3ºEMA, 2009

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Não costumo publicar textos muito íntimos aqui no blog, mas dessa vez abrirei uma exceção. Sou um professor novo, com pouca experiência e uma carreira meio errática. Ainda lido sempre com aquela (boa) sensação de estranhamento e descoberta, o cotidiano escolar certamente não se transformou numa rotina conhecida. Ainda assim, já enfrentei situações complicadas e outras melhores. Este ano que passou, porém, foi absolutamente singular em relação a tudo que havia vivenciado. Ingressei numa escola pública de ensino médio, na qual lecionei aulas de História. E posso dizer, com toda segurança, que foi uma experiência muito alegre e feliz, cheia de resultados positivos e momentos que me marcaram. Esta situação contrasta muito com um discurso recorrente, muito enunciado por quase todos os envolvidos no universo escolar, especialmente na rede pública, que enxerga a escola e o trabalho docente de maneira catastrófica: é a desregulamentação, o desrespeito, a violência, o descaso, a falta de vontade de aprender, o despreparo dos alunos, a família desestruturada, etc. É de conhecimento geral esta percepção da coisa toda. E não há constatação mais categórica da calamidade que afeta a escola do que as patologias docentes: “o professor está adoecendo!”. É a famosa síndrome do burnout. O curioso desse discurso é que ele não assume um potencial transformador, aquele sentido da crítica como a base de uma ação sobre a realidade. Na prática, o que acontece é exatamente o contrário: a crítica se tornou a mais forte justificativa para o completo cinismo e descaso com qualquer responsabilidade dentro da escola. O raciocínio é de uma lógica curiosa: “se está tudo uma merda, é melhor deixar como está, ninguém se importa, eu não me importarei também…”. Dessa maneira, falar das mazelas educativas se tornou a melhor desculpa para a pura passividade, ou ainda uma boa justificativa para legitimar os absurdos discursos corporativistas de nossos incríveis sindicatos. O efeito mais nefasto é a força poderosa que esse discurso mobiliza, operando uma despotencialização de toda experiência escolar. É como se tudo aquilo que existe de potência, de energia, de vida, de novo, fosse continuamente anulado por um discurso vazio e sem vida. Assim, a experiência educativa, que se constitui fundamentalmente como um cuidado com o novo, se converte no seu contrário. Pra mim, está muito claro que nada mudará enquanto esse discurso catastrófico continuar atuando como a mais profunda verdade da educação. É por isso que enxergo uma força política muito grande na possibilidade de construir novas narrativas a respeito da sala de aula, despidas tanto desse sentimento de crise, quanto do seu irmão gêmeo, a crença no papel de transformação social da escola. Já escrevi sobre o que penso das grandes narrativas educacionais (construir cidadãos, educar as massas, criar indivíduos críticos, etc…), por isso não insistirei. Há um sentido muito transgressor em pensar a escola como um espaço de afetos e cuidados (pretendo voltar a isso no momento oportuno). Meu trabalho com os alunos nesse ano ajudou a reforçar essa visão, além de problematizar uma série de outras idéias. Mas, foi também uma experiência afetiva muito forte, totalmente diferente do que já havia vivido em outros momentos. Tentei expressar o significado dessa experiência no discurso que li no dia da formatura dos meus alunos, um momento de rara alegria pra mim. Todo esse preâmbulo serve apenas para explicar o sentido do discurso, que deixo agora no blog. Junto com o discurso, está a filmagem da ocasião. Nela aparece, em primeiro lugar, uma das minhas alunas lendo o discurso em minha homenagem, em seguida sou eu quem lê o discurso. Trata-se de uma pequena narrativa de uma comemoração íntima, mas é também uma pequena transgressão do cinismo reinante.

Discurso em homenagem aos alunos do 3ºEMA, 2009 (16/12/2009)

Escrever sempre é algo difícil, sempre um pouco doloroso, pois deixamos um pouco de nós naquilo que escrevemos. É meio como uma separação de nós mesmos. Mas, esse discurso foi especialmente penoso. Como escolher, entre tantos caminhos, entre tantas palavras, aquelas que deveria usar para prestar homenagem aos meus tão queridos alunos. Pensei, pensei muito. Porém, nada parecia adequado, tudo parecia menor, apenas pálidas imagens de tudo aquilo de bonito e especial que vivemos juntos nesse ano de trabalho. E o que houve de verdadeiramente especial nesse breve tempo que passamos juntos? Pra mim, mais do que tudo, foi a construção de um espaço verdadeiramente dedicado a educação, não no sentido banal da palavra, aquele que usamos quando nos referimos aos modos, as boas maneiras de alguém. Nada disso. Penso na palavra educação no seu sentido mais forte e importante: educação como um cuidado, cuidado de nós mesmos, cuidado com os outros, enfim cuidado do mundo. Uma relação cada vez mais rara, desacreditada e desvalorizada pelo cinismo de tantas pessoas. Mas, o que significa esse cuidado? Vocês sabem o quanto eu sou chegado numa digressão, por isso não poderei evitá-la aqui. Educação é uma palavra que tem sua origem no latim, e significa a “ação de criar, de nutrir”, “o ato de cultivar”, “de fazer crescer e se desenvolver”. O vocábulo aluno, também de origem latina, faz referência a mesma idéia. Aluno vem do termo alumnus, que significa “criança de peito, lactente”, ou seja, aquele que precisa de cuidados para crescer. Esta palavra vem de outra, o verbo alere, que significa “fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, fortalecer, etc.”. É desse ponto que se formou a grande metáfora de nossa educação: educação é o cuidado com o novo, é o ato de ajudar a crescer, desenvolver, aumentar, fortalecer a nossa potência com o novo, com a novidade. Por isso que educar é o cuidado mais precioso que nós podemos ter com nós mesmos e com os outros, é dar o único alimento que pode fortalecer a nossa potência: o conhecimento, que como dizem é “o mais potente dos afetos”. Aquele que educa é aquele que alimenta, que enxerga no conhecimento essa possibilidade de fortalecer nossa existência. Não há cuidado mais importante, nem mais bonito. Essa energia se esparrama, contagia, toma conta de todos, não apenas dos alunos, mas aquele que educa também é tomado pela potência desse afeto, desse sentimento. Lembro-me de tantas segundas-feiras, sempre o melhor dia da semana, o dia que encerrava meu trabalho com vocês, minha última aula, como era tomado por uma sensação de rara alegria, uma alegria que só nasce do saber, do saber que se criava em sala de aula, das palavras que trocávamos, das idéias que se formavam, da atenção que vocês me dispensavam, de seus olhares curiosos, do carinho que sempre sentia perto de todos. Sentirei muita falta, muita saudade, das minhas segundas. Uma saudade alegre, uma falta afetuosa, pois assim como a escrita, educar é deixar um pouco de si para trás, é também carregar um pouco dos outros consigo. Agora, carrego um pouco de cada um de vocês comigo, assim como sei que vocês também carregam um pouco de mim, um pouco do melhor de mim. Recordações afetuosas e poderosas, que mesmo na distância vão bastar para confortar a falta que sentirei de vocês. Desejo a vocês, meus queridos, muitas alegrias, todas que vocês merecem. E com isso me despeço carinhosamente.

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6 Comments to “3ºEMA, 2009”

  1. Anonymous disse:

    Ai que lindo!
    Tomara que as próximas turmas também te emocionem meu velho.
    Ah! Ainda falta o estágio de POEB. Então, me aguarde.

    Tripa

  2. Leandro disse:

    Opa Pablo,

    Tomara mesmo. Este ano foi fenômenal!!

    Bem, este ano a gente resolve o estágio de POEB também.

    Um abraço

    Leandro

  3. Anonymous disse:

    É curiosa a forma como nos relacionamos com os cenários educacionais. Em meu primeiro dia como professor da rede municipal de educação, recém egresso da universidade, fiquei em um estado de angústia que durou um longo período. Todos me questionavam se eram os estudantes, alguma violência escolar, ou uma comunidade que não valorizava a escola e a minha resposta era sempre negativa. Estava com medo dos professores. Não conseguia ver naquele ambiente uma forma de pensarmos o nosso mundo e promover esse cuidado com o novo descrito por Leandro. Em nenhum momento de minha breve carreira docente a exoneração se fez tão presente. Não demorou para que os conflitos iniciassem. Com os dedos em riste discuti de forma nada moderada com boa parte de meus pares. Todas as discussões iniciavam-se exatamente com esse “Carlos, o que vamos fazer? A educação é assim mesmo!”. Rapidamente percebi que a minha forma de atuação – com os professores, não com os estudantes – precisava ser repensada. Essa apatia fez com que eu reorganizasse a minha vida profissional. Foram tantos os encontros com as discussões que passei a não levar esses relatos para fora da escola, silenciei os meus relatos à minha noiva, não apresentava minhas idéia nos almoços em família, não registrava as minhas opiniões profissionais nos acaloradas diágolos com os amigos –todos pertencentes ao universo da comunicação.
    Algumas coisas só fazem sentido estando dentro da escola. Esse entendimento colocou-me na busca por profissionais que fossem exceção à regra apática e passiva da educação e posso dizer que encontro nesse grupo que se encontra na escola em que trabalho. Leandro é um deles.
    Carlos Eduado

  4. Anonymous disse:

    Olá,

    Eu fiz parte por um tempo muito pequeno desaa experiência toda relatada pelo meu amigo. Só posso dizer que concordo e muito com tudo escrito até aqui, sobre a situação da nossa educação. é uma pena ter que concordar que no momento não vemos no horizonte uma melhora nesse quandro se aproximando, mas professores como os que estavam reunidos com esse propósito de mudança surgirá cada vez mais, e confio que em um futuro não tão próximo possamos ver que hoje fizemos a diferença.

  5. Leandro disse:

    Eu também passei por isso quando ingressei na Prefeitura. Foi um momento muito difícil, os primeiros dias foram assustadores. O que mais me abalava era a sensação de solidão, de quem não encontra suporte nenhum, aquela sensação que ninguém quer mudar nada, deixar tudo como está. Fui percebendo, com o tempo, que há uma dimensão solitária no trabalho do professor, algo que é estruturante de seu trabalho. Essa solidão pode ser sufocante em alguns momentos. Felizmente, o que encontrei na nossa escola é um trabalho coletivo que, se não acaba com a nossa solidão, pelo menos nos ajuda a encontrar caminhos para enfrentar esta questão de uma maneira menos sufocante. Sem dúvida nenhuma, é sempre bom ter alguém como você como um interlocutor para discutir os problemas e tentar criar novas coisas. É bom saber que não estamos sozinhos quando nos preocupamos com o cuidado de nossos alunos. Um grande abraço. Leandro

  6. Leandro disse:

    André,

    Eu também tenho certeza que encontraremos muitos outros professores interessados em fazer as coisas da melhor maneira possível. Certamente. Tomara que você consiga voltar e trabalhar conosco mais uma vez. Um abraço. Leandro

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