Exit Through the Gift Shop de Banksy

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Existe um traço comum entre uma obra de arte e um documentário. Ambos funcionam a partir de um mesmo pacto, qual seja, um pacto de verdade entre o espectador e o autor. A obra de arte se diferencia de outras instâncias discursivas porque aquele que a observa acredita no valor daquela obra, um valor que advém da figura do artista, uma espécie de baliza que garante um suplemento de sentido externo à própria obra de arte. O documentário funciona de uma forma semelhante. O que garante a veridição do documentário, o separando dos gêneros fílmicos ficcionais, é justamente a marca do autor, do seu trabalho quase ético de respeito ao verdadeiro, de recusa da adulteração e da subversão do “real”.

Um dos grandes valores de Exit Through the Gift Shop é, numa tacada só, desarticular esse pacto duplo. O filme de Banksy é uma narrativa que tenta reconstituir os passos amalucados de Thierry Guetta, um homem obcecado com câmeras. Sua obsessão era tamanha que não conseguia fazer absolutamente nada sem o registro das lentes de sua filmadora. Por causa dessa mania, ele acabou se envolvendo com o mundo da street art, acompanhando um número imenso de artistas que trabalhavam na subversão do espaço público de grandes metrópoles globais. Todos os principais envolvidos no movimento foram registrados por Guetta, sempre com a justificativa de preparar material para produzir um grande documentário sobre o assunto.

É claro que isso era apenas história, Guetta é apenas um homem dominado pelo desejo de capturar e registrar vidas, um registro sem objetivos ou propósitos. Não houve nunca a vontade real de organizar o material num discurso documental. Porém, o apelo da ideia era muito grande e Guetta o utilizou para encontrar aquele que é o mais recluso e irascível dos artistas de rua, Banksy. A primeira metade do filme, ou um pouco mais, é simplesmente a narrativa dessa busca, de como Guetto ficou obcecado com a figura de Banksy e tenta encontrá-lo a todo custo. O encontro é um marco na carreira de Guetto, ele se envolve profundamente nas atividades de Banksy, apoiando na logística e nas suas aventuras pela noite de Los Angeles.

A aproximação dos dois acontece no momento em que a própria street art passava por uma importante transformação: seu caráter contestatório e subversivo começava a esvaziar e as obras entravam nas galerias e nos leilões do mercado de arte. O que se passa é justamente a conformação daquele pacto de veridição, no qual as pessoas (guiadas pelo sacro-santo julgamento do mercado de artes) começavam a acreditar no valor artístico daquelas manifestações públicas. É por causa dessa transformação que Banksy estimula Guetto a preparar seu documentário. Ele acredita que essa é a única maneira de registrar o que foi realmente o movimento da street art antes daquilo estar completamente cooptado pelo establishment artístico.

O problema, entretanto, é que Guetto não tem a menor ideia de como organizar todo o material (são milhares de fitas) que registrou num discurso lógico e funcional. O resultado do trabalho é uma compilação de imagens completamente absurdas e incompreensíveis. Diante daquilo, Banksy percebe que não existe a menor chance daquele homem conseguir preparar um filme e acaba lhe propondo outra atividade: abandonar as filmagens e partir para uma carreira artística, fazendo pequenas intervenções na cidade e, quem sabe, posteriormente uma exposição simples de seu trabalho. Só que Guetto não é homem de pensar pequeno, ele leva ao pé da letra a recomendação de seu grande amigo e decide se tornar um (grande) artista. A partir daí, começa a segunda metade do documentário.

Da noite pro dia, ele assume um pseudônimo, Mr. Brainwash, e começa a preparar uma gigantesca exposição. Para isso, ele contrata uma equipe (como ele diz, um artista não precisa fazer nada, basta ter ideias e contratar outros para realizá-las), aluga um galpão abandonado e começa a preparar um verdadeiro pastiche artístico. Misturando os mais diversos estilos, tudo aquilo que ele observou durante seu período de filmagem, ele constrói um conjunto gigantesco de obras, tornando-se uma espécie de copista das obras alheias.

O mais incrível é como ele captou a essência do mercado de artes: o primeiro passo para o sucesso é fazer as pessoas acreditarem que ele é um verdadeiro artista. Então, ele começa um processo de divulgação agressiva: pede referência para seus colegas (Banksy, por exemplo, escreve um pequeno comentário, que logo é convertido em slogan), entra em contato com a imprensa, prepara promoções para os visitantes, enfim tudo o que é necessário para criar um evento de alta intensidade midiática.

A operação é muito bem sucedida e Mr. Brainwash se torna um sucesso de público e de vendas. Em pouco mais de 2 meses, ele consegue lucrar cerca de 1 milhão de dólares com a venda de parte das suas obras. O curioso é como as pessoas bem entravam na exposição e já viam lá um artista de renome e talento, um criador nato capaz de entender o mundo contemporâneo. Outros artistas, porém, não conseguiam compreender aquele sucesso todo. É como se ele fosse uma fraude, uma figura burlesca que se aproveita do trabalho alheio. Ou pior, e talvez seja isso que crie tanto incômodo nos outros artistas, ele demonstra como é frágil qualquer tentativa de legitimar uma obra a partir de critérios puramente internos (em outras palavras, critérios estéticos).

Essa é a grande discussão do documentário, o que é um artista? Por que algumas obras valem fortunas e outras não valem nada? Existe um critério estético que demarca e separa uma obra de arte de uma obra não-artística? Todos os acontecimentos que envolvem a figura de Mr. Brainwash giram em torno desses questionamentos. Um homem que nunca fez absolutamente nada, que nunca desenvolveu um estilo próprio ou avançou sua capacidade técnica, que sequer criou algo novo (todo o trabalho foi feito pelos seus empregados), será ele um artista? Bem, o mercado de artes o reconhece enquanto tal, o público o reconhece enquanto tal, ele se reconhece enquanto tal. Exceto para aqueles que se sentiram traídos, Mr. Brainwash ganhou o estatuto de artista e suas obras se converteram em obras de arte.

O filme sinaliza para um fato muito simples, qualquer um pode se tornar um artista, basta convencer o mundo desse fato. Não há uma verdade transcendente (o belo em si mesmo), mas sim um pacto coletivo, uma espécie de crença comum que justifica e dá valor aquilo que é dito ou feito. Esse procedimento, evidentemente, acaba demonstrando a fragilidade da própria noção de artista ou de autoria. Por conseguinte, o filme se torna uma forte crítica ao mercado de artes, na medida em que demonstra claramente o que há de ficcional nos valores que orientam estas transações, basta uma frase de efeito (como Banksy mesmo concedeu ao seu colega) para fazer qualquer coisa virar objeto de valor.

No entanto, não é a crítica ao mercado de arte a coisa mais importante que perpassa o discurso do filme. Na realidade, isso é até secundário. O que é relevante é o sentido prático-político do argumento. Desfeito o pacto de veridição que sustenta a figura do artista, segue-se logicamente um fato inquestionável, qualquer um pode criar aquilo que chamávamos de arte. É toda hierarquia da arte contemporânea (e da arte em si) que ameaça ruir, afinal não há mais nenhum valor ou nenhuma garantia exterior que legitime uma distinção estética.

Banksy, portanto, cria um filme fortemente político, na medida em que ele remove da criação qualquer tipo de valor universal (o verdadeiramente belo, a essência do poético, etc.) e a coloca como um atributo comum à multidão. É apenas a multidão que pode criar ou se apropriar do já criado. O artístico se converte numa propriedade comum, que pode ser reapropriado, modificado, copiado, distribuído ou questionado. O que vai junto nessa dissolução do artístico é também a noção de autoria, quem é o dono de uma obra de Mr. Brainwash? Ninguém. Ainda que alguns prefiram a mistificação do mercado artístico, a peça pode ser comprada e guardada, mas não pode ser removida do uso comum da multidão.

Para encerrar, existe uma forte discussão sobre a autenticidade desse documentário. Muitos dizem que, na realidade, tudo não passa de uma grande piada de Bansky e talvez nem exista mesmo um Mr. Brainwash. O próprio Banksy insiste com firmeza na autenticidade de seu trabalho. Suas declarações, porém, parecem repletas de uma ironia, de uma vontade de sustentar a dúvida. Ao fim e ao cabo, o espectador está desarmado diante do filme. Não existe maneira de assegurar a legitimidade do discurso, a verdade encontra-se em estado de suspeição. Esse procedimento também tem um sentido político bem interessante, é como fossemos obrigados a desnaturar essa força que atribuímos ao real, como se só este suplemento exterior de verdade (criado por outra manifestação do efeito autor, desta vez o documentarista) desse sentido e legitimidade ao filme. O documentário de Banksy está numa zona opaca, na qual a verdade e a ficção se tornam indiscernível, como que alertando que todo jogo de veridição sempre funciona a partir de um pacto frágil, de pouca sustentabilidade, e que pode muito bem ser abandonado a qualquer momento.

Deixe-me entrar (Let Me in) de Matt Reeves

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Deixe-me Entrar é a famigerada refilmagem do sueco Deixe ela entrar (recomendo a leitura prévia do texto que escrevi sobre o filme original). Antes de ver a nova versão, tudo indicava que seria um baita fiasco. Tudo bem, está muito longe de ser um fiasco, mas também não tem as mesmas qualidades da obra original. A grande diferença, como já suspeitava, está na medida. Enquanto o filme sueco economizava nos gestos e nos efeitos, a versão americana exagera em todos os sentidos. Isso deixa a trama com um aspecto muito mais didático, as coisas são reveladas sem pudores, sem meias palavras (isso fica muito claro quando lembramos as diferentes abordagens dadas ao relacionamento da menina com seu velho lacaio). Porém, isso não é o mais grave. Na realidade, o exagero provoca um ligeiro deslocamento no sentido da trama original (pelo menos na maneira como eu a interpretei). No essencial, os acontecimentos são quase idênticos. Owen é uma criança solitária e melancólica. Sofre agressões dos colegas na escola, mora com sua mãe divorciada e não tem nenhum vínculo na comunidade em que vive. Sua existência é marcada por uma cisão entre a impotência de suas ações (o menino não consegue fazer nada) e a potência dos seus desejos (ele se imagina atacando seus agressores ou espia a vizinha transando). Seu problema é não conseguir ultrapassar esta separação entre desejo e ação. A figura da vampira, no filme original, aparecia justamente para resolver esta tensão. Ela existia numa condição de pura potência, afinal a realização de seus desejos era a condição necessária para sua própria existência. Pouco a pouco, a convivência possibilitava um processo de aprendizado, no qual o garoto tomava consciência do seu próprio desejo, conseguindo sair da sua posição de passividade. Isto porque ela era retratada não como um monstro ou uma entidade maligna, mas sim como a manifestação da dimensão desejante na existência humana. É isto que aparece noutro sentido nessa nova versão. Agora a vampira, Abby, aparece de maneira muito mais animalesca. Apesar do seu primeiro aspecto, uma menina delicada, quase assexuada, quando entra em transe, por causa da sua sede de sangue, ela se transforma. Seu rosto ganha contornos monstruosos, seus gestos são brutais e selvagens (não dá pra esquecer da cena que ela escala uma árvore, um momento animalesco e um pouco constrangedor), capaz de movimentos rápidos e ações completamente inumanas. E o mais importante: sua violência é completamente desmedida, brutal, assustadora. Por conseguinte, a brutalidade das suas ações a transforma num ser que é correlato de um animal (ou um monstro, o inumano por excelência) e não mais como a manifestação do humano. Isso esvazia a possibilidade de identificação e transformação entre o garoto e a vampira. Essa mudança pode parecer pequena, ou mesmo insignificante. Porém, o que me pareceu mais interessante no filme original era essa dimensão ética do filme, o que possibilitava uma rica inversão na tradição de filmes de vampiros. O que mais vemos, quando se trata de vampiros, é a construção de um forte discurso moralizado a partir dessa figura, basta ver o mais famoso exemplo recente, a série Crepúsculo. Em Deixe ela entrar, acontecia uma recolocação do desejo (o material mesmo de qualquer experiência ética) no centro da narrativa, de maneira muito inventiva e intensa. A refilmagem, obviamente, não joga isso totalmente para escanteio, mas isso é um pouco eclipsado por essa necessidade de animalizar as ações de Abby. É quase como se houvesse uma espécie de recusa do desejo (sua dimensão violenta e/ou erótica), lhe colocando fora da órbita do humano.

O Agente Triplo de Eric Rohmer

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O Agente Triplo é uma espécie de desdobramento temático daquilo realizado em A Inglesa e o Duque. Em ambos os filmes, Eric Rohmer elabora uma reflexão sobre a política, ainda que a partir de dois momentos diferentes da história da França. A trama de A Inglesa se passa durante a Revolução Francesa, reconstituindo a narrativa do diário de uma aristocrata inglesa que via com horror os desdobramentos da luta política na Paris revolucionária. Como escrevi antes, o filme não esconde sua tomada de partido, o que vemos é uma leitura aristocrática do acontecimento, que compreende a Revolução como uma caminhada acelerada em direção ao caos e a destruição. Os políticos aparecem como homens bárbaros e pouco confiáveis, capazes dos atos mais violentos e desumanos. Para Grace Elliot, a protagonista do filme, a política é o espaço de jogos sujos, no qual todos estão dispostos a abandonar qualquer tipo de valor moral em busca de mais poder ou influência. O mundo polido, civilizado e cortês, que Grace Elliot acreditava existir antes da Revolução, é subvertido pelo interesse político. A queda do Duque de Orléans (uma queda tanto moral quanto política) é a expressão mais clara desse processo. Não há maneira de se envolver com a política sem se sujar. Esse tema reaparece em O Agente Triplo. A trama começa em 1936, logo após a vitória da Frente Popular francesa. A protagonista, novamente, é uma mulher, agora Arsinoé, uma artista grega que emigrou para França junto com seu marido, Fiodor. Ele era um aristocrata russo e participou da Guerra Civil ao lado das tropas contra-revolucionárias (o exército branco), por isso teve que se abrigar na França. Mesmo refugiado, ele manteve uma posição política influente, participando ativamente de uma organização internacional de resistência à Revolução (Russa). Os tempos conturbados, marcados pelo inicio da Guerra Civil Espanhola, mas também pelas agitações socialistas na França e o fortalecimento dos partidos fascistas, envolveram Fiodor numa complexa trama internacional, na qual negociava ao mesmo tempo com agentes russos, alemães, franceses e espanhóis. Porém, só acompanhamos essas atividades indiretamente, pois o foco narrativo está centrado em Arsinoé. Tudo que sabemos é aquilo que ela presencia nas conversas do marido com outras personalidades ou, principalmente, através de suas discussões com Arsinoé. O crescimento da tensão internacional a deixa cada vez mais desconfiada das ações de seu marido, não sabendo exatamente o que ele faz, nem de que lado (dos brancos, dos alemães ou dos russos) ele realmente está. Essa desconfiança lhe coloca em posição de confronto com o marido. É quando acontece uma cena chave para compreender o filme. Ela questionar o marido, por que nunca me fala nada sobre suas atividades, por que seus colegas sabem mais do que faz do que eu? Ele responde, dizendo que para seus colegas ele pode mentir e enganar, mas não para ela. Por isso, ele prefere não lhe falar nada, para não ser obrigado a mentir. Esse diálogo é importante porque estabelece uma contraposição entre o espaço político e o espaço privado. Neste, as relações são orientadas a partir de princípios morais que tiram a legitimidade de qualquer tipo de subterfúgio sujo (como a mentira). Já no espaço político, não há nenhum tipo de impeditivo e qualquer tipo de recurso é aceitável para atingir os objetivos propostos. Isso que justifica, por exemplo, as inúmeras traições orquestradas por Fiodor, que busca apoio em todos os lados e não exita em trair seus aliados, mesmo que isso signifique a morte deles. O problema ocorre quando esta ausência de moralidade acaba resvalando exatamente naquele espaço que supostamente estava resguardado. Fiodor acaba envolvido no seqüestro de um ex-general russo e precisa do testemunho de sua esposa para lhe garantir um álibi. Isso lhe obriga a quebrar aquele pacto que estabelecera junto dela, inventando uma versão bem fantasiosa do ocorrido para ganhar sua confiança (inicialmente ela fica horrorizada com a mera possibilidade de Fiodor estar envolvido num crime tão brutal). No entanto, a situação escapa de seu controle e quem paga o preço da operação é a própria Arsinoé. De maneira análoga ao filme anterior, a política aparece como um espaço de manifestação da barbárie, justamente por conta desse pragmatismo finalista. Fiodor aparece como o duplo do Duque de Orléans, na medida em que os dois acabam quebrando a confiança daqueles que os circundavam. Pode-se dizer, portanto, que Rohmer desvela com maestria um princípio fundamental do pensamento político ocidental, qual seja, a legitimidade da razão de estado. A lógica da soberania política (manifestada na figura do Estado) justifica qualquer tipo de violação, seja jurídica, moral ou mesmo física. A lucidez do diretor reside na percepção do papel estruturante dessa lógica pragmática na ação política. Não é uma questão de ser bom ou mau político, o que não faz muito sentido, mas é próprio da política a necessidade de abrir mão de qualquer regra moral. Não é gratuito que a razão de estado ande de mão dada com outra categoria central da nossa política: o estado de exceção. É por isso que na perspectiva de Rohmer, a política é um espaço que não pode ser adentrado impunemente, todos que nela se envolvem acabam engolidos por este imperativo pragmático.

O mágico (L’illusionniste) de Sylvain Chomet

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A nova animação de Sylvain Chomet, o diretor francês que realizou o belo Bicicletas de Belleville, é uma triste reflexão sobre o desencantamento do mundo. Baseado num roteiro de Jacques Tati, o filme acompanha um mágico meio decadente, perambulando por várias cidades em busca de espaço para seu espetáculo. O problema é que as pessoas não parecem muito mais acreditar nos seus talentos. E mágica é algo que só tem efeito quando há uma espécie de crença comum, na qual as pessoas aceitam a força do mistério e do desconhecido, e por isso acreditam na eficácia do mágico. Sua perda de prestígio é provocada justamente por um esvaziamento nessa crença do desconhecido, o que transforma suas mágicas em truques ou meras ilusões, sempre sujeitas ao desmascaramento. Esse desencantamento aparece com toda força quando o pequeno garoto, numa platéia vazia, comenta com sua mãe que descobriu o segredo do truque. É como se todo o mistério fosse desvelado, deixando o Mágico completamente despido diante da platéia. Sem muitas opções, o protagonista é obrigado a viajar para terras mais distantes, fazendo uma espécie de turnê pelas ilhas britânicas. Num lugar que parece o interior da Escócia, ele encontra uma platéia mais amistosa e interessada, todos se divertem com o espetáculo e com suas mágicas. E uma jovem mocinha, a faxineira do local, fica especialmente curiosa com aqueles poderes incríveis. O interesse, claro, desperta a vaidade do Mágico e ele inventa pequenas mágicas para agradar a menina. Ele faz aparecer de tudo, objetos, moedas, até mesmo um sapato, tudo vira presente para a garota. Ela fica encantada com esse poder, ele fica encantado com a crença dela. Muito mais do que uma paixão ou uma amizade, o que nasce entre os dois é um desejo comum de recuperar o encantamento de um mundo cada vez mais cético e descrente. Quando ele retorna para cidade grande, ela o acompanha e os problemas começam a acontecer. Como ela acredita que as coisas simplesmente aparecem do vazio, seu gosto consumista começa a crescer descontroladamente, afinal para ela bastava o estralar dos dedos para o Mágico criar tudo que ela desejava (O filme estabelece uma oposição entre a crença na ficção do mágico e a crença na ficção do dinheiro, como a garota acredita no primeiro, ela não entende muito bem a lógica do segundo. A cena da loja, quando ela tenta comprar uma jóia cara com uma das moedas “criadas” pelo Mágico expressa isso muito bem). Entretanto, o protagonista sabe que não cria nada do vazio, e para sustentar seus truques ele começa a passar por apertos cada vez maiores. Por um tempo, ele ainda consegue um espaço para apresentar seu espetáculo, mas isso não dura muito. Na falta de opções, o pobre Mágico é obrigado a procurar outros empregos, até que chega ao ponto mais baixo de sua carreira, quando é contratado por uma loja de departamentos para realizar seus truques diante de uma vitrine cheia de ávidos consumidores. Desmoralizado e desacreditado, o Mágico encontra-se incapaz de continuar sustentando a crença nos seus truques. Ele também passou por um processo de desencantamento, perdendo a força para continuar como mágico. Já que aquilo que estrutura o relacionamento era uma crença comum, sua desilusão coloca um ponto final na possibilidade de compartilhamento, e ele precisa partir. Mas, antes ele deixa um pequeno bilhete para a garota: mágica não existe. É como se ele adquirisse uma espécie de consciência da desconexão do mundo enfrentada pela garota, e por isso a alerta do sentido último da realidade, uma realidade desencantada e presa na pura materialidade das coisas do mundo. É isso que deixa o filme com um ar tão triste, mas nem por isso ressentido, a constatação de que o desencantamento do mundo é um caminho sem volta. Não há como recuperar esta crença que vai se perdendo. O Mágico (e todo universo que transita ao seu redor) simplesmente é obrigado a se resignar com o seu não-lugar no mundo. E partir.

Ensaios Ababelados: agora em novo endereço

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Caros leitores,

Depois de pouco mais de três anos, este blog está de mudança. A plataforma Blogger é muito prática e fornece ótimos instrumentos para criação e manutenção de um blog, porém tem também suas limitações e alguns problemas ocasionais. Por isso, já faz um bom tempo que penso em substituir estas ferramentas pelo WordPress. Só que sabia o trabalho que essa mudança daria. Foram os problemas do final do ano passado, quando meu blog simplesmente sumiu por dois dias e meio, que serviram como estímulo final para encarar o trabalho e fazer as mudanças. Agora a primeira versão do novo blog está pronta. Registrei um novo domínio e armazenei todos os arquivos num servidor próprio. O novo endereço é www.ensaiosababelados.com.br. O conteúdo do blog continua o mesmo, a mudança é basicamente nos recursos e na aparência do site. O que é realmente impressionante no WordPress é a possibilidade de criação. Não há limites para os temas e para as mudanças. Isso é muito interessante e vale todo o trabalho da mudança. Convido a todos para visitar e comentar o novo formato, sugerir mudanças e melhorias, bem como me avisar sobre eventuais problemas e falhas que ainda desconheço. Uma coisa que me ajudará muito é que todos aqueles que linkaram este blog, façam a mudança para o novo endereço. O maior problema da mudança é justamente a perda de todos os links que tinha e isso vai levar um bom tempo para ser corrigido. Por isso agradeço desde já a todos que fizerem a mudança e me ajudarem na divulgação do novo site. A partir de agora, farei novas postagens apenas aqui, mas deixarei o blog antigo ativo por mais um tempo, antes de instalar um mecanismo de redirecionamento automático. Espero que gostem do novo espaço. Finalmente, algumas informações práticas:

1. Apenas reforçando o link principal: www.ensaiosababelados.com.br

2. Mudou o endereço dos feeds. Aqueles que assinavam os feeds desse blog precisarão mudar o endereço da assinatura para http://feeds.feedburner.com/EnsaiosAbabelados

3. Alguns comentários se perderam durante a mudança. Não sei bem o que aconteceu, mas foi algum problema esquisito na importação. Tentarei migrá-los manualmente depois.

É isso. Bem, agradeço as visitas e os comentários de todos que passaram por aqui. E ficarei aguardando novas visitas e novos comentários no novo Ensaios Ababelados.

Atenciosamente

Leandro

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