Minha lista dos melhores filmes de 2011

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Esta é a minha primeira lista de melhores. Segui uma regra bem simples para selecioná-la: apenas os filmes que passaram pelo circuito comercial brasileiro, o que significa que descartei inúmeros filmes ótimos que assisti em festivais e principalmente na Mostra de Cinema de São Paulo. Além disso, preferi não classificar os filmes, afinal é difícil dizer qual desses é o primeiro ou qual é o segundo. Por isso, ordenei a lista apenas em ordem alfabética. Finalmente, gostaria muito de ter visto o Isto não é um filme, do diretor iraniano Jafar Panahi, tinha grande esperança de incluir este na lista. Infelizmente, perdi o filme no cinema e não pude encontrá-lo em parte alguma. Fora este, não acredito que incluiria nenhum outro filme que não consegui ver. Abaixo segue a lista, inclusive com o link no caso de ter escrito algo sobre o filme.

1. ALÉM DA VIDA, de Clint Eastwood

2. AS CANÇÕES, de Eduardo Coutinho


3. CÓPIA FIEL, de Abbas Kiarostami

4. O GAROTO DA BICICLETA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

5. UM LUGAR QUALQUER, de Sofia Coppola

6. MEIA-NOITE EM PARIS, de Woody Allen

7. MELANCOLIA, de Lars Von Trier

8. A PELE QUE HABITO, de Pedro Almodóvar

9. POESIA, de Lee Chang-Dong

10. TIO BOONME, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, de Apichatpong Weerasethakul

Tudo pelo poder de George Clooney

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Tudo pelo poder constrói uma tese muito parecida com aquilo que identifiquei nos dois filmes sobre a política de Eric Rohmer (A inglesa e o duque e O agente triplo). É claro que do ponto de vista estético, é até covardia comparar o trabalho de Clooney com os filmes de um dos maiores diretores franceses. Basta dizer que toda a sutileza e o refinamento narrativos de Rohmer estão ausentes neste filme americano. Ainda assim, do ponto de vista temático as coisas estão bem próximas (Essa proximidade, porém, não significa igualdade. Na obra rohmeriana existe um substrato ético que me parece inexiste nesse caso). No seu filme, Clooney representa um político que se lançou na corrida presidencial americana. O problema é que, primeiro, ele precisa vencer as prévias do Partido Democrata e a situação está pendendo cada vez mais para o candidato adversário. O foco narrativo não se deposita tanto sobre Clooney, mas sim sobre sua equipe de campanha. Esta é liderada por um jovem e talentoso especialista em mídias, Stephen Meyers, e num já bastante experiente estrategista, Paul Zara. A missão dos dois é reverter o quadro negativo e superar o outro candidato nas prévias. O motor da trama é o processo de aprendizagem do jovem Meyers das regras particulares do mundo político. Seu idealismo inicial, quando ele afirmava categoricamente que faria tudo para vencer desde que acreditasse nas propostas de quem ele apóia, rapidamente se perde diante das adversidades que surgem diante dele. O que ele aprende é que na política vale qualquer estratégia para alcançar e manter o controle sobre o poder. Nesse mundo não há fidelidades, amizades ou convicções, existe apenas estratégias e manobras para derrubar as ameaças e fortalecer suas posições. E até mesmo a morte pode ser utilizada como uma arma contra os adversários. Este aprendizado se transforma num exercício de cinismo, afinal Stephen não apenas não desiste da política, mas passa a utilizar as mesmas armas com naturalidade e facilidade. Do idealismo ao pragmatismo, a passagem é súbita e eficaz. A ideia proposta no filme é muito simples, aquele que entra na política precisa abraçar suas regras e aceitar o seu jogo. Diga-se de passagem, o filme abusa fartamente de recursos de luz e sombra para evidenciar essa dimensão negativa da política. De um lado, a imagem pública do político – no meio dos debates e comícios – iluminada e resplandecente. De outro, o lado obscuro – as maquinações e as estratégias – sempre em ambientes escuros, cheios de sombras. E no final, a mensagem é muito simples: a vitória depende muito mais desse lado obscuro com seus jogos de sombras do que na iluminação do debate político e democrático. Percebe-se, portanto, como a tese não traz grandes novidades e nem mesmo um apuro intelectual mais cuidadoso. Na verdade, a coisa é bem simples e quase panfletária. O que se celebra no filme é uma espécie de cinismo, que até poderia abrir caminho para reflexões éticas ou políticas mais bem elaboradas. Poderia, por exemplo, anunciar uma problematização mais intensa da própria categoria do político na contemporaneidade. Ou ainda refletir sobre o efetivo alcance dos mecanismos democráticos dessa que é considerada por alguns a grande democracia do mundo. Mas não é nada disso que encontramos. A mensagem do filme é muito mais simples. Diante da sujeira na política, cria-se uma indiferenciação tremenda. Todos os políticos são iguais e cabe aos indivíduos apenas se conformarem com essa situação. O jogo sujo é o jogo daqueles que abraçam a política, cinicamente o eleitor deve apenas permitir que eles continuem jogando. Nem mesmo um imperativo pragmático resiste nesse universo. Não existe uma política dos “fins justificam os meios” aqui. É como se restasse apenas os meios, a vitória e a manutenção do poder.

O país dos surdos de Nicolas Philibert (1992)

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O país dos surdos (Le pays des sourd) do documentarista francês Nicolas Philibert (o mesmo diretor do bastante conhecido Ser e Ter) é uma interessante reflexão sobre dois tipos diferentes de discursividade sobre a surdez. Mais do que um retrato da vida dos surdos franceses, o filme recupera o modo como os surdos enxergam o mundo em que vivem, dando especial ênfase às relações estabelecidas com os ouvintes. Essa abordagem evita o risco, bastante comum, de falar em nome do outro. É sempre tentadora a possibilidade de explicar o outro, de dizer desta ou daquela comunidade, vocês são assim. Parece-me que é justamente isso que Philibert recusa nesse trabalho. Ele não pretende falar o que são os surdos, nem chamar especialistas que explicarão o que é a surdez e como estes deveriam viver. Essa opção, que por si só já torna o documentário uma obra bastante interessante, é reforçada por outra estratégia. Os ouvintes não falam diretamente para as câmeras. Eles aparecem apenas como elementos secundários, como personagens marginais. Quem fala, sempre, são os próprios surdos. Nessa fala surda, nota-se um tema central: a sensação de viver em constante alteridade num país predominantemente ouvinte. É como se os surdos sentissem sempre que vivem na condição de estrangeiros, daqueles que não pertencem plenamente à cultura do país. Porém, esta situação não parece incomodar os surdos. Não encontramos lamentos nem uma vontade de adaptação e normalização. Na verdade, o que fica evidente é exatamente o contrário. Há uma forte pressão, uma espécie de obsessão da sociedade em normalizá-los, uma vontade de anular essa condição de estrangeiridade própria da cultura surda. Para isso, aparecem inúmeros dispositivos normalizadores. O mais importante é a escola. Neste ponto é necessário lembrar que o filme retrata a situação educacional no início dos anos 90, portanto nos encontramos atualmente num cenário pedagógico um pouco diferente. De qualquer modo, qual é a escola que aparece nas imagens do filme? Uma escola preocupada em adaptar o surdo à comunidade ouvinte. Isso significa, principalmente, ensiná-lo a falar. Já não é mais aquela escola que proíbe a língua de sinais, mas que a utiliza (junto com outros recursos tecnológicos e pedagógicos) para tornar possível o aprendizado da fala para os pequenos surdos. Na ação pedagógica, que acompanhamos num registro quase etnográfico – muito parecido com aquilo que Philibert realizará depois em Ser e Ter – nota-se que o avanço do aluno é medido essencialmente na ampliação das suas capacidades de fala. O importante é torná-lo compreensível àqueles que ouvem e que escutaram apenas a sua voz (e não suas mãos). É claro que esse processo é dolorido e extenuante para os pequenos surdos. A dificuldade em se adaptar nasce dessa obrigação de anular a própria alteridade, de aprender a ser “como” um ouvinte. Essa dificuldade, porém, não acaba quando os surdos deixam a escola. Ela se reafirma em inúmeros outros momentos do filme: nas relações familiares (há uma passagem interessante, na qual vemos primeiro uma família de ouvintes com um filho surdo e depois uma família de surdos, ambas na hora da refeição. Enquanto na primeira, o surdo fica relegado ao isolamento, já que os familiares não sabem a língua de sinais, na segunda a comunicação é constante e animada, afinal todos sabem se comunicar por meio da língua de sinais); no trabalho; no casamento ou na hora de alugar um apartamento. A fonte dessa dificuldade é sempre a mesma, a condição de estrangeiro que dificulta a comunicação e a compreensão dos surdos. E a demanda é sempre a mesma, o surdo “precisa” falar como os ouvintes, precisa se tornar um “quase” ouvinte. Essa situação é contraposta com a luta da comunidade surda, por exemplo, por escolas bilíngües (estas são aquelas nas quais a língua de instrução é a de sinais e a língua nacional é ensinada como segunda língua, unicamente na modalidade escrita), ou ainda pela valorização e pelo ensino da língua de sinais. Enquanto o que se espera da comunidade surda é a normalização e o abandono de sua alteridade, os próprios surdos lutam por valorizar e afirmar sua condição de estrangeiros num país ouvinte. Ao colocar isso em discurso, torna-se possível refletir sobre a noção de deficiência, que sempre aparece conectada ao discurso normalizador. O surdo “precisa’ se adaptar para não sofrer, para poder viver uma “vida normal”. Ora, a ideia que subjaz a esse tipo de afirmação é que a surdez é uma experiência incapacitante ou de falta e que para viver plenamente em sociedade isto precisa ser superado. Uma das falas mais instrutivas a este respeito é a de uma jovem surda. Ela explica que se sentiu horrível quando colocou o aparelho para tentar melhorar sua audição. Para ela, a condição de não ouvinte não é uma perda ou uma deficiência, mas apenas uma forma de existir e de se subjetivar. Por isso, ela não precisa do aparelho, ela não precisa escutar. Essa opção desconstrói o discurso normalizante, afirmando no seu lugar uma vontade de ser-outro, de viver de outra maneira, como um estrangeiro que pode enxergar o mundo de outra posição. A beleza do filme é tornar possível a manifestação desse outro discurso, dessa recusa que muitos surdos abraçam de desejar tornar-se um nativo, um “quase” ouvinte.

PS: tenho impressão que o filme não foi lançado comercialmente no Brasil. Não há registros de cópias em DVD. Felizmente, existe (ao menos por enquanto) uma versão completa disponível no youtube. Deixo o link aqui: http://www.youtube.com/watch?v=LOlhaOfbP3s

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