A maçã envenenada de Michel Laub

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A Maça Envenenada

A maçã envenenada é um relato constituído segundo um fio trágico que aproxima e embaralha três tempos distintos: o tempo da memória, o tempo do presente e o tempo da história. Essa experiência é vivenciada pelo narrador do livro, um jornalista de 40 anos, a partir das lembranças de seu namoro da adolescência com Valéria, iniciado em 1993, onze meses antes do show do Nirvana em São Paulo.

O rememoramento desse passado é uma espécie de esforço investigativo utilizado pelo narrador para compreender como os acontecimentos ocorridos ao lado de Valéria, desde seu início até o fim do trágico relacionamento, provocado pelo suicídio da moça, após o show do Nirvana, afetam sua vida presente. Por isso, essas recordações são marcadas por uma “fatalidade retrospectiva”, como se todas as lembranças estivessem unificadas a partir dessa tragédia, da recusa em continuar vivendo de Valéria.

Há, nesse caso, uma associação entre suicídio e contaminação, como se o gesto trágico pudesse reverberar para além da individualidade de Valéria, desestabilizando a existência do próprio narrador. Nesse caso, seu esforço de rememoração não tenta explicar o “passado dela”, mas é sobre “o futuro do lado que sobreviveu”, de si próprio. Um futuro indefinido, preso num tempo outro, numa vida falseada (o relacionamento com Valéria “contaminou todas as conversas e brigas e reatamentos e separações que fui ter ao longo de duas décadas”). A faculdade de direito, a cidade em que morava, o emprego, o círculo de amizades, os gostos musicais, toda uma vida subvertida pelo suicídio.

Pode-se dizer que essa contaminação do presente pelo passado é o resultado de uma potência negativa, a potência da catástrofe que não cansa de assombrar o narrador. É na tentativa de compreender essa potência, e em alguma medida tentar se livrar dela, que o narrador recorre ao tempo da história. Este parece funcionar como um repositório de exemplos, a história como mestra da vida, no qual o narrador busca se orientar e preencher de sentido justamente aquilo que se mostra inexplicável na sua própria memória. É por isso que o relato mobiliza impressões sobre dois percursos antinômicos, os de Kurt Cobain e de Immaculée Ilibagiza. Na perspectiva do narrador, há nesses exemplos duas formas distintas de reação diante da catástrofe. De um lado, o suicídio de Cobain, uma entrega irrestrita diante da potência negativa da catástrofe; de outro a resiliência de Ilibagiza, que apesar da barbárie que vivenciou durante o genocídio em Ruanda, nunca desistiu da própria vida.

O problema é que, por mais que o narrador busque no movimento da história um exemplo capaz de explicar sua própria experiência individual, permanece sempre uma zona obscura sobre a qual nada pode ser dito ou explicado, exatamente a zona onde está situado o gesto definitivo de Valéria. No fundo, o tempo da história aparece inteiramente mesclando e esfacelado pela narrativa individual, revelando-se incapaz de desatar o fio da catástrofe: a decisão de continuar (ou não) vivendo, de se distanciar (ou se aproximar) da negatividade de Valéria.

Essa impossibilidade de compreender ou ultrapassar a catástrofe provoca uma constante tensão na vida do narrador. Tensão que atinge seu paroxismo no acidente do narrador. É no limiar entre vida e morte que o narrador assume inteiramente a impossibilidade de se desvencilhar definitivamente da catástrofe. Não há como explicar o gesto de Valéria, nem o de Cobain ou de Ilibagiza. Diante da impossibilidade de explicação (e, portanto, de controle), o narrador pode apenas se conformar com o movimento de rememoramento. A catástrofe se torna, assim, esse elemento obscuro que subsiste no interior de sua experiência individual, que se manifesta apenas enquanto memória e relato, jamais como explicação. E, em grande medida, o gesto de narrar, essa memória do negativo, é o que possibilita a continuidade da vida, ainda que com “uma marca que nunca será removida”, a marca dessa catástrofe originária.

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