Universidade Monstros de Dan Scanlon

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Filmes de animação infantis, na maior parte das vezes, trazem um forte sentido moral em suas narrativas. Isso pode ser um problema, ou não. Depende muito da forma como esse sentido é construído e trabalhado com os elementos filmícos, bem como com aquilo que defende e justifica. Além disso, há outro fato que está mais relacionado com aquilo que entendemos por razão de ser do discurso fílmico, se ele pode ou não prescindir de um sentido moral. Por isso, nesse momento pelo menos, mais do que um juízo de valor, é uma constatação que raros desenhos se desembaraçam dessa discursividade moral. E Universidade Monstros não é uma exceção nesse quesito. Tal qual tantas outras grandes animações, no filme dirigido por Dan Scanlon encontramos também um sentido moral facilmente identificável. O que me interessa aqui é que, para além do fato do filme ser bem gracioso e tão interessante quanto a parte anterior da franquia (o Monstros S/A.), este sentido merece algumas reflexões, já que escapa do caminho mais banal e fácil de construção de um discurso moral edificante para crianças. A trama começa mostrando a infância escolar de Mike, o monstrinho verde que também é protagonista do filme anterior, quando ele visita as instalações da Monstros S/A (a usina que processa a energia extraída do susto das crianças) e se apaixonou completamente pela profissão de assustador. Essa paixão, ele carregada pela vida e quando chega no fim da adolescência, momento de ingresso na universidade, o motiva a se se matricular no curso de sustos e se tornar também um assustador. Para atingir tal feito, tendo percepção dos seus diminutos potenciais físicos para causar medo, Mike leva ao extremo a noção de disciplina: tudo é esforço e estudo. Para superar suas limitações, ele não deixa passar um momento sem ler as teorias e tentar entender os elementos práticos dos sustos. Não demora, porém, para que Mike encontre seu antípoda, Sullivan (o monstro roxo que parece um urso, também protagonista do filme anterior). Para este, o esforço não significa nada. Ele prefere acreditar numa espécie de crença do talento espontâneo. Não é necessário esforço, basta apenas permitir que a natureza cumpra sua profecia e revele o quanto cada indivíduo merece de sucesso. Esse comportamento é estimulado pelo fato de Sullivan ser filho de uma das figuras mais ilustres do panteão de grandes heróis assustadores. As duas figuras, portanto, representam posições inversas de uma mesma forma de individualismo: o liberal, que enxerga o mundo como uma disputa pautada pela livre iniciativa e pelo esforço individual; e outra que podemos chamar de aristocrática, que aposta tudo nas potências que cada um carrega consigo mesmo. Ainda que apresentem diferenças, há uma semelhança comum, qual seja, a noção de indivíduo como uma entidade isolada e fragmentada que determina os rumos da existência por suas características individuais. Mesmo que busquem caminhos diferentes, ambos acabam encontrando problemas para seguir a dinâmica de disputas classificatórias do sistema universitário. Mais do que isso, após um desentendimento, os dois perdem a vaga no curso de sustos e são rebaixados para uma graduação menos importante. Nesse caso, a resolução da trama poderia abrir duas possibilidades igualmente desinteressantes: de um lado, prevaleceria o discurso do esforço e Mike superaria suas dificuldades, socorrendo Sullivan e se consagrando como um grande estudante; de outro, a redenção dos dois ocorreria por meio do talento, seja aquele que Sullivan já acreditava trazer consigo, ou ainda pela descoberta de um talento inato do próprio Mike, que surpreendentemente seria capaz de encontrar dotes que nem ele mesmo conhecia. E isto também os ajudaria a se consagrar no sistema universitário, tornando-se subjetividades destacados e individualizadas, quase como heróis. Esses caminhos mais comuns são típicos em narrativas de moral edificante, porém vemos nesse caso uma subversão dessa expectativa, ainda que sutilmente. A primeira razão: apesar de todas as ações positivas que os dois realizam juntos, ocorre que, no fim, os dois são expulsos do sistema universitário. A segunda: é que diante das ameaças que eles enfrentam, especialmente a parte em que ficam presos no mundo dos humanos, a lógica individualista acaba não resistindo. Na verdade, muito mais do que uma defesa das potências individuais, o filme realiza um deslizamento para uma espécie de elogio do encontro intenso. Não é a disciplina de Mike, nem o talento de Sullivan que bastam para que realizem qualquer coisa. É muito mais uma experiência de combinação e compartilhamento da ação, como um campo de forças, no qual as potências combinam e se intensificam, gestando assim uma relação de amizade entre os dois. E isso abre espaço para uma negação da pura individualidade de cada um, já que ambos precisam deixar para trás um pouco das antigas convicções e crenças que carregavam, tornando-se um ser-outro, uma singularidade que só pode se afirmar no estar-junto. A relação de Mike e Sullivan não é da ordem da afirmação de duas liberdades que interagem entre si, mantendo uma identidade estável e imutável, mas de dois seres que se combinam, transformando a própria interioridade (a forma de ser) nesse processo. É a partir dessa noção de transformação que surge um plano comum de ação. Esse deslocamento do problema moral que parecia presente desde o início do filme se combina com a negação mesma da experiência institucionalizada da universidade. O fato de intensificarem a experiência do mundo quando compartilham suas existências torna desnecessária a adaptação dos dois aos rígidos códigos disciplinares e competitivos do mundo escolarizado da universidade. E apesar disso, eles escapam do estigma normalizante do fracasso. Nesse sentido, se há um sentido moral no filme é justamente esse, a possibilidade de gestação de experiências mais intensas, isso que chamamos de amizade, possibilita a ultrapassagem dos limites impostos pela vivência institucionalizada e portanto muito menos intensa, das normas disciplinares. O que é bem mais bonito do que um elogio do indivíduo e suas potências internas.

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Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol formam uma das reflexões mais interessantes sobre o encontro amoroso no cinema contemporâneo. A terceira parte da série, o Antes da Meia-Noite, traz algumas questões novas, introduzindo um elemento ausente nos filmes anteriores, a tensão que a duração introduz na experiência amorosa, por isso enxergo uma unidade temática mais forte entre os dois primeiros filmes. Essa unidade se constitui a partir da exploração do encontro amoroso a partir de duas dimensões ambivalentes: de um lado a potência que essa experiência introduz na existência individual; de outro lado, na mesma medida em que esse acontecimento introduz tal potência, há também uma espécie de risco, como uma força capaz de negar ou desestabilizar essa mesma individualidade.

A exploração dessa ambivalência se dá a partir do grau zero do encontro: uma situação puramente aleatória, como um lance de dados, no qual dois indivíduos, até então desprovidos de qualquer vínculo ou afinidade prévia, tomam consciência da presença do outro. É a partir da descoberta dessa alteridade que tem início o processo singular de cativar-se. A profunda estranheza é substituída por um interesse recíproco, um desejo de conhecer aquele ser que se apresenta diante de si. É esse movimento de desestranhar-se que é o tema do primeiro filme, o Antes do Amanhecer.

Jesse e Celine são dois jovens que, por razões opostas, viajaram pela Europa e agora estão voltando para casa. No trem, uma espécie de não-lugar, ou melhor, de um lugar de transição, de deslocamento, que leva de um espaço para outro, portanto num momento de suspensão da vida ordinária, que os dois se encontram. Os dois conversam, trocam algumas impressões sobre a vida e sobre relacionamentos no pouco tempo que resta da viagem. Ainda assim, esse breve momento é o suficiente para despertar um vivo interesse recíproco e, quando chegam a Viena, Jesse convence Celina a acompanhá-lo na sua última noite na Europa, perambulando pela cidade enquanto aguardam a hora do embarque no avião que o levaria de volta para casa, nos EUA.

Por apenas uma noite, os dois experimentam algo como uma suspensão completa da realidade ordinária, na qual os vínculos anteriores deixam de importar, substituídos pelo simples gesto de estar na companhia de um outro. É quando se desenvolve o jogo, tão familiar a todos nós, de transformação desse outro genérico num ser mais próximo, que se aproxima e se revela, compartilhando pequenas histórias e gestos. Os dois perambulam pela cidade enquanto fazem uma sucessão de perguntas, confissões, troca de memórias, ideias e afetos. Esse momento do estar-junto não traz nenhuma pretensão à grandiloqüência, nem uma espécie de idealização romântica.  Vemos apenas um casal que desenvolve aquela conversa banal e tola que somente os enamorados sabem sustentar.

Quando o dia amanhece, reintroduzindo a normalidade na vida dos dois, existe algo que resiste, uma potência de outra ordem, propriamente excepcional. O casal de estranhos, recém-apresentados, já não deseja mais se separar. Ocorre uma transformação profunda no modo como cada um enxerga o outro, já não é simplesmente um outro, mas um outro-eu. Essa transformação é a manifestação mais própria da condição de enamoramento, que traz em si mesma uma força capaz de simular, mesmo que seja uma simulação que se manifeste apenas no olhar dos apaixonados, a superação da cisão que marca e separa a unidade do eu diante do outro.

O mais interessante é justamente que esse movimento é operado num plano puramente imanente. O encontro de Jesse e Celine não traz em si nenhuma espécie de aposta mística, nem qualquer tipo de crença numa espécie de alma gêmea. São apenas dois estranhos que, por puro acaso, tiveram a chance de estar diante um do outro. É na facticidade do mundo que o encontro pode acontecer. Existe apenas isso, o falatório apaixonado, sustentando o estar-junto do casal recém-formado. É desse movimento que nasce a possibilidade mesma do ato amoroso. É também daí que advém o desejo de perdurar, de reativar constantemente o encontro amoroso, suspendendo a rotina e prolongando as trocas e o compartilhar da existência,.

O momento de despedida, quando Celine deve continuar viagem para Paris e Jesse voltar para os EUA, é marcado por essa necessidade, a do (re)encontro, capaz de lançar numa duração a potência que se afirmou no momento do primeiro estar-junto. Nesse caso, encontramos bem delineado, a dupla dimensão de afirmação e risco do encontro amoroso. É afirmação na medida em que traz consigo um efeito que transforma a existência individual noutra coisa, numa existência que anseia pelo compartilhamento.

Porém, há também o risco dessa potência ser negada, do estar-junto se encontrar inviabilizado, do (re)encontro não ocorrer jamais, impossibilitado pela distância e pelo tempo. Nesse caso, mais do que uma positividade, o encontro amoroso se converte numa fonte de tristeza e ressentimento. A face desse risco só é devidamente evidenciada no segundo filme, o Antes do Pôr do Sol, quando depois de nove anos, Jesse e Celine se reencontram.

Os dois não são mais tão jovens quanto no primeiro encontro, a vida descompromissada cedeu lugar a responsabilidades e compromissos. Jesse acaba de publicar seu primeiro romance, que fez grande sucesso ficcionalizando as memórias daquela noite ao lado de Celine. Ela se tornou uma ativista do meio ambiente e se encontra engajada em diversas ações para reverter os danos ao meio ambiente e seus impactos sociais. O (re)encontro acontece por conta desses compromissos da vida adulta, já que Jesse viajou para Paris a trabalho, na divulgação de seu livro. E Celine aproveitou a oportunidade para vê-lo novamente.

Nessa segunda vez, o tempo é ainda mais curto. A vida parece deixar ainda menos espaço para os enamorados, não há tempo para escapar da norma e dos compromissos. Por isso, o breve momento que lhes resta, novamente, se torna ocasião para o perambular pela cidade. É muito interessante essa reiteração do caminhar e do apaixonar-se. É como se o gesto próprio aos apaixonados fosse o movimentar-se, tanto pelo espaço físico da cidade, quanto pelo espaço afetivo da subjetividade, não existindo paixão que perdure sem a intensidade dos deslocamentos constantes (não é gratuito que na terceira parte da trilogia, no Antes da Meia Noite, a crise se avizinhe justamente no momento em que o movimentar-se é substituído pela paralisia do quarto).

Dessa vez, a conversa não gira tanto em torno da possibilidade de descobrir um completo estranho, mas num movimento de (re)descobrir o familiar no estranho que se ausentara por tantos anos. E mais do que isso. O que anima o falatório do casal é um rememorar da paixão que nascera tanto tempo antes, refletindo também sobre como essa paixão marcou e afetou a vida de ambos. Jesse e Celine parecem viver governados pela memória daquele encontro noturno, daquela breve estar-junto. E a dimensão irrealizada do encontro permanece atormentando os dois. O fato daquele encontro não ter se convertido numa duração assombra e machuca.

Esse é o grande risco do encontro amoroso: na medida em que se transforma numa forma de assombração (o fantasma não deixa de ser a imagem de uma memória que não se cansa de retornar ao presente), toda aquela potência afirmativa é substituída por alguma forma de triste ressentimento, ameaçando a existência mesma dos apaixonados. Jesse e Celine não deixam de se lamentar sobre o quanto esse ressentimento contaminou a vida de ambos, inviabilizando a própria experiência amorosa. O casamento de Jesse e os relacionamentos de Celine não parecem nada mais do que pálidos espectros que tentam rememorar a potência do encontro ocorrido nove anos antes.

O (re)encontro aparece, assim, como uma chance renovada de realizar o irrealizado. Nesse caso, isso implica em abraçar inteiramente o risco da experiência amorosa, deixando para trás todos os compromissos e responsabilidades da vida prévia, apostando numa espécie de ultrapassagem da própria existência. É por isso que a sequência final do filme é tão poderosa. Jesse precisa retornar para sua vida, seu casamento, seus compromissos profissionais e, principalmente, para seu filho. E a única forma de retornar para essa vida é descartar definitivamente a potência e o risco do encontro amoroso, deixando Celine para trás. Porém, ele recusa tudo isso, perde seu vôo e abraça definitivamente o risco do encontro. O encontro pode, assim, afirmar inteiramente sua potência, se realizando na duração da existência a dois.

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