A Marselhesa de Jean Renoir

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É quase um truísmo quando falamos que “toda história é história do presente”, apesar de alguns ainda acreditarem que existe possibilidade de uma narrativa objetiva do passado. Bem, para além da “antiga seita” dos neopositivistas, todos sabem que a maneira de contar e recontar um episódio do passado fala muito sobre as motivações e ações do presente. A escolha de uma determinada perspectiva, a eleição de alguns episódios em detrimento de outros, a construção da cadeia causalidade, a ordenação lógica das idéias, a utilização de determinados efeitos narrativos, tudo isso afeta a visão de conjunto que imprimimos em nossa leitura do passado. Não existe nada mais revelador dessa “invenção” do passado do que as múltiplas narrativas da Revolução Francesa. Os estudos historiográficos, a literatura, o cinema, o discurso político, até o imaginário social do senso comum, cada um cria sua própria revolução, lhe atribuindo um sentido particular. A revolução já foi vista como precursora dos movimentos sociais da esquerda mundial, como um grande movimento de conquistas libertárias, como aquela que abriu caminho para o mundo liberal, ou até mesmo como o prenúncio das barbáries totalitárias. É sempre necessário, portanto, ter em mente essa natureza cambiante do discurso historiográfico quando acompanhamos estas narrativas. O filme de Jean Renoir, A marselhesa, produzido entre 1937 e 1938, é um belo exemplo disso. A película de Renoir conta os movimentos de um grupo de revolucionários de Marselha que se deslocam até Paris para organizar o esforço de guerra contra as forças monarquistas, apoiadas pelas tropas prussianas, que pretendiam derrotar a revolução e restaurar a ordem que fora abalada. A história acompanha um breve intervalo de tempo, iniciando com a tomada de Bastilha em 1789, indo até a deposição de Luís XVI e a marcha do exército revolucionário para a defesa das fronteiras, em 1793. Nesse intervalo, surge um grande número de personagens menores da revolução, não há espaço para Robespierre ou Marat, o próprio rei Luís XVI aparece pouco. Trata-se, portanto, de uma narrativa centrada nas pequenas ações, da organização dos agrupamentos revolucionários, suas assembléias permeadas por um espírito democrático e pacifista, o espírito patriótico, simbolizado pela construção do próprio hino da revolução, que ainda não recebera o nome de Marselhesa, é acima de tudo o esforço coletivo da nação, do povo em pé de igualdade, que busca a construção de um futuro mais justo. O filme, apesar de estar situado no momento mais conturbado da Revolução, quando faltava qualquer clareza dos seus desdobramentos e os conflitos eram disseminados, constrói uma imagem de ordem e tranqüilidade popular, os movimentos dos revolucionários buscam, acima de tudo, transformar a sociedade pela ação política coletiva. O enfrentamento armado não é a primeira opção revolucionária, mas apenas um último recurso, uma resposta à agressão do inimigo. Assim, quase não há cenas de batalha, na realidade, há apenas uma batalha, quase ao final do filme, quando as tropas monarquistas abrem fogo contra os revolucionários que tentavam negociar a rendição das tropas reais. A Revolução de Renoir é pacifista e democrática. Não é de se estranhar quando lembramos o trauma sofrido pela França no pós-guerra (a Primeira Guerra), quando toda uma geração foi dizimada nas trincheiras de combate. Ademais, o filme foi inicialmente financiado pela Frente Popular, governo francês de esquerda que teve uma vida bastante curta, nos anos imediatamente anteriores ao início da Segunda Guerra. Esse trauma estimulou uma política ativamente pacifista do governo francês, o líder da Frente Popular (Leo Blum) era um ativo defensor da paz, frente aos avanços da Alemanha Nazista. O filme, portanto, está imbuído desse espírito e marca isso claramente nas suas opções narrativas. O povo organizado nunca pode orientar suas ações para a violência, a dignidade da vida é igual em todos, a violência só pode ser uma resposta e nunca uma política ativa. Porém, o levante popular será inevitável, a defesa da pátria assim exige quando os inimigos tentarem tomar a liberdade do povo francês. Essa é a grande mensagem do filme. Não é gratuito, portanto, que o filme encerre com a marcha dos franceses contra os exércitos prussianos, batalha na qual a França saiu vitoriosa, e com uma frase de Goethe, algo como “depois dessa batalha o mundo nunca mais será o mesmo”. A liberdade e a igualdade, na ótica de Renoir, só podem ser alcançadas com esse espírito democrático e pacifista. A Marselha é muito mais um hino pacifista do que uma história da Revolução, fala muito mais dos dilemas da França às vésperas da Segunda Guerra do que da França revolucionária. Mas isso nem de longe é um problema. Afinal, quem realmente acha que uma história objetiva, fiel ao passado, cientificamente construída, serve para alguma coisa? Pra que serve uma história que fala do passado? Para nada…
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