Zelig de Woody Allen

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Leonard Zelig é um dos personagens mais fascinantes de Woody Allen. Ele parece um indivíduo completamente regular, sem nenhuma virtude ou qualidade, sem nenhum atrativo que o diferencie das massas que circulam nas grandes cidades. Porém, é disso que nasce seu aspecto fascinante. Zelig não só é exteriormente vazio, um ser como qualquer outro, mas também carrega esse vazio no seu interior. É um homem sem personalidade, sem vontades ou aspirações, sem propósitos ou objetivos. Na realidade, Zelig traz apenas um desejo ou aspiração, o de ser nada, de se misturar na multidão e tornar-se indistinto e imperceptível.

No entanto, é muito difícil não ser nada, de não carregar nenhuma marca de singularidade ou de personalidade. Por isso, Zelig desenvolveu um incrível talento: ele consegue assumir os traços característicos daqueles que estão a sua volta. Ele se transforma em médico, comediante, cantor, negro, chinês, gordo, magro, branco, político, piloto, nazista, enfim qualquer coisa que esteja a sua volta. É essa capacidade camaleônica que possibilita a completa anulação de sua individualidade, ele não é nada exceto aquilo que sua volta lhe oferece.

Essa existência vazia, porém, se revela bastante ameaçadora. Não para o próprio Zelig, mas sim para o próprio funcionamento do dispositivo identitário que percorre o tecido social. De maneira muito simples, o processo de identidade funciona a partir de uma estrutura simbólica, na qual se desenrola um jogo de oposições: eu sou, você não é. As múltiplias possibilidades de combinação de pares de oposição constituem um espaço topológico. É nesse processo que os elementos simbólicos adquirem um sentido ou significado. Como já disseram antes, os elementos simbólicos não têm designação extrínseca nem significação intrínseca, mas somente um sentido de posição, por isso o sentido é resultado sempre da combinação de elementos que não são eles próprios significantes.

Isso significa, novamente da forma mais simples possível, que aquilo que sou só funciona a partir de um contraste com o outro. É nesse confronto que o sentido é produzido. A dificuldade é compreender como as diversas séries de identidade simplesmente não se fragmentam em pares incomunicáveis (por exemplo, quando somos confrontados com um terceiro elemento), o que impediria a existência de uma estrutura identitária capaz de se desdobrar num campo mais amplo.

Para que isso não ocorra, é necessário um elemento capaz de percorrer todas as séries, num movimento capaz de articular todos os pares de maneira fixa e estável. Esse elemento, na realidade, é um vazio, ou melhor, um significante flutuante, capaz de assumir múltiplos sentidos. É em função desse elemento, desprovido de qualquer significado, propriamente um não-sentido, que o sentido de todas as demais identidades pode se estruturar e ser enunciado. Seu movimento percorre as diferentes topologias, aproximando-as de um sentido unificado.

Pode-se dizer que, no caso das estruturas identitárias, esse elemento vazio é aquilo que chamamos de personalidade, de alma, ou ainda melhor, de subjetividade. É a plasticidade, seu vazio de sentido, que possibilita a completa articulação de todas as diferenças e igualdades que constituem o eue o outro. Ora, o problema é que esse significante flutuante não pode se materializar no campo da experiência concreta. É um elemento que flutua de lá pra cá, mas não se pode fazer notar. A potencialidade de uma identidade vazia poderia simplesmente arruinar a dinâmica dos pares de oposição, afinal mostraria toda arbitrariedade que sustenta o funcionamento de qualquer identidade.

É nisso que reside a ameaça de Zelig. Ele é o puro significante vazio. Ele não tem nenhum sentido, nenhuma identidade. Ele pode transitar em qualquer par de oposição: seu mundo não funciona como um espaço de alteridade, mas apenas de identificação. Sua existência dá visibilidade àquilo que deveria permanecer oculto, distante da experiência sensível. Ele pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. Ele é a manifestação da plasticidade da subjetividade, do seu caráter produtivo e sem nenhuma fixidez. É como se a existência de Zelig desvelasse que a coisa mais íntima de todos nós, nossa interioridade, não passa de um sentido em constante produção e sempre ameaçado de erosão.

Diante desse dilema, resta apenas tentar anular o aspecto desestruturante da presença de Zelig. A trama do filme gira em torno da tentativa de anular essa potência ameaçadora. Vale uma pequena observação, o filme é também interessante pela sua opção narrativa. Woody Allen transformou seu filme numa espécie de (falso-)documentário que investiga a vida misteriosa de Zelig. Não deixa de ser uma opção coerente com a proposta desenvolvida na trama, mas não pretendo me alongar nisso aqui, ou pelo menos não nesse momento.

Retornando ao ponto, a narrativa começa descrevendo os primeiros registros da presença de Zelig. E rapidamente somos informados das primeiras tentativas de curá-lo, de compreender sua condição como um distúrbio ou um desarranjo psíquico (ainda que o conhecimento médico não conseguisse enquadrá-lo facilmente nas suas tipologias e esquemas interpretativos). É a doutora Eudora Fletcher quem mais vai se interessar em ajudá-lo. Inicialmente, ela sabia que o sucesso no tratamento poderia significar um renome científico sem precedentes. No entanto, esse interesse profissional é rapidamente substituído por uma preocupação afetiva. Ela deseja encontrar uma cura que possibilite ao pobre homem levar uma existência normal e regular.

Entretanto, ela não é a única interessada no caso Zelig. Ele se transforma numa figura pública, todos debatem sua condição. Alguns o amam, outros o odeiam, mas não demoram em identificá-lo como uma ameaça à moral e ordem constituídas. É quando a justiça começa a enquadrá-lo. Ele é acusado de todo tipo de crime, bigamia, fraude, agressão, etc. Sua existência vazia tornou-se um elemento insuportável. Na sua vontade de tornar-se um idêntico a tudo e todos, ele acaba virando o outro do pensamento, aquilo que revela o indizível e por isso é inaceitável.

Diante dessa força corrosiva, evidentemente, não há muitas opções. Ou Zelig é reduzido a condição de uma subjetividade enformada, capturada numa identidade estável; ou sua existência é anulada, com um novo sumiço. Quando tudo parece caminhar para um final trágico, no qual o pobre Zelig se enfia no meio de um comício nazista, a sorte finalmente resolve ajudá-lo. Depois de algumas piruetas, ele consegue se livrar da enrascada e retornar para a tranqüilidade da América. E no fim, Eudora consegue a cura definitiva para seu transtorno, ou seja, garantir a manifestação de uma personalidade estável e coerente para Zelig.

O processo de subjetivação de Zelig é diretamente determinado pela ação terapêutica de Eudora. É bastante interessante lembrar que na modernidade existe um vínculo profundo entre subjetivação e dispositivos psi. O filme não faz nada mais do que assinalar para a profunda correlação desses dois movimentos. Nada mais patológico, do ponto de vista psíquico, do que a impossibilidade de assumir uma subjetividade. E o que acontece no fim é exatamente isso, a ameaça destrutiva de Zelig é convertida numa positividade, qual seja, a verdade do sujeito que finalmente se manifesta.

Para concluir, há um parentesco muito interessante entre Zelig e outra figura muito singular, o escrivão Bartebly. Ambos manifestam, com incrível intensidade, a potência do negativo, da recusa em existir dentro do registro da normalidade. E a mera manifestação dessa recusa ameaça desestruturar a normalidade do mundo. No fim, o destino de ambos é o mesmo: a domesticação que encerra qualquer possibilidade de insistir no não.

 

Foi finalmente divulgada a lista de editoras da IV Feira do Livro da USP Leste (EACH) 2011. A grande novidade é a presença da Companhia das Letras. Porém, por enquanto parece que a Cosac & Naify ainda não confirmou presença. Torço para que isso mude e a editora compareça na feira. O evento acontecerá entre os dias 25 a 28 de maio nos prédios da USP Leste. É bom lembrar que o grande diferencial do evento é seu desconto, todos os livros são vendidos com 50% de desconto.

 

Lista de Editoras participantes (essa lista pode ser ampliada caso mais editoras confirmem suas participações)

 

Contraponto

Nova Alexandria/ Claridade

Aleph

Paulo Freire

WMF Martins Fontes

Pia Soc Fil S

Estação Liberdade

Perseu Abramo

Autêntica

LPM

Centauro

Contexto

Silvio J. da S. Saldos

Odysseus

Apicury

Papirus

Companhia das Letras

Ground

Martin Claret

Callis

Luzeiro

Ficções

Editora 34

Capivara

Alameda e Nankin

UNICAMP

Annablume

Global

Cultura

Boitempo

UNIFESP

Língua Geral

7Letras

UNESP

Musa

Iluminuras

Brasiliense

Ciranda Cultural

Estação letras

Dubolsinho

Leya

IPEA

Informações retiradas do site oficial do evento: http://www.wix.com/feiradolivroeachusp/feira-do-livro#!

 

Para consultar a lista de livros que a Companhia das Letras levará ao evento:  https://spreadsheets.google.com/spreadsheet/ccc?key=0AjDl2ByfsvOXdGV1LUpJcnZoTEtJUDBzSlRYcVdXUnc&hl=en_US&authkey=CMfP-v0O

Peggy Sue, a protagonista desse filme já antigo de Francis Ford Coppola, vive uma vida amargurada. Engravidou e casou muito jovem, com seu namorado de adolescência (Charles), o que lhe obrigou a abandonar muitas oportunidades e sonhos. Acabou constituindo a típica família burguesa americana, cheia de frustrações e arrependimentos. E o pior, depois de longos anos de casamento, viu seu relacionamento ruir quando seu marido a trocou por outra mulher. É nessa condição bastante desagradável que Peggy é convidada para o baile de comemoração dos 25 anos de formatura de sua turma do colégio. Na festa, ela reencontra aqueles com quem dividiu a juventude e suas expectativas de futuro, relembrando os bons momentos que parecem irremediavelmente perdidos no passado cada vez mais distante. No meio dessa onda de rememoração, Peggy sofre uma espécie de colapso nervoso, desmaiando no meio da festa. Por razões misteriosas, quando ela recupera a consciência, subitamente não se encontra mais no presente, mas retornou àquele passado ainda aberto e indefinido que antecedeu sua formatura. É a partir dessa situação insólita que Peggy pode enfrentar a disjunção criada entre suas expectativas do passado e a (ir)realização do presente. O retorno à juventude, inicialmente, parece permitir a superação dessa distância, na medida em que ela pode agora corrigir os “erros” que cometeu e tentar dar outro curso para sua vida. Ela acredita bastante que a fonte de todas suas amarguras é seu fracassado casamento. Sua meta, portanto, é se afastar do jovem Charles e experimentar novos caminhos e envolvimentos afetivos diversos. Há um esforço deliberado de reingressar no mundo, de se abrir para novos convívios, como aquele que trava com Michel Fitzsimmons, uma espécie de beatnik do colégio. Ela enxerga o rapaz como a única alma crítica da instituição, um apaixonado por poesia e literatura que vive imerso na contracultura da década de 1960. Peggy nunca escondeu que tinha uma quedinha por ele, por isso sua chance era preciosa. E de fato, ambos aproveitam bons momentos juntos. A abertura para novos devires – a fuga daquela existência esvaziada e determinada – surge diante de Peggy. Ela pode desistir de todos seus compromissos, suas obrigações, seu futuro burguês. Pode até mesmo fugir com seu amante levemente amalucado. A viagem no tempo, até esse ponto, aparece como uma metáfora do acontecimento, aquele gesto que pode romper a ordem normal do mundo. Ainda que seja apenas um delírio de uma Peggy convalescente, ela pode tatear a chance de subversão do próprio ressentimento. Superar o irrealizável através de novos possíveis, de novas potências. Entretanto, essa possibilidade é recusada. A trama segue outro caminho e apresenta uma solução bastante pífia e um tanto triste. Ao invés de lançar-se no imponderável, Peggy compreende que cometeu um grave erro. Suas frustrações eram apenas sentimentos passageiros e veleidades. Ela amadurece e se reconcilia com seu passado: assumir seu destino e seguir seu verdadeiro amor. Por trás desse desenlace, vai se constituindo uma noção de temporalidade alicerçada exclusivamente sobre a continuidade. É como se o passado, o presente o futuro se manifestassem a partir de uma dobra sobre si mesmos, construindo um tecido oculto que organiza e orienta as ações humanas. Não há abertura, nem espaço para descontinuidades. O que faz Peggy ser ela mesma é a longa história construída nesses anos todos. Romper com isso seria o mesmo que negar sua própria subjetividade. O tempo perde qualquer oportunidade para manifestações do singular, transformando a história numa sucessão de situações sempre idênticas. No final, a narrativa de Peggy acaba da forma mais previsível possível, qual seja, ela retorna ao seu tempo e pode finalmente se reconciliar com seu próprio vazio.

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