Medianeras, do diretor argentino Gustavo Taretto, parece um filme de tese. Não vejo nada de errado num filme de tese. Há, porém, um grande risco nessa postura. Quando a tese não é interessante, o filme pode simplesmente perder toda sua relevância. Existe, porém, casos nos quais a tese acaba sendo ultrapassada pela própria narrativa da obra, trazendo uma vitalidade ausente na motivação inicial do filme. Esse o caso do filme de Taretto.

A tese que vai se anunciando é das mais repisadas nos últimos tempos. É sobre aquela espécie de patologia contemporânea, a solidão e a incomunicabilidade. Esse mal-estar é fruto do desenvolvimento de uma sociabilidade centrada na máxima fragmentação do espaço urbano, o qual não é mais o lugar em da circulação e do encontro. Este espaço comum ou público é substituído pela criação de pequenos cubículos, os apartamentos cada vez menores que surgem nas grandes cidades, isolado e protegido dos demais.

Esse mundo só funciona graças ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação, como a internet e suas redes sociais, que possibilitam uma forma de interação entre seres humanos totalmente isolados. É através da internet que as pessoas podem trabalhar, fazer comprar, conversar, namorar, se divertir, etc. Pode-se dizer, portanto, segundo a lógica do filme, que a internet se mostrou uma ferramenta indispensável para a transformação da cidade contemporânea numa espécie de massa inerte, na qual uma multidão de seres simplesmente não consegue estabelecer o menor encontro com a diferença.

Como decorrência dessa sociabilidade digital, encontramos um sem-número de patologias físicas ou psíquicas: as depressões, apatias, síndrome do pânico, problemas musculares, motores, posturais, etc. O mundo do isolamento se torna uma espécie de máxima redução do bem-estar humano. Nesse sentido, o filme recupera uma espécie de metafísica do progresso que enxerga o desenvolvimento da sociabilidade moderna, acompanhado pelo avanço tecnológico, como responsável pela perda de uma autenticidade essencial do próprio homem.

É o tema da sociedade em contradição com uma interioridade, cada vez mais oprimida pelas relações sociais mais amplas. Esta perspectiva percorre com grande força a modernidade, basta lembrar, por exemplo, do papel desse discurso apocalíptico no pensamento de um filósofo como Jean-Jacques Rousseau. Para ele, o progresso das artes, das ciências, do conhecimento ou das línguas significa a criação de uma barreira cada vez mais intensa entre uma interioridade autêntica e um mundo de máscaras e desenganos. Essa cisão era vista de forma angustiada e sofrida, como que isolando o homem não apenas dos demais, mas de si próprio. Curiosamente, no tempo de Rousseau não existia nem internet, muito menos redes sociais. Imagino o que ele pensaria de nosso tempo.

Essa visão desconfiada e preocupada com o progresso não é exclusiva do filósofo genebrino, mas é bastante disseminada e encontra forte apelo nos mais diversos meios. Em grande medida, parece que é em torno dela que o filme tenta se situar. Porém, existe uma tendência diversa que acompanha a narrativa, uma tendência que problematiza bastante esse apocalipse do progresso.

Os dois protagonistas, o web-designer Martín e a arquiteta Mariana, são vítimas desse mundo sufocante e cruel. Vivem lastimando a solidão na qual estão imersos, dependendo mais e mais da internet e dos dispositivos de isolamento. Martín é o exemplo mais acabado desse homem arrasado pela modernidade. Recuperando-se de um colapso emocional, durante o qual viveu absolutamente encerrado dentro de casa por vários meses, ele sofre para voltar a uma rotina normal fora de seu pequeno apartamento. Mariana também é uma solitária. Perdida após o final de um longo relacionamento com alguém que ela considera um completo desconhecido, ela também sente o peso de um mundo rachado.

Apesar dos desencontros, a narrativa abre, aos poucos, uma espécie de brecha, de escapatória diante desse universo apocalíptico que a modernidade se tornou. E o grande momento do filme é justamente a construção de uma metáfora que realiza uma espécie de abertura desse universo fechado. As medianeras, que dão o título ao filme, são as paredes desprovidas de qualquer janela tão comuns nos apartamentos das grandes cidades. Estas paredes, em geral, são ocupadas por imensos anúncios publicitários e ilustram muito bem essa sociabilidade fechada sobre si mesma. São nestas paredes que os dois protagonistas decidem abrir novas janelas em seus apartamentos.

É como se essas janelas significassem também o abandono dessa lamúria diante da própria solidão. A janela aparece como um esforço de abertura para a multidão, possibilitando um olhar para aqueles que não estão encerrados dentro do próprio mundo. É também na abertura dessa janela que se torna novamente possível o encontro inesperado, o acontecimento intempestivo que desestrutura essa angustiante existência solitária.

O movimento final do filme possibilita uma leitura bastante avessa daquela tese que se anunciava. É como que só bastasse abandonar um pouco a postura passiva do lamento apocalíptico para entrever a possibilidade de novas experiências de sociabilidade. Não são tanto os dispositivos tecnológicos que fecham a sociedade contemporânea em suas mônadas individuais, mas essa resignação crítica que não sabe fazer outra coisa que lamentar diante das medianeras.

 

Lançamento da nova versão do site Cinefilia

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Hoje foi relançado o site de cinema Cinefilia. A nova versão passou por uma completa reformulação gráfica e também de conteúdo. Do ponto de vista visual, a nova versão é mais enxuta e muito melhor trabalhada. Porém, a grande mudança é no conteúdo. Agora o site contará com especiais mensais, mas também com críticas de filmes no circuito comercial e obras clássicas. O primeiro especial é sobre a filmografia de Eric Rohmer. Colaboro com três textos para o especial. Na sessão de críticas, também colaboro no debate sobre o Melancolia. A equipe de colaboradores é muito diversificada e de grande talento. Isso ajuda a criar um espaço amplo de discussão e reflexão sobre cinema. Quem se interessar, faça uma visita, o site ficou bem bonito e interessante.

 

O endereço do site é: http://www.cinefilia.net/porfalaremcinema/

O homem ao lado de Mariano Cohn e Gastón Duprat

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Em O homem ao lado, dos diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, encontramos uma reflexão muito interessante sobre a arquitetura da sociabilidade moderna. Arquitetura aqui não é apenas uma metáfora, já que o que está no centro da trama é a própria essência daquilo que ficou conhecido como arquitetura moderna, as construções de Le Corbusier.

O protagonista do filme é Leonardo, um design de grande sucesso, que reside na única casa modernista da América Latina construída pelo arquiteto franco-suíço. A casa, desprovida de adornos exagerados, fora pensada como a materialização de uma vontade de racionalização da vida, na qual o pensamento ordenado prevaleceria sobre o mundo, modificando-o, ao ponto de conseguir elaborar uma nova forma de sociabilidade humana. No essencial, é isto que está na raiz da arquitetura moderna, tão celebrada por um filósofo como Habermas, uma forte crença na possibilidade de reconstruir o mundo a partir da sua racionalização. A arquitetura do espaço se confunde com a arquitetura da vida. Não por acaso, da casa moderna para a cidade moderna, foi um passo.

Leonardo parece se enxergar como um guardião desse espírito, no seu mundo nada pode estar fora do lugar. E o que movimenta a trama do filme é justamente a possibilidade de falência dessa racionalidade com o ingresso de um elemento não previsível: a presença de um novo vizinho. Victor, o vizinho recém-chegado, decide instalar uma nova janela em sua casa. Uma janela que abriria um rombo numa parede diretamente frontal a um dos cômodos da casa de Leonardo.

A presença daquela janela é vista por Leonardo, mas também e principalmente por sua esposa, como uma espécie de intrusão na sagrada ordem do domicílio. Diante de tamanha ameaça, o designer reage impetuosamente. Começa solicitando educadamente o fim da janela. O fracasso da polidez é substituído por medidas cada vez mais energéticas. O problema é que enquanto as discussões em torno da janela crescem, Victor vai adentrando cada vez com mais força no interior da vida de Leonardo. E quanto ele mais se aproxima, mais Leonardo se exaspera.

Rapidamente o espectador ganha consciência de uma profunda contradição na figura do designer. Toda a configuração aberta da casa moderna – pensada para garantir uma espécie de transfiguração das possibilidades de circulação, sendo por isso uma espécie de abertura pro mundo (uma abertura que possibilitaria a reordenação do próprio mundo) – é contrastada por um indivíduo cada vez mais fechado sobre si próprio. Leonardo não deseja nenhuma comunicação com o mundo, preferindo viver numa espécie de mônada impenetrável.

E não é apenas seu vizinho que precisa ser posto pra fora, mas todo tipo de intrusão, de alteridade. O relacionamento frio de Leonardo com sua esposa, mas também com sua filha, demonstra como dentro daquela casa não resta espaço para nenhum tipo de sociabilidade. Tudo que é estranho precisa permanecer afastado do espaço sagrado de Leonardo. O protagonista, portanto, encarna uma espécie de radicalização completa daquele ideal moderno, exatamente na medida em que leva ao limite extremo a vontade racionalizante que o sustentava. Na impossibilidade de reordenar o mundo de acordo com um projeto racional, resta apenas a recusa do mundo, internalizando uma ordem que não pode se sustentar do lado de fora.

O jeito estabanado e canastrão de Victor, que ora parece um machão ameaçado, ora um sujeito simples e carente, é a suprema ameaça desse mundo fechado em si mesmo. Diante dessa ameaça, a vontade de Leonardo é muito simples, encontrar uma maneira violenta de expulsá-lo. Mas sua incapacidade de interação é tão intensa que ele não pode nem mesmo executar seu impulso destrutivo. É apenas uma ironia do destino, uma violência praticada por outrem, que possibilita a satisfação desse impulso. Leonardo se mantém fechado em si mesmo até o fim. E a morte do vizinho importuno garante o sucesso e a continuidade dessa racionalidade ultramoderna.

Nesse sentido, a transformação da casa de Le Corbusier numa espécie de bunker moderno é apenas a radicalização extrema do ideal de seu criador. No fundo, a ideia era garantir a plena conversão do espaço às necessidades de seus usuários, de onde esta arquitetura recebe o nome de funcionalismo. Leonardo garante esse funcionalismo radical, na medida em que sua casa se transforma na pura expressão dessa vontade de imersão numa mônada impermeável a qualquer intrusão ou contato com qualquer tipo de diferença.

 

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