Há muitas interpretações e leituras a respeito de A Fita Branca. Uma associação bastante comum estabelece um vínculo entre a formação do regime fascista na Alemanha e a trama do filme. Essa leitura, inclusive, é reforçada por uma fala introdutória do narrador do filme, o antigo professor do vilarejo que é sacudido por uma sucessão de atos estranhos e violentos. Porém, o próprio diretor se afasta desse caminho, pois isso implica numa visão muito limitada e restrita da temática da obra. Segundo Haneke, sua obra é muito mais um estudo – a partir de um exemplo particular, mas extensível a contextos muito diversos – das “raízes do mal” na contemporaneidade [1]. Esta chave interpretativa é certamente muito mais interessante do que buscar apenas uma explicação para a ascensão histórica do nazismo alemão. Como já escrevi antes, o que está em jogo é uma representação do mal fundada no hábito, na repetição, no imobilismo. Há uma espécie de círculo de violências, humilhações, pequenas e grandes maldades, que acompanha todos os personagens. Quase não há espaço de evasão, de escapatória desse autoritarismo difuso e constante: pais sobre os filhos, os maridos sobre as mulheres, o barão sobre seus subordinados, etc. A estrutura de ação de todos está sempre baseada numa tentativa de anulação e violação dos demais, o que resulta num eficiente dispositivo de disciplina social. Não há espaço legítimo para um ato desviante, tudo converge na direção de uma dura normalização da ação coletiva e individual. Essa disciplinarização, porém, não se realiza a partir de elementos excepcionais, não existe um regime de exceção. De maneira muito esquemática, diria que não há um “poder” imposto de fora. Toda teia autoritária se tece a partir da própria comunidade. É nisso que reside o aspecto mais assustador do filme: o círculo de violências perdura na medida em que ele é criado e sustentado por todos aqueles que nele estão presos. Se o mal é a impossibilidade de fundar um espaço de ação que pode ser entendido como um espaço ético, o que vemos no filme é a completa conversão daquele povoado em direção ao mal, quase não há abertura [2]. Com esse cenário traçado, o espectador começa a compreender a origem daqueles que motivam a narrativa do professor. Não são nada além do desdobramento mais visível da violência que perpassa todas as demais relações sociais. Na lógica lá reinante tais atos podem ser vistos tão somente como outro dispositivo de normatização, uma punição contra aqueles que apresentaram condutas desviantes, e portanto devem ser novamente enquadrados na rígida disciplina que cabe a todos seguirem. Tanto é que quando surge a possibilidade concreta de desmascarar os responsáveis pelas ações criminosas há um recuo: acusá-los significava lançar uma acusação coletiva. Nesse sentido, o universo criado no filme de Haneke traz com força a idéia de banalização do mal, pois toda aquela violência é despida de seu caráter excepcional e externo, ganhando um sentido corriqueiro, cotidiano e constante. Se o filme não se limita a explicar o surgimento do fascismo no começo do século, ele ajuda a compreender a idéia de um fascismo cotidiano, entendido como um amor ao poder, um desejo de violência e anulação do outro, mas também de si próprio. Como fala Michel Foucault, há um “fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”. É nisso que reside a grande atualidade do filme, em dar visibilidade a esse desejo, essa possibilidade constante de conversão em direção ao mal, ao livre exercício de um autoritarismo banalizado, que permeia as relações cotidianas. Por isso, discordo parcialmente da interpretação que o próprio Haneke deu na referida entrevista. Segundo ele, o filme é uma crítica tanto do autoritarismo de direita quanto de esquerda, mas também do religioso, na medida em que demonstra o uso de uma “ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino”. O problema disso é que esse mal sempre aparece como algo externo: são os fascistas, são os comunistas, são os fundamentalistas, sempre são os outros que nos convencem e nos transformam em monstros e assassinos. Não é isso que vejo na narrativa do filme. Muito mais do que uma entidade externa que cria um regime autoritário, que insere o mal na ordem do mundo, o que vemos é um mal fundado na pura imanência do corpo social. Não há subversão da ordem, mas é a própria ordem que funciona naquele sentido. Se o problema fosse da imposição externa do mal, não haveria tanta inquietude no filme. O que perturba é a proximidade que guardamos daquilo, da sua banalidade tão próxima de nós.

 

 

[1] Trecho da entrevista disponível em http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/10/24/as-raizes-do-mal-haneke-explica-%E2%80%9Ca-fita-branca%E2%80%9D/

[2] Nesse sentido, existe uma cena muito forte, que acena para uma pequena possibilidade de redenção: o filho mais novo do pastor entrega a seu pai um passarinho para substituir o anterior, que fora morto. Mesmo esse ato gracioso, desprendido daquela lógica de negatividade, é incapaz de ser retribuído no mesmo sentido: o pai simplesmente aceita o presente e se cala.

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One Comment to “A Fita Branca de Michael Haneke: representações do mal contemporâneo II”

  1. Sara Graciano disse:

    Ainda não vi esse, gosto muito do Haneke. Verei. Bjs

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