A Inglesa e o Duque de Eric Rohmer

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A Revolução Francesa é um dos temas centrais da historiografia ocidental. Há uma infinidade de obras, livros, peças e filmes que trataram do evento, a partir das mais diversas perspectivas. Aqui no blog, por exemplo, já escrevi textos sobre três filmes que elaboraram diferentes representações da revolução: Maria Antonieta de Sofia CoppolaA Marselhesa de Jean RenoirCasanova e a Revolução de Ettore Scola. As três obras lançam olhares para aspectos particulares do acontecimento, adotando posições e interpretações divergentes sobre seus desdobramentos e seus efeitos. A leitura cruzada dessas obras revela o óbvio: que não há narrativa historiográfica imparcial, todo discurso sobre o passado exige um posicionamento, um engajamento diante de uma determinada perspectiva. Essa obviedade, geralmente, é mais facilmente percebida pelo artista do que pelo historiador de profissão, afinal este último tende a acreditar que consegue atingir uma espécie de objetividade no seu fazer histórico. Essa questão, essencial para o bom dimensionamento do ofício do historiador, é muito bem desenhada por Eric Rohmer em A Inglesa e o Duque. O filme é uma adaptação dos diários de Grace Elliot, uma aristocrata escocesa que viveu na França durante o início da revolução. Elliot era muito bem relacionada na sociedade de corte francesa, tendo estabelecido relações amorosas e de confiança com o Duque de Orléans, primo de Luís XVI. Imersa num mundo aristocrático, Elliot enxergava os desdobramentos revolucionários de uma forma extremamente negativa, como a destruição do mundo polido, virtuoso e civilizado que ela conhecia e admirava. O filme de Rohmer opera a partir de uma adesão incondicional a este imaginário, reconstituindo os fatos segundo o olhar aristocrático de Elliot. Por isso, a revolução que vemos ao longo do filme não tem nenhum sentido libertário ou democrático, mas é atravessada por uma sucessão de atos bárbaros, destrutivos e violentos. Os revolucionários são retratados, na maioria das vezes, como homens rudes ou ignorantes, além de ambiciosos e interesseiros. O próprio Duque de Orléans vai decaindo progressivamente com o avanço da Revolução. É como se o movimento capturasse a todos na sua imundice e selvageria. Nada simboliza com mais vigor a força desse horror do que a cena do festejo popular diante do cortejo da cabeça decepada de uma das favoritas de Maria Antonieta, ou então as cenas das ruas parisienses repletas de mortos e destruição. Porém, esta adesão não significa um escamoteamento de sua parcialidade. A narrativa da película não tenta criar um sentimento de totalização, como se aquela visão fosse uma revelação do verdadeiro sentido da experiência revolucionária. A genialidade do filme é justamente não tentar esconder o caráter engajado da narrativa. Isto funciona a partir de dois dispositivos. De um lado, o filme é pontuado por quebras, elipses, saltos temporais, interpolados por trechos dos diários de Grace Elliot. Esta opção lembra constantemente ao espectador que aquilo que passa diante dos seus olhos é fruto de uma experiência pessoal, de uma narrativa íntima (a forma mais íntima de narrativa, o diário pessoal) de alguém que sofreu diretamente os efeitos da Revolução. Do outro lado, o filme utiliza uma técnica muito particular para reconstituir a Paris do período. Ao invés de tentar uma recomposição naturalista (como quase sempre acontece em filmes históricos), através de cenários extremamente elaborados, o filme utiliza uma técnica muito curiosa: constrói seus cenários a partir da digitalização de quadros e pinturas da época. Estes recursos desfazem aquele efeito de realidade que visa reforçar a verossimilhança e a objetividade dos filmes histórico. O cenário se converte em algo levemente irreal, lembrando que no fim das contas, aquilo não passa de uma (re)criação, uma invenção criativa e engajada. Esta postura dota o filme de uma forte critica da vontade de dominar o passado a partir de um olhar externo e transcendente, como se fosse possível recuperar através de imagens e narrativas a verdade objetiva dos processos históricos. A leitura da Revolução como degradação é apenas uma das possibilidades, encampadas por Grace Elliot e muitos outros aristocratas, porém esta não carrega consigo a chave de interpretação e compreensão da essência do acontecimento. Nesse sentido, pode-se dizer que o filme de Rohmer restitui plenamente a potência do acontecimento, na medida em que este aparece como algo que não pode ser dominado, mas apenas interpretado e reinterpretado. É por isso que é tão importante que ocorra a desarticulação desses efeitos de realidade que organizam e determinam nossas possibilidades de invenção do passado. Longe de um compromisso com a objetividade, a narrativa historiográfica é sempre uma invenção estética, um compromisso com a interpretação do passado. Se não fosse um filme especialmente belo e interessante, valeria a penas ver A Inglesa e o Duque pelo menos por causa desse alerta metodológico a respeito das nossas possibilidades de pensar o passado e suas narrativas.

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