UP, Altas Aventuras de Pete Docter

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É possível pensar numa ética da velhice? Creio que a animação UP, Altas Aventuras possa nos ajudar a esboçar esta questão. O filme, em linhas gerais, trata das aventuras do senhor Carl Friedricksen e do pequeno Russel dentro de uma casa voadora, sustentada por balões de hélio, rumo a uma terra distante. Tudo começa como uma tentativa de realizar um velho desejo de juventude do casal Friedricksen: visitar um misterioso lugar na América do Sul, palco das aventuras do grande explorador Charles Muntz. Tal sonho, porém, foi sendo seguidamente adiado, até o fatídico momento da morte da já idosa esposa de Carl. Triste e sem rumo, o amargurado senhor isola-se dentro de sua casa, vivendo apenas na rememoração da felicidade de outrora. É como se para ele não houvesse mais espaço ou sentido em nada além daquilo que se encontra num tempo passado e ultrapassado. E num mundo que segue rumo ao futuro, com seus múltiplos progressos, não há falta mais grave do que esta. É justamente sua casa, o lugar das memórias e rastros desse passado, que se torna o grande pomo da discórdia entre este mundo e Carl: uma construtora deseja derrubá-la para dar seguimento a um grande projeto imobiliário. Ele, porém, se recusa a negociar a demolição. No final, é Carl quem perde a briga. Derrotado e fadado a ser internado num asilo, Friedricksen decide partir e realizar o antigo sonho, passar o resto de seus dias nas terras de Muntz. Trata-se, sobretudo, de um ato de renúncia do mundo. Na impossibilidade de acompanhar as mudanças, de deixar as memórias para trás e seguir adiante, o que Friedricksen deseja é encontrar uma forma de encerrar-se no seu passado. Mas, nessa busca de uma passividade absoluta, o que ele acabou encontrando foi uma situação toda diversa, muita confusão e ação, tudo porque no meio da viagem ele se dá conta da presença de um intruso, o menino Russel. Sua presença traz novos elementos, cada vez mais mirabolantes, para a viagem. O que obriga Friedricksen a tomar uma decisão: seguir com seu projeto original de abandono do mundo, ou inverter sua decisão e assumir um novo compromisso: proteger o menino das enrascadas que surgiram. É esse o momento de virada nos rumos da narrativa. A posição resignada e melancólica, uma espécie de luto sem fim, é confrontada com uma exigência de atividade, a necessidade de cuidar e proteger aquela criança. Este confronto se evidencia com especial clareza em dois momentos importantes do filme. O primeiro, quando Carl precisa se desfazer de todos os pertences de sua casa, o que lhe permitiria uma nova “decolagem” para socorrer o menino. Não há possibilidade de conciliar as duas coisas, a lembrança de um passado fixo e a necessidade de agir no presente. O segundo é quando fica claro que o grande vilão do filme é Muntz, que ainda vive naquela terra perdida. Muntz encarna perfeitamente a obsessão pelo passado, já que depois de tanto tempo ainda deseja reparar sua fama abalada. Por isso, para proteger o menino, Friedricksen precisa lutar exatamente contra esta obsessão desmedida. Esta tensão é decisiva no filme: ou ele opta pela anulação ou pela manutenção do mundo. Ora, esta tensão permite um retorno aquela questão inaugural. A velhice pode ser vista como o estágio da mais absoluta desvitalização, no qual tudo que resta é uma passividade sem potência, sem ação. É a representação do velho como aquele que vive para o passado, sempre saudoso dos belos tempos que não retornam mais. No entanto, abre-se também a possibilidade de outra representação, a velhice como o espaço de uma nova potência: da proteção do mundo que está sempre nascendo. É nesse campo que a velhice se confunde com a educação e com a experiência formativa do aluno. O que Friedricksen faz nada mais é do que estabelecer um laço educativo com Russel, um laço de proteção e orientação para os perigos do mundo. Não é gratuito que a etimologia das palavras educação e aluno, como já escrevi antes, passe justamente por essa relação de proteção e desenvolvimento do lactente, do pequeno, do infante. É nesse sentido que enxergo o traçar de uma ética da velhice em UP, uma ética que não encerra o velho no campo do descartável e do fardo, mas que o coloca numa posição central na recriação do mundo. A grande dificuldade dessa ética é que ela parece cada vez mais estranha a todas as nossas representações da velhice, as quais a enxergam como o estágio mais indesejável e a ser combatido da existência.

Travessias de Eduardo Souza Lima

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Tive a oportunidade de assistir o novo documentário de Eduardo Souza Lima, Travessias. Este acompanha a rotina de três alunos e de uma professora do Programa Travessias, o qual atende jovens e adultos com defasagem idade-série no estado de Pernambuco. Ainda que não esteja centrado diretamente no cotidiano do programa, privilegiando as vidas e narrativas desses quatro indivíduos, o filme toca num ponto importante para qualquer reflexão voltada para a compreensão da realidade educacional brasileira, qual seja, a grande dificuldade em combater a evasão e o atraso escolar. Vale citar alguns dados: 97,6% das crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos estão oficialmente matriculados em unidades escolares. Porém, cerca de 28% desses alunos não cursam efetivamente as aulas, seja faltas constantes, seja pela pura desistência. A esse índice de abandono e desistência é necessário juntar outro fato: o também elevado número de reprovações (muitas vezes provocada pelas faltas, pois mesmo no sistema de progressão continuada pode acontecer a reprovação por ausências). Assim, daquele universo quase universal de educação resta o seguinte e impressionante dado: de cada 100 crianças que ingressam no ambiente escolar brasileiro, apenas 36 atingem o terceiro ano do ensino médio. O caso pernambucano ilustra muito bem essa situação: segundo a própria Secretaria de Educação de Pernambuco, cerca de 70% dos alunos matriculados no ensino médio estadual encontram-se em defasagem idade-série. Nesse sentido, o Programa Travessias, bem como diversos outros programas similares em outras regiões do Brasil, é uma tentativa de remediar ou contornar essa situação. O trabalho de Souza Lima ajuda a refletir e compreender com mais proximidade esta questão. A partir das falas de alguns indivíduos que poderiam estar naquelas estatísticas, descortina-se algumas das dificuldades em continuar estudando, dos motivos que obrigaram ao abandono, das aspirações e desejos que são depositados na conclusão dos estudos. Há um personagem especialmente interessante: é o jovem Ewerthon. Após ter sido reprovado diversas vezes, decidiu tentar a conclusão do ensino médio ingressando no Programa Travessias. Nas suas primeiras falas notava-se a empolgação e o desejo de logo concluir os estudos, com o que poderia iniciar uma faculdade de engenharia ou conseguir um emprego melhor. Porém, ao longo do filme ele relata que, com muito custo, conseguiu uma nova oportunidade de emprego: trabalhar num McDonalds. Isso lhe obriga a mudar de turno no curso, passa para o noturno, além de tornar sua rotina cada vez mais cansativa. Em seguida, descobrimos que ele novamente desistiu dos estudos e abandonou o curso. Ainda assim, Ewerthon continua alimentando o desejo de concluir seus estudos e, quem sabe, conseguir melhores oportunidades de vida. É essa dimensão – a escola como o depositório de aspirações e desejos, como uma longa travessia que vencida possibilitará o alcance de um novo lugar social – que perpassa a narrativa do documentário. Entretanto, como vemos na situação do próprio Ewerthon, essa travessia frequentemente se transforma num desafio quase insuperável, ou pior, incapaz de levar a novos lugares (sociais). O que acontece, muitas vezes, é que as expectativas depositadas no espaço escolar são muito maiores do que as possibilidades que este espaço dispõe para alcançá-las. Já escrevi antes sobre o quanto é pernicioso esta crença tão nossa de que a escola é o grande instrumento de transformação social. Por isso é mais do que necessário começar a repensar o significado dessas travessias escolares, e quem sabe com isso enfrentar, em outros termos, o problema da evasão e da desistência.

 

 

Para mais informações sobre o trabalho diretor, inclusive com um média institucional com a trajetória de um dos personagens do filme, Cristiano, veja o link: http://www.vimeo.com/eduardosouzalima

 

 

Referência dos dados:

http://www.nacaocultural.pe.gov.br/secretaria-de-educacao-lanca-caderno-de-cultura-para-estudantes-do-programa-travessia

http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/como-manter-todos-escola-evaso-abandono-gestao-escolar-556408.shtml?page=0

http://revistaescola.abril.uol.com.br/politicas-publicas/planejamento-e-financiamento/nenhum-menos-excecao-467158.shtml

 

 

Crédito da foto: Rose Lima

 

 

PS: agradeço Carlos Alberto Mattos pelo contato com o diretor do filme, e o próprio diretor Eduardo Souza Lima, o qual graciosamente me enviou uma cópia de seu trabalho.

Verão de J. M. Coetzee

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Verão encerra a trilogia Cenas da Vida na Província, uma espécie de autobiografia do autor sul-africano J. M. Coetzee. É, sem dúvida, uma espécie muito particular de autobiografia, pois está muito longe daquilo que comumente consideramos como um relato biográfico. Este, em geral, funciona a partir de uma espécie de pacto, um pacto de verdade (ou melhor, um regime de verdade, com suas regras próprias). O texto autobiográfico parte quase sempre de uma noção fundamental: trata-se de uma narrativa fidedigna, uma narrativa de si próprio. Em grande medida, a força desse tipo particular de narrativa está nesse compromisso com a fidelidade, já que é a própria vida do autor que fortalece, legitima e atribui sentido ao texto. Assim, o que interessa não é propriamente a qualidade do texto, nem a profundidade das idéias, mas sim o próprio desvelar de uma vida. O interesse cada vez maior nessas narrativas fala muito sobre o espaço que a privacidade, convertida num espetáculo, ocupa em nosso tempo. Parece que todos ansiamos, acima de tudo, por consumir vidas autênticas, experiências fiéis e reais. O problema desse compromisso com o real é que ele resulta numa ordenação do vivido: a vida relatada acaba se tornando compreensível, explicável, analisável. Ainda que o relato seja repleto de eventos, de fatos inusitados, de reviravoltas, no final surge um todo coerente, que sintetiza e explica ao leitor tudo que precisa saber sobre o sujeito da narrativa. É a própria singularidade do vivido que se anula nesse processo, já que não resta zonas opacas, privadas ao olhar curioso do leitor. É por isso que o texto de Coetzee me parece tão interessante, pois opera um profundo deslocamento dessa lógica. Verão não segue a estrutura narrativa tradicional de uma autobiografia, na qual o autor se confunde com o narrador e com o personagem principal da narrativa. O livro é composto por dois tipos de discursos: na abertura e no encerramento encontramos trechos dos diários de J. M. Coetzee. No restante da obra, acompanhamos as entrevistas que Vincent – um escritor que prepara a biografia de um Coetzee já morto – realiza com algumas pessoas próximas do autor. Com isso, ao invés de produzir uma narrativa homogênea e totalizante, cada entrevistado (e o próprio diário) elabora sua própria imagem particular do escritor, marcada pelos sentimentos, conflitos, dúvidas e incompreensões de uma personalidade que não resta capturada e nem explicada. É a partir dessa perspectiva fragmentada e parcial, que não busca uma explicação totalizadora, que se desfaz o sonho de uma reconstituição plenamente fidedigna da vida do autor. No lugar de um suposto Coetzee real, encontramos apenas relatos, fatos inventados (começando pela morte do escritor), opiniões, enfim elementos desprovidos dos lastros de uma vida real. No sentido mais ordinário da palavra, o que aparece no texto não é uma autobiografia, mas uma ficção autobiográfica. Na impossibilidade de separar o verdadeiro do falso, a lembrança da invenção, é a própria natureza da narrativa que se desloca, desfazendo aquele regime de verdade que sustenta o registro biográfico. Dessa maneira, não vemos um texto que tenta capturar o vivido, mas parte dele para experimentar e criar. Em tempos que a exposição do privado assume um papel tão decisivo na construção de nossas subjetividades, as experimentações de Coetzee ganham um sentido bastante radical, pois trilham uma direção diversa, na qual a escrita de si não passa necessariamente pelo desvelo da intimidade, mas sim por um esforço criativo do texto, que não tenta subordinar a ficção à uma vida que lhe ultrapassa e dota de sentido.

Utopia e Barbárie de Silvio Tendler

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O diretor de Utopia e Barbárie, Silvio Tendler, define sua obra como uma espécie de road movie histórico. Isso porque ele busca recuperar a grande História, aquela dos historiadores e seus documentos, a partir de suas memórias, andanças e aventuras. Essa proposta é bastante interessante e pode resultar numa reflexão bastante fecunda, problematizando as relações entre memória e história e as articulações das narrativas biográficas com as grandes narrativas. Porém, não é exatamente isso que acontece, especialmente pelo uso excessivo dos instrumentos próprios aos discursos historiográficos (imagens de arquivo, depoimentos de testemunhas que participaram dos grandes eventos, documentação objetiva, etc.), mas também por alguns recursos que ocultavam a carga subjetiva da narrativa (a utilização de três narradores diferentes para dar voz ao próprio diretor). Com efeito, acontece uma espécie de simulação, a qual serve de suplemento de veracidade aquilo que está sendo exibido no filme, como se o discurso subjetivo por si só não tivesse a força necessária para a discussão que está sendo trabalhada no filme. Ainda assim, apesar dessa renuncia em seguir um caminho de radical desconstrução do valor objetivo das grandes narrativas históricas, o filme toca num tema bastante interessante: a íntima relação entre as utopias e as barbáries do século XX. Através de uma grande seqüência de acontecimentos, tanto internacionais, quanto brasileiros, o documentário vai costurando uma narrativa que funciona a partir da polarização entre ideais libertários e práticas bárbaras. Os ideais libertários se manifestam na luta contra o colonialismo, na resistência contra a opressão do mundo capitalista, nas lutas dos estudantes de 1968, no esforço pela transformação das Américas numa região mais justa, ou mesmo no desejo de construção de uma sociedade verdadeiramente socialista. Porém, todas essas lutas acabam enfrentando uma resistência comum, uma força de manutenção da ordem existente: as tropas que lutam contra os movimentos de emancipação dos países africanos ou asiáticos, os americanos lutando contra o surgimento de novos regimes socialistas, as autoridades tradicionais que tentam barrar os movimentos estudantis, os ditadores e generais tomando conta da América, ou mesmo os partidos stalinistas e maoístas que controlam os regimes socialistas. Até ai, nada de novo. O que interessa mesmo são os (poucos) momentos no qual a narrativa aproxima essas duas noções, muitas vezes vistas como antagônicas. É nisso que entra a idéia de utopia. O filme fala muito em utopias, em projetos utópicos, na esperança de transformação da sociedade, na luta de homens e mulheres para a conversão dessas utopias em realidades. É esse desejo de projetar um futuro diferente, de construir uma nova sociedade, que serve de ponte entre as idéias libertárias e as práticas de barbárie. A narrativa da obra aponta, com grande eloqüência, para a pequena separação que existe entre a idealização de um futuro perfeito e a ação violenta. A utopia e a barbárie são dois elementos que funcionam na mesma dinâmica: no deslocamento do espaço político para um tempo perfeito, distante e deslocado do presente ele mesmo. É como se o campo do político não pudesse se fundamentar fora de uma narrativa transcendental que organiza e dota de sentido tudo que acontece. A mais importante conseqüência do pensamento utópico, repleto de esperanças e de idealizações, é o esvaziamento do presente, ele se transforma numa pálida existência que precisa ser superada, destruída ou subvertida em prol de um tempo novo, esse sim dotado de um conteúdo pleno. É esse lançar-se vazio ao futuro que serve de justificativa para qualquer ação, para o desmedido exercício do poder, para a materialização de toda barbárie. E o que não faltou no século XX foi a conversão de projetos políticos em utópicas barbáries. Coisa que não foi nem de longe um privilégio da esquerda. Não faltaram utopias liberais (o maior exemplo é o tão famoso fim da história e seu consenso neoliberal, a mais perfeita manifestação desse esvaziamento do presente que é própria do pensamento utópico), utopias comunistas, utopias de direita, utopias de esquerda, enfim toda a política do século passado se organizou a partir desses não-lugares, todos perfeitos e ideais. A partir disso, o que nos resta refletir é justamente o papel das utopias nos dias que correm. É nesse ponto que o discurso do filme caminha para um impasse, especialmente na sua parte final. Ou assume as conseqüências do que foi proposto e a leva adiante, esboçando uma reflexão sobre a ação político despida de qualquer pensamento utópico, ou volta atrás naquilo que foi anunciado, tentando encontrar um espaço da utopia separado da barbárie. Nada exemplifica melhor o caminho optado pelo filme do que a fala daquele professor que se converteu no arauto das novas utopias: este defende, como a grande agenda política do novo século, a reciclagem dos antigos sonhos, lutas, esperanças, a reconstrução das utopias que não vingaram. Para ele, estas se transformaram nas lutas antiglobalização, no movimento ecológico, etc. A recusa de pensar o político como espaço da pura imanência – uma ação vazia de projeto, e por isso profundamente presa ao tempo presente, não mais como um espaço de utopias, mas de verdadeiras desutopias – obriga um novo recuo naquilo que estava anunciado. Ao invés de investir na desconstrução desse horizonte, o que pode propiciar a criação de um “espaço de abertura e de indeterminações, pleno de possíveis”, o documentário de Silvio Tendler prefere permanecer na segurança dos horizontes já conhecidos e trilhados. E como o velho anjo da história benjaminiano, citado numa das melhores passagens do filme, sua obra está dirigida para o passado, vendo apenas um amontoado de catástrofes e ruínas. Se desprender das utopias é também se desprender de uma história presa na constante reiteração de catástrofes passadas.

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