historiográficos, midiáticos, manuais didáticos, etc.), que explica e torna compreensível nossa história e conforma as possibilidades do olhar para nosso futuro. Tudo que escapa das travas mestras dessa narrativa assume uma conotação negativa, desviante, equivocada. E com isso, são as possibilidades mesmas de ação que se tornam cada vez mais vazias e enfraquecidas pela força da narrativa que nos domina. O espetáculo Nekropolis, da turma 10 do curso de Formação de Atores da Escola Livre de Santo André, pode ser visto como um esforço de desconstrução dessa narrativa. Basicamente, a trama trata do julgamento de um grupo terrorista, denominado de a estirpe. Seus membros são os excluídos da cidade e da ação política institucional, do tão precioso “estado de direito”. Na condição de excluídos, eles também são excluídos da linguagem da cidade: eles falam num dialeto próprio, distante e incompreensível, por isso mesmo perigoso, já que guarda uma força capaz de desarticular a lógica da vida política. Por conta disso, estão em julgamento: pela ameaça que representam para a democracia da cidade. Uma ameaça materializada em atos ditos terroristas: são acusados, entre outras coisas, de profanar, desenterrar e exibir em locais públicos, como parques e shopping centers, corpos putrefatos dos mortos da cidade. Não são os corpos de qualquer um, mas daqueles que morrem em vida, que vivem vidas esvaziadas de possibilidades, das condições materiais mais básicas, aquelas vidas destituída de garantias e seguranças, desprovidas de garantias e proteções políticas, transformadas em vidas sem valor e sem custo, em vidas nuas. Estes mortos-vivos, mantidos nas margens e periferias da cidade, estão sempre sujeitos ao “estado de exceção”, submetidas apenas aos desígnios do poder soberano. Na impossibilidade de falar a linguagem da cidade, o que se limitaria apenas a reafirmar a sua lógica, a estirpe nada mais faz do que trazer esses mortos-vivos para o espaço do político, para o olhar do cidadão. O que há de subversivo é justamente que suas ações lançam luz naquilo que não cabe na narrativa do político: longe estamos da superação de um “estado de exceção”. Exatamente o contrário. A política funciona, mais do que nunca, como uma grande máquina de fabricação desses mortos-vivos, os excluídos que alimentam as engrenagens da cidade. O desvelo dessa lógica, portanto, abre a possibilidade para uma radical desconstrução da narrativa histórica do Brasil contemporâneo, acenando para novas possibilidades de ação política.

 

 

 

A peça está circulando pelo estado de São Paulo. O blog do grupo traz mais informações sobre as próximas apresentações. Para mais informações sobre futuras apresentações, o melhor é ficar de olho no blog deles: http://nekropolis-teatro.blogspot.com/

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...