Orly de Angela Schanelec

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As mostras de cinema podem nos revelar grandes surpresas, tanto positivas quanto negativas. Já tive algumas experiências terríveis, mas também consegui ver ótimos filmes, dos quais não sabia nada ou quase nada. Foi neste espírito que resolvi assistir Orly da diretora alemã Ângela Schanelec no excelente Festival de Cinema Independente que está acontecendo no Cinesesc em São Paulo. Não sabia nada a respeito da diretora, apesar de já ter dirigido um número razoável de filmes. E para minha grata surpresa, Orly é um filme muito interessante. A trama é muito simples, acompanhamos os encontros e os diálogos de alguns personagens que passam pelo aeroporto de Orly, na capital francesa, durante uma manhã. Dois parisienses expatriados começam uma conversa casual sobre suas vidas e seus projetos; uma mãe e um filho, que seguem para o enterro do ex-marido e pai, falam sobre suas vidas sexuais; um casal de namorados alemão, em viagem de férias, gasta o tempo aguardando o momento do vôo. Nesses diálogos nada acontece, são situações desprovidas de sentido ou significação, trata-se apenas do livre desenrolar de um tempo morto e vazio. Essa situação vai criando um profundo mal-estar, uma crescente expectativa de um encontro significativo, de algum acontecimento que possa desfazer aquela quietude, introduzir alguma ação na vida daqueles personagens. Porém, nada acontece, tudo segue sempre no ritmo do imobilismo, numa passividade assustadora. Na realidade, acontece algo que perturba a ordem daquele universo: a polícia cerca o prédio, insinuando algo como uma ação terrorista ou alguma ameaça, e todos precisam abandonar o aeroporto. O ritmo da espera é quebrado apenas por um gesto de força, uma ameaça. Dessa maneira, podemos pensar o filme como uma bela metáfora da sociabilidade contemporânea. E para isso, vou lembrar rapidamente uma ideia muito interessante formulada por Jurandir Freire Costa, num texto intitulado Não mais, não ainda. Segundo ele, é no intervalo entre o não mais(o efeito do passado sobre o presente, a recordação) e o não ainda (o efeito do futuro sobre o presente, a expectativa) que podemos encontrar um espaço para o agir sobre o mundo. É esta ação que pode inserir na tranqüila ordem do hábito (o oposto do pensar e do compreender; não pensar é entregar-se ao hábito no qual radica a banalidade do mal, ideia que ecoa com força a herança arendtiana do pensamento de Freire) um acontecimento, capaz de reintroduzir uma potência que do contrário se torna vazia e morta. A condição daqueles indivíduos, que vagam pelo aeroporto apenas esperando, é tão angustiante justamente por isso: não há um espaço para ação, a disjunção entre o não mais e o não ainda se desfez completamente, na pura manifestação do hábito que não se rompe mais. Ora, o esvaziamento desse espaço de ação cria também um vazio político, afinal o próprio da política é a ação sobre o mundo, a decisão de transformá-lo, e, sobretudo, de devolver ao acontecimento toda sua potência subversiva. Quando essa possibilidade de ação se encontra totalmente esvaziada, nada resta senão a dimensão policial da política: a gestão da vida cotidiana, nos seus aspectos mais ínfimos e microscópicos, pelos desígnios da polícia. Assim, Orly é um filme que fala da política através da banalidade do cotidiano, ou melhor, reflete como a banalidade desses tempos mortos, dessa espera passiva, se converteu no aspecto mais relevante da política contemporânea.

PS: O filme está passando no Festival de Cinema Independente (http://www.indiefestival.com.br/indie2010/sp/), mas não tenho notícias se entrará no circuito comercial. O jeito é ficar na torcida, ou pesquisar na internet em busca de uma versão digital.

O texto que segue abaixo é resultado de uma discussão que realizei sobre os usos da tecnologia em sala de aula. Em dado momento do debate, um dos participantes defendeu o uso de câmeras para que os responsáveis pelos alunos pudessem acompanhar o trabalho pedagógico realizado em sala de aula. Não pude concordar com a ideia. Por isso, escrevi o texto abaixo para justificar a minha discordância. A versão que coloco no blog sofreu algumas modificações, mas ainda assim é um texto ligeiro e que apenas delineia algumas questões que me parecem relevantes. Também omiti qualquer referência que fazia aos demais participantes da discussão.

Bem, continuo enxergando o sistema de monitoramente como uma curiosa inflexão nas relações de poder que perpassam o ambiente escolar, o que está diretamente relacionado com mudanças nas formas de subjetivação instauradas pela ação institucional. Antes de tudo, é necessário um breve esclarecimento sobre o que entendo por relações de poder. Longe de pensar o poder como uma ação exclusivamente violenta, de dominação e controle, penso nele como um conjunto de procedimentos e práticas adotado para a condução das condutas alheias. Nesse sentido, o poder não é nada mais do que um tipo de relação entre os indivíduos que envolve esse agir sobre outras ações. Por conta disso, exercer um poder não se limita a um esforço de dominação (na realidade, numa relação de absoluta dominação nem mesmo existiria relações de poder), mas sim numa espécie de produtividade: seu exercício produz novas condutas e ações. Essa produtividade se manifesta naquilo que podemos chamar de práticas de subjetivação e dessubjetivação. Logo, não seria errado dizer que aquilo que chamamos de euinterioridade,alma, ou qualquer termo que se aplique, é um efeito direto dos jogos de poder que perpassam as relações humanas e o corpo social, tecendo uma rede extremamente complexa de micropoderes. Portanto, toda subjetividade é resultado de uma ação de poder, de uma maior ou menor violência, de um maior ou menor controle. Nesse sentido, é importante lembrar uma belíssima ideia formulada por um grande historiador português, Jorge Ramos do Ó. Segundo ele, o ideário da escola moderna era governar sem governar, de ampliar os poderes até aos limites mais distantes, ou seja, às escolhas de sujeitos autônomos. As práticas de governo (ou seja, o exercício concreto do poder, que doravante chamarei pelo termo governança) aplicadas pela escola, funcionam essencialmente a partir da constituição de liberdades reguladas, na qual os indivíduos interiorizam regras básicas de comportamento (disciplina), o que possibilita a constituição de sujeitos individual capazes de gerenciar sua própria liberdade. Em termos mais claros: a liberdade nasce a partir das práticas de adestramento e controle organizadas em torno da disciplina escolar. Isto tudo ajuda a compreender como a escola produzia um determinado tipo de sujeito durante a “era dourada” da sociedade disciplinar. Foi nesse momento que a escola era se constitui na peça central do maquinário de produção de sujeitos livres e habilitados para a ação no espaço público liberal. Por isso era tão importante a noção de liberdade: cada sujeito deveria ser capaz de moderar suas ações para agir com a responsabilidade devida, ser capaz de escolher seus governantes, realizar a sua rotina de trabalho (nada mais disciplinar do que bater o ponto diariamente, um hábito trabalhado diariamente na escola, com a chamada), enfim ser livre e útil para a sociedade. Esta época dourada, da qual não devemos carregar nenhum tipo de saudosismo, está se desfazendo. Basta lembrar de noções tão novas como trabalho imaterial, pós-taylorismo, ensino a distância, etc. Ora, qual é a grande novidade? Um processo de subjetivação no qual não é mais necessário a criação dessas liberdades reguladas, afinal de contas vai surgindo infinitos mecanismos capazes de controlar as ações necessárias para o funcionamento dos novos espaços produtivos (e não mais necessariamente espaços públicos). Os prazos, as metas, os objetivos, as tarefas semanais, tudo controlado por senhas individualizadas, por mecanismos de gestão infinitesimais. Veja o exemplo dos cursos a distância. Ele sintetiza muito bem a nova personalidade que está sendo gestada: o cumpridor de tarefas. O cursista não precisa criar uma rotina de trabalho diário, como na sala de aula tradicional. Ele pode usar seu tempo da maneira que lhe apetece, distribuir o trabalho de acordo com sua disposição e disponibilidade. Tudo que necessita é garantir o cumprimento das tarefas que foram dispostas. Isso significa que não é mais necessário o lento trabalho de introjeção dos mecanismos disciplinares: a conquista de uma rotina de estudos e reflexão, de um método de aprendizado estruturado segundo regras rígidas. Nada disso. Tudo se limita a seguir a organização do sistema, pois ele é que regula o trabalho. Semanalmente a plataforma do curso enviará atividades e instruções, as quais poderão ser realizadas de forma assistemática ou descontinua. A única coisa importante é o cumprimento de todas as tarefas. Dessa forma, acontece um deslocamento da disciplina: ela não é mais interiorizada, mas externalizada na forma de um sistema de controle. De forma pontual isso realmente não parece ter efeitos mais grandiosos. Porém, a longo prazo esse processo modifica a natureza mesma da subjetividade contemporânea. Apenas um exemplo: hoje o aprendizado acontece cada vez mais por meio de rotinas curtas, pouca concentração, leituras e tarefas múltiplas, leio um minuto e salto pra outra coisa, ai volto pra leitura, e por assim vai. Isso torna cada vez mais desnecessário a leitura de textos longos, a síntese se torna uma grande virtude. É nisso que entra a história dos pais poderem assistir as filmagens em sala de aula, exatamente nesse processo de desdisciplinarização que estou falando. A ideia da câmera é muito simples: o espaço escolar é colocado ao alcance de mecanismos constantes e contínuos de controle, nos quais qualquer um pode participar. Claro, poderíamos dizer que esse controle não será continuo, que pai nenhum ficará o tempo todo olhando através da câmera, serviria apenas para dar uma “olhadinha”, e isso não seria uma péssima ideia. Mas quem disse que o controle precisa ser exercido sempre? O próprio do panóptico era exatamente essa possibilidade de uma olhadinha. Quem está sob vigilância nunca terá condições de saber quem está olhando, quando está olhando e com que propósito. A câmera representa a radicalização do controle, que intensifica e generaliza de tal forma a disciplina, ultrapassando as fronteiras das instituições, tornadas permeáveis de forma que não há mais distinção entre fora e dentro, ao ponto de não ser mais necessário gastar energia com a disciplina: o aluno cometeu uma falta, aquilo foi registrado e poderá ser utilizado para corrigi-la. O professor cometeu uma falta, aquilo foi registrado e poderá ser corrigido. O conflito que necessariamente se estabelecia processo de disciplinarização se esvazia. O aluno não precisa mais introjetar uma regulação da sua conduta, pois estará constantemente posto em vigilância, mesmo que nem sempre alguém esteja lá olhando. É a lógica do BBB na sala de aula. Nesse sentido, vale mencionar novamente as ideias de Giorgio Agamben, a respeito dessa mutação na forma de subjetivação contemporânea: a subjetividade ocidental fora produzida a partir de uma série de dispositivos (entre eles, com claro destaque, os mecanismos de escolarização), que visavam, através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de sujeitos no próprio processo do seu assujeitamento. Entretanto, o que define os dispositivos com os quais temos que lidar na contemporaneidade é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivaçãoos quais não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Frente a estes seres espectrais, as próprias noções da modernidade começam a se esfacelar: a política, a separação de público e privado, a linguagem e a possibilidade mesma de educação. Como diz Michael Hardt, com todas estas transformações vivenciamos cada vez mais um déficit do político, o lugar da política foi desrealizado. Este fato torna possível a constituição de uma sociedade que começa a aplicar a todos os indivíduos dispositivos que estavam, até ao momento, destinados aos delinquentes. Num momento de transformação, no qual o velho vai se esfacelando, será que o melhor papel para aqueles diretamente interessados numa política educacional consistente, é justamente remar em consonância com essas novas formas de controle? Defendendo entusiasticamente essa conversão generalizada da sociedade em um corpo de delinquentes? Ou não seria esta uma excelente oportunidade para bolarmos novas formas de ação e subjetivação?

Não me abandone jamais de Kazuo Ishiguro

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Não me abandone jamais, do escritor Kazuo Ishiguro, cria uma rara e intensa distopia  literária. É difícil não ficar assustado e tocado pela história narrada por Kathy, uma cuidadora de 31 anos que está prestes a abandonar sua função e tornar-se, finalmente, uma doadora. Nessa posição terminal, a narradora-protagonista começa um longo e saudoso processo de rememoração dos seus anos de juventude. Num tom nostálgico, Kathy relata suas lembranças de infância no colégio interno de Hailsham, onde estabeleceu uma íntima amizade com Ruth e um amor meio platônico por Tommy. Em seguida, tenta entender como esse relacionamento foi arruinado após a partida dos três para o Casario, uma espécie de grande república estudantil que precede os treinamentos para a função de cuidador. Seu relato termina com um acerto de contas, a partir do reencontro dos três, com Kathy já na condição de cuidadora dos dois.

Estas lembranças são marcadas por uma mistura de esgotamento e resignação, como se o futuro já estive ausente do horizonte de Kathy. E pouco a pouco, fica claro que esse vazio está diretamente relacionado com a condição mesma de existência dos personagens. Isto porque Kathy, Ruth, Tommy, bem como todos os demais alunos de Hailsham e do Casario, são clones criados com um único propósito: servir de material para a ciência médica tratar e curar as pessoas normais. Por isso, todos se tornarão, eventualmente, doadores, ou seja, deverão doar seus órgãos para tratar as doenças dos humanos.

O papel dos cuidadores é garantir os cuidados mínimos – numa posição meio de babá, confidente e enfermeiro – para a sobrevida dos doadores. Com isso, alguns agüentam até quatro doações, uma espécie de condição quase heróica pela dificuldade e pelo sofrimento, mas grande parte não passa da segunda ou terceira doação. O cuidador acompanha seus doadores pelos hospitais do país (a história se passa no interior da Inglaterra em meados dos anos noventa. No universo da obra, a clonagem se tornou uma realidade no imediato pós-guerra, por isso não se trata propriamente de uma realidade futura, como numa ficção científica tradicional) num trabalho intenso e desgastante, no qual poucos agüentam muito tempo.

Por sinal, Kathy é uma cuidadora especialmente boa e eficaz, por isso cumpre um tempo recorde: mais de onze anos auxiliando inúmeros doadores. Ela sabe que seu tempo está perto do fim e fala disso com certo alívio, afinal todos que lhe são próximos invariavelmente acabaramconcluídos (é esse o termo que usam para tratar da morte provocada pelas doações).

Por esta razão, Kathy está cada vez mais próxima de uma condição terminal, agora num novo sentido, não apenas de encerramento de uma atividade longamente desenvolvida, mas sim o iminente fim da própria existência. Esta impossibilidade de seguir adiante marca profundamente a narrativa de Kathy. É como se ela só pudesse lançar seu olhar para trás, no passado idealizado e perfeito. Este ponto é fundamental para compreender a condição mesma desses seres, quase-humanos, sub-humanos. A eles não está reservado nenhum espaço de ação, são vidas absolutamente moduladas, controladas e desprovidas de opções. Como disse uma das professoras de Hailsham: suas vidas já foram mapeadas. Vocês se tornarão adultos e, antes de ficarem velhos, antes mesmo de entrarem na meia-idade, começarão a doar órgãos vitais. Foi para isso que todos vocês foram criados. Vocês não são como os atores que vêem nos vídeos, não são nem mesmo como eu. Vocês foram trazidos a este mundo com um fim, e o futuro de vocês, de todos vocês, já está decidido.

Essa existência exígua e limitada, obviamente, se torna um forte motivo de angústia e preocupação. Muitos ficam tentados a imaginar como seria se fossem normais, se não fossem apenas clones. O desejo de uma existência não-determinada aparece através da figura dospossíveis. Como Kathy explica lá pelas tantas, como todos nós havíamos sido copiados de uma pessoa normal, então tinha de existir, para cada um de nós, um modelo original tocando a sua vida. O que significava, ao menos em tese, que seria possível encontrar essa pessoa de quem fôramos modelados. E com isso, poderíamos ter uma leve noção de quem éramos lá no fundo e, também, quem sabe, que enxergaríamos parte do que a vida nos reservaria.

Nesse sentido, o que vai se configurando é uma situação na qual está em jogo a própria possibilidade de subjetividade. O que somos? Essa questão percorre todos os personagens ao longo da obra, talvez seja por isso que Kathy decide tão obstinadamente recuperar o seu tempo vivido: afirmar suas lembranças não deixa de ser uma afirmação limitada de si própria, de sua interioridade e sentimentos, da possibilidade mesma de um clone ter alma. De maneira análoga, Hailsham foi criada com o objetivo de demonstrar ao mundo humano que estes seres não são apenas um apanhado de órgãos, mas singularidades passíveis de subjetivação.

O grande objetivo da escola era demonstrar para o mundo que, quando criados num ambiente humano e culto, os alunos podiam se tornar tão sensíveis e inteligentes quanto qualquer ser humano normal. Para isso, os alunos viviam num ambiente agradável e voltado exclusivamente ao aprendizado e desenvolvimento das potencialidades individuais. Nada era mais importante do que a produção artística. Todo aluno era incentivado a produzir diferentes obras, que eram expostas e trocadas entre a comunidade. Além disso, havia uma espécie de grande prêmio para as melhores obras: eram selecionadas para a Galeria.

Ainda que os alunos não tivessem inteira consciência do que significava a Galeria, todos sabiam que era importante se esforçar e mostrar um interesse especial por estas atividades. A proposta dos idealizadores de Hailsham era mostrar ao mundo exterior, através dessas expressões artísticas, aquilo que aproximava os clones de uma humanidade normal: as emoções. O que estava em jogo era todo um esforço de humanização e melhoria das condições gerais dos clones, muito diferente do modo tradicional de criação destes seres. Em todas as demais instituições voltadas para esse fim (o livro dá a entender que existem inúmeras espalhadas por toda parte), reina a miséria e indigência absoluta: os clones eram tratados exatamente como eram vistos, como seres de segunda categoria.

Porém, apesar de todos esses esforços, novamente, continua existindo um limite que não pode ser transposto: a linha que demarca a separação entre a normalidade do homem e a condição sub-humana dos clones. Nem mesmo os idealizadores de Hailsham dispunham dos instrumentos necessários para a abertura de novas possibilidades de devires. Apesar de tudo, Kathy e seus semelhantes continuarão presos ao maquinário biopolítico que os gestou, serão sempre vidas que não merecem ser vividas, bem ao feitio da formulação de Giorgio Agamben. Afinal, é a matabilidade desses seres que possibilita a afirmação mesma de uma humanidade sadia e feliz, na qual o futuro se manifesta como um espaço de múltiplas potencialidades.

É dessa condição que nasce todo o horror da obra. Longe de ser apenas um texto de ficção científica, Não me abandone jamais é muito mais uma reflexão sobre a condição mesma de existência no mundo contemporâneo, no qual o estado de exceção se converteu em norma da política. Nesse sentido, os clones metaforizam uma cisão decisiva: aquela estabelecida de um lado entre os viventes subjetivados, com suas existências “livre” (atente que este livre precisa ser entendido com muito cuidado), indeterminadas e por isso lançadas num tempo irrestrito e aberto; de outro, os viventes mais e mais dessubjetivados, postos sob os desígnios do puro maquinário governamental, sem tempo, sem futuro.

É nesta cisão que se torna compreensível a ideia de vida nua, ou seja, despojadas de todo estatuto políticodestituída de garantias e seguranças, vidas que podem ser retiradas sem qualquer custo. Não é difícil imaginar quem são os clones na sociedade contemporânea: todos aqueles que de tão excluídos e desprovidos de qualquer coisa se tornam uma ameaça à vida política “normal”. Nunca é demais lembrar como o estado de exceção funciona a partir da constante fabricação de “inimigos”, de “terroristas”, de “cobaias”, etc. A grande questão é que esta cisão não funciona de maneira estanque e a humanidade de hoje, em função dos desígnios do poder, pode rapidamente se converter nos clones de amanhã. A grande inovação da biopolítica é justamente essa possibilidade de borrar estas divisões, abrindo a possibilidade cada vez maior de uma lógica totalizante sobre a vida e a morte, todos e cada um podem se tornar tais vidas nuas.

PS: A obra foi lançada no Brasil em 2005 pela Companhia das Letras. Também está sendo lançada uma adaptação fílmica da obra, que estreou no mercado internacional nesta semana e deve ser lançada aqui no início de 2011. No trailer parece que a adaptação é bastante fiel e interessante. Enquanto o filme não é lançado, recomendo vivamente a leitura da obra. Um livro genial e que já foi escolhido como uma das melhores obras literárias da década.

O Trailer do Filme:

O menino que odiava mentira de M. J. Hyland

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O menino que odiava mentira trata de um tema muito comum, qual seja, a difícil transição do mundo infantil para o adulto. Apesar dos riscos, a escritora inglesa M. J, Hyland consegue escapar do lugar-comum e criar uma obra potente e instigante. O protagonista-narrado é John Egan, um menino de onze anos que mora no interior da Irlanda com seus pais e sua avó. Mesmo sem muita clareza, Egan percebe que as coisas não estão bem em sua família, o que lhe causa uma grande dose de sofrimento. Na tentativa de compreender melhor a situação, o garoto começa a desenvolver aquilo que ele acredita ser o seu grande dom: a capacidade de detectar qualquer mentira. Este poder lhe apareceu pela primeira vez quando seu pai, após ter sacrificado os filhotes da gata da família, tentou ocultar seu mal-estar, mentindo a respeito do que estava realmente sentimento sobre aquela ação. Este esforço de ocultação, de negação de uma espécie de verdade interior, teve um efeito intenso sobre o menino, apertando com força seu estomago e lhe provocando fortes náuseas. Incapaz de lidar com a intensidade daquela sensação, John acabou vomitando. Este ato marca a conquista de uma espécie de consciência a respeito das relações humanas, capaz de subverter a ordem das coisas na cabeça do pequeno garoto. É a consciência do mal, que se materializa na mentira, na inautenticidade, na obrigação de constranger a si próprio em face do mundo exterior. Este primeiro contato com a maldade vai se tornar um motor que orienta as ações de Egan. Sua grande preocupação, então, é a de treinar seu dom, aprimorar sua capacidade em desmascarar as mentiras alheias, para proteger sua família e a si próprio. A mentira se torna sua obsessão na medida em que lhe parece impossibilitar uma transparência entre o ser e o mundo. Esta fratura na integridade da subjetividade aparece para o garoto como a origem dos desentendimentos entre ele e seus parentes, especialmente com seu pai. Ao longo da trama, o menino distancia-se cada vez mais do seu pai, e cada nova mentira fortalece esse sentimento. O seu talento para detectá-las, assim, assume um papel redentor: ele, que enxerga através das aparências, pode ajudar sua família a retornar para uma posição prévia, sem mentiras e enganos, logo sem tristezas ou desentendimentos. A dificuldade em compreender a real condição de sua família, que sofre por causa de problemas financeiros e pela dificuldade de viver harmoniosamente na casa da avó, agrava a sensação de que tudo está corrompido e arruinado. No ápice da crise, John tenta um gesto desesperado, uma revelação capaz de fazer com que a verdade viesse à tona. Porém, longe de recuperar a tranqüilidade abalada, este gesto apenas agrava ainda mais todos os problemas de sua família. Como sua mãe lhe diz, o que você achou que ia acontecer quando a verdade viesse à tona? É quando o menino começa a ganhar uma nova percepção de tudo. A mentira, longe de ser a fonte de todo sofrimento, era apenas uma maneira de tentar minimizar a crise familiar. A sua vontade de verdade ganha um novo sentido: consistia, sobretudo, num esforço desesperado para controlar a situação, de ganhar um poder sobre o mundo que lhe cerca, num gesto cheio daquela tirania tipicamente infantil. Só que esse controle se revela vazio, incapaz de aproximar ou refazer uma harmonia e uma transparência que nunca existiram. No final das contas, é como se a transição para o mundo adulto implicasse no abandono desse ingênuo e infantil desejo de verdade, afinal esta vontade absoluta de desvendar o que há de mais íntimo e honesto, no fundo, é apenas um desejo de poder e de governo.

O Milagre de Anne Sullivan de Arthur Penn

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O filme de Arthur Penn, O milagre de Anne Sullivan, é baseado na história real de Helen Keller, uma menina que, após uma grave doença infantil, ficou surda e cega. O roteiro do filme foi elaborado a partir das memórias escritas pela própria Keller, e acompanha os anos inicias da educação da menina junto com a professora Anne Sullivan. O filme é um misto de cinebiografia com história edificante, aquele gênero de filme bastante irritante no qual o espectador acompanha uma “bela” história de superação. Apesar do moralismo que marca esse gênero, e o trabalho de Penn não escapa desse tom, não é um filme completamente ruim, especialmente por permitir uma boa reflexão.

Após sofrer a doença, Hellen Keller se viu desprovida de todos os instrumentos que usualmente possibilitam a conquista da linguagem: sem a audição ela não podia ouvir as palavras e sem a visão ela não conseguia observar e aprender a se comunicar através de gestos. Presa e isolada, incapaz de expressar seus pensamentos, ela se assemelhava mais e mais a um animal ou a um desvairado, capaz apenas de atos destrutivos e agressivos: chutava, mordia, arrancava, rasgava, estragava. Sua família, uma importante e aristocrática família do sul dos EUA, via nela um fardo crescente e encontravam-se no limite de institucionalizá-la num manicômio. Dessa forma, a última esperança de todos era a vinda de uma nova professora, a Anne Sullivan, que com novos métodos talvez conseguisse impor alguma disciplina e domesticar a menina.

Para seus pais, a questão é justamente essa, domesticar, pois eles não concebiam como uma criança com aquelas deficiências pudesse conquistar qualquer linguagem. Bastava apenas conter seu potencial destrutivo para garantir uma normalidade doméstica. Porém, a professora que chega é obstinada: ela não quer apenas prevalecer como uma tirana capaz de dobrar a pobre Helen. Ela acredita firmemente que pode ensiná-la a se comunicar, através dos mesmos sinais que são utilizados para a comunicação dos surdos. Basta exercer um trabalho árduo e constante, vencendo as forças da menina para impor a disciplina necessária ao aprendizado. Para isso, a professora precisa vencer duas resistências: a dos pais e a da própria menina.

A desconfiança inicial é facilmente superada e Anne Sullivan convence os pais de que não acontecerá nenhum avanço na educação da menina sem a adoção de medidas radicais. Enquanto Helen continuar vivendo no ambiente doméstico ao qual está habituada, nada se transformará e ela seguirá explodindo com violência e indisciplina. A única possibilidade de mudança é a criação de um novo espaço, no qual a cena de enfrentamentoentre a potência selvagem da menina e a eficácia disciplinar da professora se desenrolará.

Esse novo espaço exige o deslocamento das duas para uma casa externa ao ambiente doméstico. Na propriedade dos Kellers, existia uma pequena casa, afastada e desocupada. A professora consegue a aprovação para permanecer lá por duas semanas, período no qual ela deveria conseguir algum avanço na educação e na domesticação de Helen. Este novo ambiente possibilitaria uma submissão radical, onde a menina permaneceria na suaestreita dependência, e por isso ela seria capaz de exercer sobre a menina um império irresistível e de mudar a corrente viciosa das suas ideias. É como se ela buscasse a criação de um campo de batalha, que como explica Foucault, devido a disposição táticas de uma série de mecanismos, amplificaria o potencial dos micopoderes necessários para a imposição da disciplina.

Esta disposição implicaria no controle das necessidades mais básicas da menina, sua alimentação, seu descanso, seus gestos e comportamentos, tudo estaria sobre o mais rígido controle das regras impostas pela professora. Além disso, seria através de um jogo físico, violento e duro, que Anne Sullivan impediria os arroubos agressivos de Helen, puniria todas as suas indisciplinas e lhe obrigaria a dedicar sua atenção na imitação dos códigos gestuais necessários para a comunicação. Nesses termos, educar aparece essencialmente ligado com o exercício da força, de uma espécie de violência, capaz de criar aquela disciplina necessária para a interiorização dos procedimentos necessários para a conquista da linguagem.

Efetivamente, após as duas semanas, ela conseguiu avanços notáveis com a menina. Vencida pela força, Helen não apronta mais, sua agressividade cedeu lugar a uma postura mais dócil, uma espécie de pré-requisito para a continuidade do aprendizado. Porém, apesar de todo esforço, a pequena continuava se mostrando incapaz de compreender a lógica da linguagem (como Anne diz sempre, as palavras representam coisas). Imitar os gestos de sua professora ainda é apenas um ato mecânico, sem propósito ou sentido. O problema é que os pais exigem o retorno da menina, ameaçando todo avanço feito até então. A professora se desespera e tenta um último esforço pedagógico, repetindo exaustivamente o procedimento dos sinais nas mãos da menina. Um esforço aparentemente em vão.

Logo que a menina retorna a casa, parece que seus velhos modos também retornaram. É nesse ponto que vemos a cena mais luminosa do filme. Helen Keller começa a brincar com as portas e pega uma das chaves, o que parece repetir a primeira traquinagem que ela fez com a professora, logo no início do filme. A mãe, a figura doméstica por excelência, vem logo e lhe toma a chave, atrapalhando seu intento. A cena segue para o primeiro almoço em família, quando Keller se revolta novamente. A professora enxerga nisso um retrocesso e tenta impor novamente sua autoridade, o que dá início a uma confusão e a menina foge da casa. Lá fora, as duas se reencontram e Sullivan tenta um gesto desesperado: leva a menina até a fonte de água e começa a derramá-la nas mãos dela, enquanto repete continuamente os gestos que representam a palavra água. É quando o milagre se opera e a menina finalmente balbucia alguma coisa, a palavra água que ela havia aprendido na infância. E então o intento da chave faz sentido: Helen corre atrás da sua mãe e recupera a chave, ato contínuo a entrega para sua professora. A professora enquanto metáfora da chave, a única que poderia abrir a intimidade da menina para o mundo. E o primeiro passo da linguagem é simplesmente compreender o papel metafórico de toda linguagem.

Ora, o que está por trás desse imenso esforço de Anne Sullivan é a crença do papel libertador do aprendizado da linguagem. Em inúmeros momentos ela expressa a preocupação de salvar a menina de uma espécie de tirania doméstica, no qual seria apenas um bicho de estimação doméstico. Sullivan acredita que a única forma de protegê-la desse destino é através do aprendizado. Com isso, ela mesma aprenderia a se disciplinar, a regular sua liberdade e utilizar seu potencial interno. Presa no seu corpo, incapaz de se comunicar, Hellen Keller não poderia se governar, mas se ela aprendesse a expressar a verdade mais íntima de si mesma, a sua condição de sujeito, ai sim ela poderia garantir para si a soberania da própria vida. Seu objetivo é deslocar a menina de uma condição de submissão para uma de liberdade regulada. E a disciplina é o método que deveria orientar este processo.

É como se através do exercício da força, de uma violência mais ou menos sutil, pouco a pouco o pequeno corpo da menina fosse capaz de prescindir de qualquer violência. No enfrentamento do primeiro almoço, o que acontece é justamente isso: uma disputa de corpos, da professora e da aluna, com diferentes vetores e intensidades, resulta numa conquista fundamental: a menina aceita comer no prato e dobrar seu guardanapo. Essa pequena conquista exigiu uma energia desmedida, porém possibilitará outras. E a cada nova conquista, será necessário menos energia, menos força e menos violência. O governo vai se interiorizando e a menina vai ganhando uma disciplina espontânea. Como disse Jorge Ramos do Ó, este processo visaampliar e diversificar os meios disciplinares, levando a disciplina o mais longe possível, quer dizer, exatamente até àquele ponto em que ela não fosse mais necessária.

Ademais, para essa estratégia funcionar era necessário um outro deslocamento, qual seja, da família para um espaço institucional de novo tipo. A grande ameaça aos avanços da menina, no final das contas, não era tanto suas deficiências físicas, mas o desejo incontido de seus pais em lhe manter presa ao espaço doméstico. Seu avanço último, a possibilidade de pensar através de metáforas, quase foi detida pela vontade de dominação da sua mãe. É contra essa soberania do lar que a professora se levanta. É ela quem vai preparar a menina para o uso da linguagem, e por isso para a vida pública.

Por conseguinte, o filme acaba desvelando uma das mais bem acabadas representações do papel da escola na estruturação da modernidade. A partir da noção de liberdade e de espaço público, as reflexões sobre a escola e suas pedagogias visavam, acima de tudo, garantir o funcionamento de uma ordem política marcada pela separação do público e do privado, na qual era fundamental que todos soubessem interiorizar as regras mínimas de convivência para dispensar o uso da força. A política moderna, no seu modelo mais utópico, exige que o conjunto da sociedade disponha dos elementos necessários para o diálogo (a linguagem) e que cada um fosse capaz de governar a si mesmo (a disciplina), para participar do governo de todos.

Nesse sentido, vale lembrar aquilo que o historiador português Jorge Ramos do Ó disse: a modernidade funciona a partir do cruzamento do poder pastoral com a governamentalidade liberal, no qual todos e cada um acabam inseridos num grande dispositivo de governo. Assim, a modernidade foi caracterizada pelo permanente desígnio de governar sem governar, de ampliar o poder até aos limites mais distantes, ou seja, às escolhas de sujeitos autônomos nas suas decisões. Isto acaba encerrando uma aporia fundamental nas bases de nossa modernidade: a possibilidade mesma de liberdade (entendida como a livre condução de nossa subjetividade) é gestada nessa relação com o poder. A posição ocupada por Helen Keller, sua incapacidade de expressar a própria subjetividade, é a metáfora perfeita de um possível fora do poder: lá onde não há poder, não há também linguagem, tampouco a possibilidade de interagir com o outro. Esta relação, porém, abre-se para o risco sempre presente da manifestação do poder enquanto dessubjetivação, quando sua produtividade reverte noutra direção.

Esse risco se faz mais presente do que nunca, afinal presenciamos um processo de claro tensionamento dessa modernidade. Como fala Agamben, a subjetividade ocidental fora produzida a partir de uma série de dispositivos (entre eles, com claro destaque, os mecanismos de escolarização), que visavam, através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de sujeitos no próprio processo do seu assujeitamento. Entretanto, o que define os dispositivos com os quais temos que lidar na contemporaneidade é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivaçãoos quais não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Frente a estes seres espectrais, as próprias noções da modernidade começam a se esfacelar: a política, a separação de público e privado, a linguagem e a possibilidade mesma de educação. Estes quase-sujeitos se aplicariam perfeitamente aquele projeto original de educação idealizado para Hellen Keller no início do filme: de modos contidos, domesticados, mas afastados do domínio da linguagem.

Referências:

Os livros citados são:

Michel Foucault, O poder psiquiátrico.

Jorge Ramos do Ó, O governo de si mesmo.

Giorgio Agamben, O que é um dispositivo?

 

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