Eric Rohmer não é um diretor conhecido pela temática política. Ainda assim, a questão é central em três de seus filmes: A inglesa e o Duque, O agente Triplo e A Árvore, o Prefeito e a Mediateca. E o que mais chama a atenção é a presença de uma interpretação coerente dos fenômenos políticos nas três obras. Para Rohmer, a política é o terreno de uma lógica pragmática despida de qualquer regra moral, no qual as ações flutuam de acordo com o sabor dos ventos e das necessidades do momento. Nesse sentido, a figura do político, ou melhor, do soberano é retratada de maneira bastante negativa: ele é aquele que está sempre disposto a cometer atos excepcionais, mesmo que isso implique em grandes violências ou na mais pura barbárie.

Essa interpretação aparece de maneira muito interessante em A Árvore, o primeiro dos três filmes.  Na trama, acompanhamos a história de uma pequena cidade no interior da França, na qual um prefeito (Julien Dechaumes) com grandes ambições políticas pretende construir um enorme centro cultural (a mediateca). O problema é que o projeto não atende aos interesses da comunidade local. Na realidade, a mediateca foi pensada como uma maneira de atrair visitantes de outras regiões, ampliando os interesses turísticos e urbanísticos da localidade, o que possibilitaria o abandono do seu caráter eminentemente rural (o filme é perpassado pelo debate entre modernização e tradicionalismo, entre uma França urbana e uma França rural). Além disso, Dechaumes pretende usar a obra como plataforma política para alçar vôos mais altos na política nacional da França. Apesar de não ser muito afeito ao jogo político parisiense, Julien sabe que sua grande obra é a melhor maneira de conquistar suficiente capital política para se projetar num plano superior ao da mera municipalidade. É com esse espírito pragmático que ele consegue financiamento do Ministério da Cultura para dar prosseguimento ao seu projeto.

No entanto, o centro cultural enfrenta bastante resistência da comunidade local. E o mais ativo questionador das políticas do prefeito é o professor e diretor da escola da cidade, Marc Rossignol. Para ele, a construção do projeto significaria a destruição do modo de vida tradicional da região, provocando a verdadeira ruína do espírito verde que marca a paisagem da cidade. E nada o entristece mais do que a derrubada da antiga árvore que existe no meio do terreno que deveria dar lugar ao centro cultural. Assim, o prefeito e o professor marcam posições opostas na estrutura do filme: de um lado está o político pragmático, defensor do discurso modernizador e progressista; do outro, o defensor da comunidade e de seus valores e hábitos tradicionais. O primeiro está apenas preocupado com o sucesso de sua carreira, enquanto o segundo defende o interesse comum da região.

Esse olhar desconfiado para a política é muito parecido com aquilo que aparecerá nos filmes posteriores de Rohmer, nos quais nota-se com ainda mais força essa cisão entre a lógica soberana e os interesses da comunidade. Só que, ao contrário do que vemos nos seus últimos filmes, aqui ainda há uma visão otimista, que enxerga uma possibilidade de subversão dessa lógica pragmática. Um elemento muito importante do universo rohmeriano é a força do acaso, a possibilidade de um acontecimento transfigurar toda a estrutura do presente e abrir caminho para um devir inesperado e positivo. E é a partir desse elemento que surge essa possibilidade de superação da ameaça imposta pela política.

Um dos atributos mais importantes do soberano é sua capacidade para dobrar o imprevisto e reduzir a potência subversiva do acontecimento ao mero hábito reiterado. É nessa operação que ele encontra meios para reduzir a multiplicidade dos devires à unidade do governo. Toda teorização da soberania aposta nessa necessidade de ordem e criação de um corpo político unitário e previsível. Pode-se dizer, portanto, que o acaso é representado como uma potência caótica e anárquica, capaz de dissolver a própria comunidade política. O que acontece no filme de Rohmer é justamente o inverso. A instauração de um acontecimento aparece como a principal arma de resistência da comunidade diante da ameaça introduzida pela política.

Os planos do prefeito acabam se enroscando numa sucessão de imprevistos, ações singulares dos mais diversos agentes sociais envolvidos com a pequena cidade. Estas ações não funcionam segundo uma racionalidade pragmática, nem coordenada numa direção unitária, mas são simples manifestações dos interesses comunitários. É a fala do professor contra a destruição da árvore, é a jornalista que decide escutar os velhos moradores da região, ou a criança que tenta convencer o prefeito do erro que acompanha seu projeto. No final, essa multiplicidade de vozes acaba combinada de maneira a constituir um verdadeiro impedimento à realização da mediateca.

E é nessa combinação de elementos imprevistos que a comunidade consegue proteger a si própria. Para traçar uma definição muito simples, creio que a melhor maneira de pensar o sentido do acontecimento é a partir dessa ação comum, que não pretende constituir uma nova unidade, nem anular as particularidades que a constituem (é por isso que o professor não pretende se transformar no prefeito da cidade, ele não pretende ocupar a posição do soberano, mas manter-se ao lado da comunidade).

Com isso, percebe-se uma inversão na lógica mesma da soberania: enquanto as palavras do prefeito são sempre acompanhadas pelo discurso do progresso, da racionalidade técnica e de um futuro fechado e direcionado; as palavras da comunidade se abrem para um devir imprevisto e festivo. A força dessa articulação acaba anulando a presença do soberano. Ao final, o próprio prefeito se recoloca ao lado da comunidade e, numa bela cena, todos celebram lado a lado a continuidade de um modo comum de existência.

O que perpassa a reflexão de Rohmer é uma desconfiança da política, mas não de toda política. Na realidade, existe um forte apelo democrático percorrendo a trama inteira. A decisão inicial do prefeito, tomada sem nenhuma discussão ou consulta aos interesses da população local e preocupada apenas com o jogo político mais amplo, é a expressão perfeita da excepcionalidade que sempre acompanha os atos político. Porém, a ação da comunidade significa o desenlace entre política e exceção, afinal a dimensão constituinte da política é recolocada no conjunto da própria multidão. É nesse processo que pode se descortinar uma possibilidade concreta para o exercício de uma política democrática. Porém, para quem acompanhou as obras posteriores de Rohmer, fica claro que essa visão otimista foi substituída por outra, muito mais desiludida, na qual parece que a possibilidade mesma de democracia fica cada vez mais remota.

 

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2 Comments to “A Árvore, o Prefeito e a Mediateca de Eric Rohmer”

  1. Bruno Carmelo disse:

    Oi, Leandro,

    belo texto. Gosto de como você articula a a noção de política no filme com as imagens.

    Abraço.

    • Leandro disse:

      Ah, Bruno, muito obrigado. Fico feliz que tenha gostado. Os filmes “políticos” do Rohmer são sensacionais, como tudo o resto que ele fez. Um grande diretor.

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