Eric Rohmer não é um diretor conhecido pela temática política. Ainda assim, a questão é central em três de seus filmes: A inglesa e o Duque, O agente Triplo e A Árvore, o Prefeito e a Mediateca. E o que mais chama a atenção é a presença de uma interpretação coerente dos fenômenos políticos nas três obras. Para Rohmer, a política é o terreno de uma lógica pragmática despida de qualquer regra moral, no qual as ações flutuam de acordo com o sabor dos ventos e das necessidades do momento. Nesse sentido, a figura do político, ou melhor, do soberano é retratada de maneira bastante negativa: ele é aquele que está sempre disposto a cometer atos excepcionais, mesmo que isso implique em grandes violências ou na mais pura barbárie.

Essa interpretação aparece de maneira muito interessante em A Árvore, o primeiro dos três filmes.  Na trama, acompanhamos a história de uma pequena cidade no interior da França, na qual um prefeito (Julien Dechaumes) com grandes ambições políticas pretende construir um enorme centro cultural (a mediateca). O problema é que o projeto não atende aos interesses da comunidade local. Na realidade, a mediateca foi pensada como uma maneira de atrair visitantes de outras regiões, ampliando os interesses turísticos e urbanísticos da localidade, o que possibilitaria o abandono do seu caráter eminentemente rural (o filme é perpassado pelo debate entre modernização e tradicionalismo, entre uma França urbana e uma França rural). Além disso, Dechaumes pretende usar a obra como plataforma política para alçar vôos mais altos na política nacional da França. Apesar de não ser muito afeito ao jogo político parisiense, Julien sabe que sua grande obra é a melhor maneira de conquistar suficiente capital política para se projetar num plano superior ao da mera municipalidade. É com esse espírito pragmático que ele consegue financiamento do Ministério da Cultura para dar prosseguimento ao seu projeto.

No entanto, o centro cultural enfrenta bastante resistência da comunidade local. E o mais ativo questionador das políticas do prefeito é o professor e diretor da escola da cidade, Marc Rossignol. Para ele, a construção do projeto significaria a destruição do modo de vida tradicional da região, provocando a verdadeira ruína do espírito verde que marca a paisagem da cidade. E nada o entristece mais do que a derrubada da antiga árvore que existe no meio do terreno que deveria dar lugar ao centro cultural. Assim, o prefeito e o professor marcam posições opostas na estrutura do filme: de um lado está o político pragmático, defensor do discurso modernizador e progressista; do outro, o defensor da comunidade e de seus valores e hábitos tradicionais. O primeiro está apenas preocupado com o sucesso de sua carreira, enquanto o segundo defende o interesse comum da região.

Esse olhar desconfiado para a política é muito parecido com aquilo que aparecerá nos filmes posteriores de Rohmer, nos quais nota-se com ainda mais força essa cisão entre a lógica soberana e os interesses da comunidade. Só que, ao contrário do que vemos nos seus últimos filmes, aqui ainda há uma visão otimista, que enxerga uma possibilidade de subversão dessa lógica pragmática. Um elemento muito importante do universo rohmeriano é a força do acaso, a possibilidade de um acontecimento transfigurar toda a estrutura do presente e abrir caminho para um devir inesperado e positivo. E é a partir desse elemento que surge essa possibilidade de superação da ameaça imposta pela política.

Um dos atributos mais importantes do soberano é sua capacidade para dobrar o imprevisto e reduzir a potência subversiva do acontecimento ao mero hábito reiterado. É nessa operação que ele encontra meios para reduzir a multiplicidade dos devires à unidade do governo. Toda teorização da soberania aposta nessa necessidade de ordem e criação de um corpo político unitário e previsível. Pode-se dizer, portanto, que o acaso é representado como uma potência caótica e anárquica, capaz de dissolver a própria comunidade política. O que acontece no filme de Rohmer é justamente o inverso. A instauração de um acontecimento aparece como a principal arma de resistência da comunidade diante da ameaça introduzida pela política.

Os planos do prefeito acabam se enroscando numa sucessão de imprevistos, ações singulares dos mais diversos agentes sociais envolvidos com a pequena cidade. Estas ações não funcionam segundo uma racionalidade pragmática, nem coordenada numa direção unitária, mas são simples manifestações dos interesses comunitários. É a fala do professor contra a destruição da árvore, é a jornalista que decide escutar os velhos moradores da região, ou a criança que tenta convencer o prefeito do erro que acompanha seu projeto. No final, essa multiplicidade de vozes acaba combinada de maneira a constituir um verdadeiro impedimento à realização da mediateca.

E é nessa combinação de elementos imprevistos que a comunidade consegue proteger a si própria. Para traçar uma definição muito simples, creio que a melhor maneira de pensar o sentido do acontecimento é a partir dessa ação comum, que não pretende constituir uma nova unidade, nem anular as particularidades que a constituem (é por isso que o professor não pretende se transformar no prefeito da cidade, ele não pretende ocupar a posição do soberano, mas manter-se ao lado da comunidade).

Com isso, percebe-se uma inversão na lógica mesma da soberania: enquanto as palavras do prefeito são sempre acompanhadas pelo discurso do progresso, da racionalidade técnica e de um futuro fechado e direcionado; as palavras da comunidade se abrem para um devir imprevisto e festivo. A força dessa articulação acaba anulando a presença do soberano. Ao final, o próprio prefeito se recoloca ao lado da comunidade e, numa bela cena, todos celebram lado a lado a continuidade de um modo comum de existência.

O que perpassa a reflexão de Rohmer é uma desconfiança da política, mas não de toda política. Na realidade, existe um forte apelo democrático percorrendo a trama inteira. A decisão inicial do prefeito, tomada sem nenhuma discussão ou consulta aos interesses da população local e preocupada apenas com o jogo político mais amplo, é a expressão perfeita da excepcionalidade que sempre acompanha os atos político. Porém, a ação da comunidade significa o desenlace entre política e exceção, afinal a dimensão constituinte da política é recolocada no conjunto da própria multidão. É nesse processo que pode se descortinar uma possibilidade concreta para o exercício de uma política democrática. Porém, para quem acompanhou as obras posteriores de Rohmer, fica claro que essa visão otimista foi substituída por outra, muito mais desiludida, na qual parece que a possibilidade mesma de democracia fica cada vez mais remota.

 

Em um Mundo Melhor de Susanne Bier

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Em um Mundo Melhor é uma espécie de reflexão sobre a falha na soberania. Porém, a proposta não é criticar ou pensar uma alternativa à ordem soberana. Na realidade, o que vemos é uma tese que insiste na dimensão central da soberania como estruturante da civilização. Por trás de um discurso cheio de boas intenções e politicamente engajado, com belas imagens e uma trama até que bem arranjada, o que vemos é um discurso bastante conservador e pessimista.

O filme funciona a partir de duas narrativas distintas e que se conectam através das ações do protagonista, o médico Anton. A primeira é aquela que se passa num acampamento médico e de ajuda humanitária no continente africano. A região é indeterminada e genérica, recuperando as imagens mais comuns que utilizamos para imaginar a situação social da região: pobreza, fome, doenças e violência. No meio de tanto sofrimento, Anton aparece como um homem idealista, preocupado em minimizar os problemas e cuidar daquela população desprovida de qualquer recurso ou defesa, num constante estado de vulnerabilidade. E nada reforça com mais ênfase essa condição de vulnerabilidade do que a ação de um bando de violentos mercenários. Estes atacam e saqueiam os acampamentos com muita violência e sadismo.

Diante desse grupo bárbaro, a população local não encontra nenhuma forma de proteção, nenhum mecanismo capaz de neutralizar a ameaça e o estado de insegurança. Essa vulnerabilidade, como fica implícito no desenrolar do filme, é o resultado de um vazio político, da ausência de um Estado ou de uma autoridade capaz de mediar os conflitos e impedir a barbarização da existência. Nessa falha da soberania, tudo que resta é um estado de guerra, no qual cada um pode fazer justiça com suas próprias forças, e mesmo o mais violento não tem garantia nenhuma de que não será também violentado (basta lembrar o que ocorre com o líder dos mercenários).

Este “estado de guerra” também aparece na segunda narrativa que percorre o filme. Agora o problema se desenrola no coração do mundo civilizado, a tranqüila e supostamente cordata Dinamarca. Só que nesse caso, o foco é colocado na perspectiva de duas crianças. Elias, o filho de Anton, é uma criança que enfrenta problemas na escola. Ele é vítima do bullying. Retraído e tímido, incapaz de se defender, é constantemente agredido e humilhado. Seus problemas se agravam com a incompreensão do mundo adulto. Seus pais passam por um processo de separação, além de estarem sempre ocupados com seus trabalhos. E os professores também não conseguem entender a gravidade da situação, nem imaginar uma forma de controlar os abusos impostos ao garoto. Como se percebe, a escola se transformou numa terra de ninguém, sem regras ou leis, e os mais fortes se juntam para violentar os indefesos. Porém, como já mencionei, nesse universo hobbesiano, não há força que não possa ser superada por outra força.

É nisso que entra Christian, um jovem garoto recém-ingresso na escola. Ele também enfrenta problemas em casa, sua mãe morreu de câncer e ele culpa seu pai pela morte. Incapaz de vivenciar o luto, ele se afasta da família e adota um comportamento extremamente violento e destrutivo. Ele aparece como a melhor manifestação dos efeitos predadores da violência sem limite. O problema é que ele se aproxima de Elias e realiza uma espécie de pedagogia da violência: diante da ameaça, ele ensina ao seu novo amigo, é necessário revidar com o máximo de força. É assim que ele resolve os problemas de bullying do colega, quase matando o garoto que liderava as humilhações.

O nexo explicativo dessa violência é o fracasso duplo daquilo que forma a base da sociedade disciplinar: a família e a escola. Ambas as instituições encontram-se distantes e incapazes de funcionar como materializadoras das regras sociais mais amplas. É como se coubesse a elas o papel de inserir no microcosmo social a ordem da soberania política. Nessa incapacidade, a ordem se esvai e a violência só cresce. É por isso que a figura de Anton é tão importante. É ele que acaba confrontado, nos dois mundos, com os efeitos da ausência de soberania e tenta reintroduzir alguma ordem ao mundo.

Para isso, ele defende uma postura de total intransigência contra a violência. O espírito da coisa é que toda ação leva a uma reação e isso acaba criando um ciclo infinito de violências. Christian é o exemplo perfeito disso. Ainda que sua brutalidade tenha resultados positivos, a situação escapa do seu controle e por pouco ele não acaba com a vida do seu próprio colega. O que Anton prega, portanto, é que para superar a barbárie é necessário utilizar recursos que não os violentos. Esse idealismo, entretanto, não funciona na África. A sensação que fica é que, na perspectiva do filme, a barbarização da região é tão profunda que não sobra nenhum espaço para reversão. E lá só existe uma ordem possível, a da guerra de todos contra todos.

Porém, a crise do mundo civilizado é muito menos profunda. E quando retorna à Dinamarca, Anton tem sucesso na mediação do conflito. E isso passa essencialmente pela reconciliação com as instituições disciplinares: a violência de Christian só cessa quando ele reencontra um espaço de diálogo e confiança junto a seu pai. E isso acontece através da intervenção de Anton e da sua convicção que a única forma de superar o círculo de violências era recusando o desejo de vingança. Por isso, mesmo vendo seu filho a beira da morte, ele não titubeia quando cabe apenas a ele salvar o responsável por aquilo tudo, Christian.

No final, o filme apenas reforça a diferença entre os civilizados e os bárbaros. Aqueles são capazes de mediar sua violência e reintroduzir a ordem soberana ao mundo (não é gratuito que a salvação do garoto passe necessariamente pela figura do pai/soberano). Estes, infelizmente, não são capazes do mesmo. Por isso, cabe aos europeus tentaram, ao menos, remediar essa situação com seu trabalho humanitário. O filme não poderia acabar de outra maneira, o idealista retorna ao continente africano para continuar sua missão heróica. Com uma tese tão conservadora, não é surpreendente que o filme tenha levado o Oscar de filme estrangeiro.

 

Cidadão Boilesen de Chaim Litweski

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Cidadão Boilesen é mais um filme que aborda o período da ditadura militar brasileira. No meio de tantos outros títulos, fica até difícil de acreditar na possibilidade de se dizer alguma coisa nova. E no fundo, o documentário de Chaim Litweski não apresenta grandes inovações do ponto de vista historiográfico. A obra trata do percurso de um importante membro da burguesia paulista, o dinamarquês Henning Albert Boilesen, que se envolveu profundamente com a repressão aos “subversivos” no Estado de São Paulo. Seu envolvimento não foi apenas financeiro, fato partilhado por muitas outras personalidades importantes do período, mas chegou a participar de sessões de tortura e até mesmo auxiliar no aparelhamento e no aprimoramento das técnicas de tortura.

As íntimas relações entre a burguesia brasileira e o regime militar já são muito bem conhecidas, ainda assim a montagem do documentário consegue apresentar detalhes relevantes, de maneira concisa e dinâmica. Além disso, o filme realiza uma combinação muito interessante de relatos testemunhais e/ou jornalísticos com material ficcional, como as cenas de uma peça de teatro sobre o assunto, ou mesmo a utilização de farto material fílmico sobre o governo militar. O filme também escapa de um simples monólogo (algo muito comum em documentários sobre a ditadura militar), apresentando falas em defesa de Boilesen, como as manifestações do seu próprio filho, porém sem deixar nenhuma dúvida sobre sua participação em inúmeros crimes políticos cometido pelo regime de exceção.

Ainda assim, caso o filme fizesse apenas a recomposição dessas narrativas, seria apenas mais uma obra regular e didática, aquele tipo de trabalho que só é útil como material didático. O que é interessante no filme, e merece ser bastante problematizado, é a tese construída a partir da figura de Boilesen. Uma questão que se tornou importantíssima ao longo do século XX é sobre a responsabilidade individual daqueles que praticaram crimes durante regimes de exceção.

A questão ganhou notoriedade a partir do julgamento de um importante oficial nazista (Adolf Eichmann), que escapara dos tribunais do pós-guerra, mas acabou preso e julgado algum tempo depois. Eichmann ocupou um posto destacado na burocracia nazista e teve grande participação no esquema que tornou possível o funcionamento da “solução final”. Por isso, foi julgado por crimes contra a humanidade, contra a população judaica e por ter participado de uma organização criminosa.

Para se defender, construiu uma engenhosa argumentação que, em linhas muito gerais, poderia ser resumida na seguinte ideia: estava apenas cumprindo ordens. É a partir dessa defesa que a filósofa Hannah Arendt elaborou um conceito central para pensar o funcionamento dos regimes de exceção, qual seja, o de banalização do mal. Também de forma muito genérica, o conceito exprime aquela situação na qual o extermínio de vidas torna-se uma questão puramente burocrática, tal qual bater o carimbo num documento ou arquivar uma cópia de um contrato. É como se na excepcionalidade política, surgisse uma zona de indistinção tão profunda que mesmo um indivíduo sem histórico de violências poderia vir a praticar crimes atrozes contra outros indivíduos.

No caso do documentário sobre Boilesen, ocorre uma profunda inversão nessa lógica: ele não aparece apenas como um indivíduo que cumpria ordens, ou que concordou em financiar o regime de exceção para proteger interesses pragmáticos. Henning vai muito além, é um indivíduo que deseja o mal, que enxerga a tortura como uma espécie de prazer violento. Para demonstrar a tese, o filme realiza uma conexão entre dois tipos de discurso. O primeiro é o histórico escolar do jovem Henning. Após uma consulta aos arquivos dinamarqueses, o filme revela que Boilesen teve um histórico escolar bastante apagado, sem nada de relevante, exceto um pequeno acontecimento: certa ocasião, um colega de classe fora severamente castigado pelos professores e Boilesen acompanhou a punição com um prazer todo especial, fato que despertou a atenção dos professores e mereceu o registro escolar. Esse pequeno ocorrido talvez não despertasse nenhuma atenção especial, afinal crianças fazem essas coisas o tempo inteiro.

Porém, a questão é acompanhada por outro tipo de discurso, dessa vez de uma instância muito mais técnica e precisa: a palavra do psicólogo. Henning foi amigo íntimo de um psicólogo dinamarquês e esse indivíduo ocupa um espaço significativo na narrativa do documentário. Lá pelas tantas, ele faz uma consideração muito interessante, quando tenta explicar o profundo envolvimento de Boilesen nas torturas. Ele diz o seguinte: a cultura que ele encontrou na América Latina lhe deu oportunidade para viver seus pecados e seu lado mais escuro, coisa que ele nunca teria feito na Dinamarca, porque seria impedido pelo sistema, mas ele encontrou um país com um banquete à sua frente, para que ele pudesse seguir seus impulsos mais malignos.

A articulação desses dois discursos permite uma espécie de inversão, muito mais do que a banalização do mal, o que vemos no seu caso é a própria maldade, as pulsões mais destrutivas materializadas nas ações de um rico e bem-sucedido industrial de respeito. Pode-se dizer, por conseguinte, a partir da tese do filme, que a maldade é a condição psíquica própria de certos indivíduos, o que acaba por inserir a moralidade dentro de um dispositivo psi [1]. E a manifestação dessa dimensão oculta da existência individual dependerá, em grande maneira, da relação entre a estrutura psíquica individual e a estrutura social na qual está inserida.

O regime de exceção ganha um novo sentido, é aquele no qual a maldade latente em alguns indivíduos pode se manifestar livremente. Enquanto Eichmann subordinava suas ações a uma racionalidade burocrática – ele fazia apenas aquilo que lhe era ordenado – Henning agia fora de qualquer racionalidade, por isso aparece como uma figura excepcional no período. Mesmo que muitos outros empresários tenham financiado o regime militar, nenhum deles ganhou tanta visibilidade e provocou tanta revolta quanto o dinamarquês. Talvez por isso tenha sido ele que foi justiçado.

É a partir dessa tese que o filme tenta dar conta da complexidade da figura do empresário europeu. Apesar disso, há um que de teleologia na explicação, afinal é muito fácil justificar a posteriori qualquer tipo de comportamento. Mas esse não é o maior problema da tese. O que mais incomoda é que ela possibilita uma espécie de estranhamento radical. Quando observamos aquele indivíduo que carrega no seu íntimo a marca da maldade, logo sabemos que não somos como ele.

Isto o coloca numa posição de excepcionalidade, tanto em relação ao próprio espectador, mas também em relação aos demais agentes envolvidos com o regime militar. E ainda que essa não seja intenção imediata do filme, acaba ocorrendo uma espécie de esvaziamento das responsabilidades desses outros agentes. Mesmo que muitos depoimentos mencionem o envolvimento de outros empresários, a maldade mesma é um predicado exclusivo de Boilesen. E isso é um problema de primeira grandeza, pois o filme pode, em última instância, recair numa uma forma de terapia nacional ou terapia verbal que confina os problemas no passado (Negri e Hardt), eclipsando uma verdadeira possibilidade de crítica do presente. Esse é o risco da redução psicológica operada pelo filme. Quando a violência da exceção se torna ela mesma uma exceção, um caso quase patológico, não há muito espaço para uma crítica.

 

[1] Nesse sentido, o filme revela um aspecto muito curioso, como odispositivo psi funciona na mesma lógica do registro escolar. É como se pequenos acontecimentos transcorridos dentro do espaço escolar, mesmo aqueles de aparência mais banal, pudessem revelar traços importantes da personalidade individual. Por isso, a escola registra compulsivamente, na tentativa de capturar a essência mais íntima de cada um.

(Texto publicado originalmente em Cinefilia: cinema para ver e discutir)

O novo documentário de Davis Guggenheim, o mesmo diretor de Uma verdade inconveniente, parte mais uma vez de um tema de forte apelo midiático. Se no trabalho anterior o objetivo era conscientizar as pessoas sobre a necessidade de mudanças radicais nas políticas de preservação do planeta, agora ele trata de revelar as mazelas que cercam o sistema educacional americano. E como sempre, as mazelas servem de justificativa para a introdução de profundas políticas transformadoras da realidade existente.

A estrutura de Waiting for Superman é muito simples, quase simplória: primeiro apresenta o problema (as escolas públicas não funcionam); depois realiza uma espécie de diagnóstico (os fatores que impedem que elas funcionem); em seguida, apresenta um conjunto de medidas reformadoras (aquilo que vai possibilitar o surgimento de escolas realmente funcionais); finalmente, encerra-se com um apelo emocionante, voltado para a mobilização da opinião pública em torno das propostas apresentadas ao longo do filme. Em síntese, é aquele tipo de documentário baseado numa forte retórica de convencimento, voltado para a criação de uma sensação de bem-estar no público, afinal seu discurso assegura ao espectador de que realmente é possível resolver aquilo que aparece como o grande problema do presente.

É por isso que o documentário não se sustenta do ponto de vista propriamente fílmico, já que apenas repete as soluções já consagradas pelo gênero. Além disso, não seria difícil, por exemplo, questionar ou problematizar os argumentos elencados. No final das contas, o filme trabalha essencialmente com duas variáveis para explicar a crise da educação: legislação excessiva e falta de capacitação dos professores, os quais são protegidos por uma rígida legislação trabalhista e por um poderoso sindicato. A solução para o problema, segundo o discurso do filme, é muito simples: investir numa espécie de sistema de parcerias público-privado (as escolas charters), possibilitando uma grande flexibilização na legislação educacional e trabalhista. Essas escolas adotariam um eficiente sistema de trabalho, no qual o professor seria constantemente avaliado e caso não realizasse adequadamente suas funções, poderia ser demitido e afastado das salas de aula. Esse sistema já existe em algumas regiões e demonstrou, segundo os dados do filme, bons resultados nas avaliações e nos índices de aprendizado dos alunos que lá freqüentam.

Pra qualquer um acostumado com os debates educacionais, fica bem claro que as propostas do documentário não são muito inovadoras. Na realidade, são dois tópicos freqüentes e muito apreciados pelos reformadores. Por isso, não faz muito sentido insistir na validade ou na recusa dessas teses. O que realmente me interessa é algo que aparece incidentalmente no discurso do filme, mas no fundo é uma espécie de pilar estruturante da reflexão lá desenvolvida. Aqui e ali vamos sendo bombardeados por uma série de dados impressionantes: a crescente quantidade de dinheiro público investido no sistema educacional; os numerosos discursos dos mais variados presidentes americanos que colocavam no centro de suas agendas políticas o investimento na educação; o número de pessoas envolvidas com propostas fracassadas de reformas; o desenvolvimento e o aprimoramento de mecanismos de medição e controle do aprendizado.

Enfim, o filme desvela uma verdadeira intensificação das políticas educacionais desde meados do século passado (mas isso poderia ser facilmente recuado, certamente encontraríamos inúmeros exemplos dessas falas desde o início do século, ou mesmo anteriores), envolvendo cada vez mais recursos e um número crescente de indivíduos, sempre em busca do sistema de ensino perfeito e definitivo. Essa intensificação funciona por meio de uma prática discursiva muito poderosa, a crise da educação. Esta parece funcionar como uma espécie de hidra: quanto mais se luta, mais ela aumenta, consumindo uma quantidade sempre maior de recursos e esforços políticos. De todos os lados, não importa o posicionamento político (liberais, revolucionários, esquerda, direita, conservadores, etc.), todos compartilham uma forte crença na capacidade de intervenção da escola no tecido social, garantindo a criação de uma sociedade mais justa e equilibrada. Para isso, basta uma coisa: resolver a crise.

O que é curioso, porém, é que a crise sempre se faz presente. E nem precisamos buscar dados externos ao filme. Quantos presidentes americanos não se pronunciaram a favor de medidas duras para resolver a crise da educação americana? É assim que cada reforma educacional é logo sucedida por outra, sempre visando remediar um problema sem fim. Nesse sentido, o filme longe de qualquer radicalidade ou inovação, é apenas mais uma peça discursiva a reforçar a noção de crise e fracasso educacional. Curiosamente, o documentário exibe um pequeno trecho de um filme antigo, no qual essa lógica aparece com toda clareza. Os personagens, enquanto debatem os problemas da educação (provavelmente em meados da década de 1950 ou 1960), chegam a uma conclusão brilhante: Boas escolas, isso é o que todos querem, mas às vezes gostaria que alguém me explicasse o que tais palavras significam. Parece que todos temos ideias diferentes sobre o assunto, e cada um de nós acha que tem a melhor solução.

As soluções podem variar de acordo com a bandeira política: podemos encontrar defensores de uma reforma neoliberal (como é o caso do próprio filme) ou de uma reforma democrática, humanista, libertária, conservadora, cristã, tecnológica, etc. Porém, ainda que ninguém consiga explicar consensualmente o que significa uma boa escola, quanto mais decidir inequivocamente a forma de alcançá-la, esses discursos funcionam de modo a sempre ampliar o  raio de ação da instituição escolar. Isso pode ser entendido, entre outras coisas, pela integração cada vez maior de indivíduos nos bancos escolares, pela ampliação do número de horas que estes permanecem confinados lá dentro, pelo controle mais rígido das faltas e dos atrasos, pelo combate à deserção docente (licenças e faltas constantes), pela formação cada vez mais numerosa de profissionais de ensino, sempre com formações mais alongadas e capacitações ilimitadas, o desenvolvimento de sistemas avaliativos cada vez mais complexos e nacionais, a crescente mobilização de capital político em torno de questões educacionais, entre muitos outros exemplos.

No amontoado sem fim de reflexões sobre a crise da educação, Waiting for Superman é apenas mais um exemplo de diagnóstico e de prognóstico reformador. Talvez nem seja o mais brilhante, possivelmente é um dos mais enfadonhos, porém ele desvela muito bem a produtividade que essa prática discursiva adotou ao longo da modernidade. Mais do que qualquer outra coisa, é através desse falatório que a escola vai sempre crescendo e, apesar de todas as recusas e resistência, assumindo um caráter constitutivo central na fabricação das subjetividades modernas. Isso que chamamos de sociedade disciplinar não pode prescindir dos mecanismos escolares de captura e controle dos corpos. E estes não podem abrir mão do discurso crítico e suas medidas corretivas.

 

Não me Abandone Jamais de Mark Romanek

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O filme Não me Abandone Jamais é baseado no excelente romance homônimo de Kazuo Ishiguro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras). A adaptação aparentemente retoma o tema do livro com bastante fidelidade, ainda que falte um bom tanto de sutileza ao filme. Uma das coisas surpreendentes no livro era a tensão estabelecida entre um passado idílico, o qual era rememorado pela narradora-protagonista (Kathy), e a realidade aterradora que vai pouco a pouco se desvelando no presente da narrativa. O filme, porém, abre mão dessa tensão e revela logo de partida a condição trágica dos personagens. A trama acontece numa espécie de realidade alternativa, ou mesmo num ambiente de ficção científica, na qual aconteceu um grande avanço médico em meados do século passado. Os cientistas conseguiram desenvolver uma tecnologia capaz de clonar seres humanos, o que tornou possível a criação de dispositivos terapêuticos capazes de prolongar imensamente a expectativa de vida dos seres humanos.

A trama gira em torno de três personagens, Kathy (que também é aquela que narra a história), Tommy e Ruth. O que torna esse universo trágico, por isso a obra também pode ser vista como uma espécie de distopia, é que os protagonistas são clones e encontram-se na iminência de suas conclusões(esse é o termo que os personagens usam para se referir à morte). Diante desse futuro interrompido, Kathy tenta realizar um acerto de contas com seu passado, relembrando os momentos importantes que passou ao lado de seus dois grandes amigos.

A discussão que perpassa o filme é justamente que tipo de existência é possível para estes seres que vivem uma existência tão determinada e controlada. Desde pequenos, as atividades em Hailsham (o colégio interno no qual os três passaram a infância) sempre foram direcionadas para um cuidado excessivo com a saúde e o corpo. A alimentação era controlada, todos eram proibidos de adotar hábitos pouco saudáveis (como fumar), as visitas aos médicos eram periódicas. A primeira memória que Kathy recupera desse período é a palestra da diretora, na qual ela explica que os alunos de Hailsham são especiais. Por isso, manter-se saudáveis, gozar de boa saúde interna é de suma importância. Essa preocupação com a saúde e com o corpo é acompanhada por um controle obsessivo do tempo e do espaço.

As crianças usam dispositivos de localização e controle quando entram e saem de todos os prédios da escola (e como veremos mais adiante, quando os três partem para uma nova etapa formativa no casarão, lá também há dispositivos que controlam a entrada e saída de todos). Esse controle obsessivo do corpo e das ações também reflete na formação do caráter. A instituição escolar dedica um enorme esforço para o desenvolvimento das capacidades intelectuais e artísticas dos pequenos seres, estimulando até uma espécie de exposição com as produções de cada um deles. A escola também ensina os princípios mínimos de sociabilidade, afinal chegará um momento no qual eles precisarão interagir com o mundo exterior. Então, eles precisam ensaiar o que farão quando estiverem em cafés ou restaurantes, ou em qualquer outra situação análoga. Tudo funciona através do mais estrito controle e da mais rígida disciplina.

Há, porém, um momento de insubordinação, quando uma das professoras decide revelar toda a verdade aos pequenos alunos. É nesse ponto que o filme opera uma contraposição entre duas modalidades de existência. A professora começa perguntando se é possível saber o que acontece com as crianças quando elas crescem e se tornam adultas. Ninguém responde. Então, ela diz que realmente não é possível saber o que será do futuro, alguns podem crescer para se tornar atores e se mudar para a América, ou podem trabalhar em supermercados ou podem se tornar professores. Ela segue enumerando vários exemplos, assinalando para a possibilidade de um futuro aberto, indefinido e imprevisível.

Porém, existe outra forma de existência, aquela que é compartilhada por todos os alunos de Hailsham. Ela diz que no caso deles nós sabemos o que será dos seus futuros, nenhum de vocês irá para a América ou trabalhará em mercados. Nenhum de vocês fará nada além de viver uma vida pré-estabelecida, vocês se tornarão adultos, mas apenas brevemente, antes que envelheçam, antes mesmo da meia idade, irão começar a doar órgãos. Ao contrário daquela existência livre e imprevisível, existe uma que não é livre, nem aberta.

É essa a tragédia da condição clônica, viver uma existência incompleta e determinada. Noutra ocasião, esbocei algumas reflexões sobre essa forma de existência, uma forma de subjetivação incompleta e parcial, por isso não me alongarei aqui. Parece, no entanto, existir uma possibilidade de redenção, de reingresso na ordem das subjetividades plenas, na ordem do humano propriamente. Essa possibilidade reside na existência de um amor sincero e verdadeiro. É nesse momento que o filme resvala com mais intensidade no melodramático, chegando próximo do constrangimento em algumas cenas. Tommy e Kathy, além de amigos íntimos, desenvolveram uma relação amorosa irrealizada e é apenas bem próximo do presente da narrativa que os dois ficam juntos, quando decidem buscar alguma maneira de prorrogar a existência de ambos.

Entretanto, mesmo essa chance de redenção através do amor acaba não funcionando de fato. Kathy e Tommy encontram-se irremediavelmente lançados nessa existência vacilante e fechada. Parece existir uma impossibilidade fundamental de superar a demarcação que marca o humano do inumano, a normalidade do homem contra a existência subumana dos clones. Nesse sentido, a figura clônica poderia muito bem funcionar como uma espécie de metáfora da contemporaneidade, na qual há uma constante produção de vidas que não merecem ser vividas, nos dizeres de Giorgio Agamben. É como se o humano só pudesse existir à custa daquilo que é colocado pra fora da órbita da humanidade.

O problema é que o filme acaba esvaziando essa possibilidade na sua cena final. Depois da conclusão de Tommy e o aviso de que iniciará suas doações, Kathy parte para uma última viagem pelo campo, refletindo sobre o sentido de sua existência. Durante esses devaneios, ela percebe que não sabe ao certo se sua vida foi tão diferente das vidas das pessoas que salvará. Todos concluiremos e talvez nenhum de nós realmente entenda o que passamos ou sinta que tivemos tempo o bastante. Nessa reflexão final, Kathy acaba reconciliando sua condição clônica com aquela da humanidade. Isso enfraquece bastante o sentido político que perpassava o discurso do filme, recolocando a trama em termos existenciais. Nesse momento, o grande problema do filme acaba se reduzindo a uma preocupação com a finitude da existência, colocada da maneira mais banal e plana.

Esse esvaziamento do sentido político, ou melhor, da possibilidade de uma leitura política do filme, acaba diminuindo bastante o interessa do filme. No final das contas, a trama não passa de um melodrama com tintas de ficção científica. É nesse ponto que a adaptação se afasta com mais radicalidade do livro que lhe originou. Além de suas qualidades propriamente literárias, o romance tinha uma força política muito grande. No final das contas, o filme serve apenas como um bom motivo para o retorno ao livro e aos problemas lá tratados.

(Texto publicado originalmente em Cinefilia: cinema para ver e discutir)

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