A noite dos palhaços mudos

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A peça “A noite dos palhaços mudos”, uma adaptação do quadrinho homônimo de Laerte (disponível em http://www2.uol.com.br/laerte/personagens/palhacos/parte1.html), conta a história de dois palhaços mudos perseguidos por uma misteriosa corporação que pretende exterminá-los. O problema é que eles precisam invadir o centro da corporação para tentar recuperar o nariz que fora tomado de um deles. No caminho, como é obvio, eles se metem em muitas encrencas e atrapalhadas. A peça tem uma construção muito inteligente e simples: com apenas três atores (os dois palhaços e um individuo que representa todos os membros da corporação maligna) e um cenário sem adornos excessivos, todos conseguem trabalhar os elementos a disposição com muita graça, recheado de gags corporais criativas e divertidas, sem excessos ou exageros. O forte da peça é, justamente, o trabalho corporal dos atores, que lembra muito os filmes de Chaplin. Como os palhaços são mudos, o sucesso das situações cômicas depende quase totalmente desse trabalho, da expressividade dos seus gestos e movimentos. A ação dos palhaços acaba criando um espaço cênico no qual o privilégio da voz como a matriz da discursividade é abandonado, no seu lugar nasce um “texto” diverso, organizado segundo outro registro. Porém, há um personagem que desfaz essa inversão: o agente da corporação. Contrastando com a mudez dos palhaços, o maligno personagem tem pleno controle da sua voz, ele domina a linguagem fônica e com ela organiza toda a perseguição dos personagens. Ele fala, grita, comanda e controla. Pode-se dizer que a ordem do seu mundo é garantida pelo exercício da fala, por isso a expressividade silenciosa dos palhaços aparece como uma grande ameaça ao seu poder de falante. Nas palavras do personagem: “por anos e anos uma praga infiltrou-se neste país! Os palhaços mudos!! Estes seres ignóbeis com sua obstinada e teimosa mudez ameaçam as bases da nossa sociedade, nossa religião e nossas famílias”. O contraste entre os dois registros lingüísticos é visto como o supremo desorganizador da própria sociedade, o que motiva a perseguição e estabelece a tensão da peça. Esta situação me lembrou muito aquilo que o filósofo francês Jacques Derrida fala sobre o primado fônico da razão ocidental. Segundo ele, nosso pensamento sempre foi, antes de tudo, marcado pelo primado fonocentrico, por uma metafísica da fala e da presença: a “voz como domínio técnico do ser-objeto e a unidade da technè e da phonè” [1]. Este domínio garante o exercício de uma vontade de verdade, de estabelecimento de um sentido do ser fixo e seguro, o que enclausura as possibilidades da diferença. Como lembra Ana Maria Continentino, “o privilégio dado à voz, ao logos como índice da presença a si do sentido, impõe e organiza esta tradição em torno da idéia de verdade. O desejo de verdade comanda o ocidente, desejo da palavra plena, que só se manifesta através do discurso falado, quando o sentido e a voz, o pensamento e a voz, se dão numa relação supostamente sem resto. Desejo de uma tranqüilidade sonhada na transparência do sentido”. A ação dos palhaços, porém, não visa instaurar uma nova vontade de verdade, diferente daquela exercida pelos seus perseguidores, mas ainda assim obcecada com um centro fixo capaz de estabelecer um sentido estável ao ser. O que eles realizam, na verdade, é exatamente o contrário. O absurdo dos seus jogos corporais potencializa “a possibilidade louca da linguagem, como a possibilidade de perdição sem volta, como promessa que ela é, em permanente renovação” [2]. A razão da corporação acaba se tornando caduca quando se aproxima da lógica nonsense dos palhaços. A perseguição final é perfeita nessa representação: há todo um jogo maluco e irreal que embaralha e desorienta as possibilidades da voz como ordenação da verdade. As ações dos palhaços mudos, por isso tudo, parecem-me que tornam possível, na absoluta contramão da voz da verdade, a “afirmação gozosa do jogo do mundo e da inocência do devir, a afirmação de um mundo de signos sem falta, sem verdade, sem origem, que se oferece a uma interpretação ativa” [3]

Notas

[1] Jacques Derrida, A voz e o fenômeno.

[2] Ana Maria Amado Continentino, A Alteridade no pensamento de Jacques Derrida: Escritura , Meio-Luto, Aporia.

[3] Jacques Derrida, La structure, le signe et le jeu dans le discours des sciences humaines.

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One Comment to “A noite dos palhaços mudos”

  1. rapsodo disse:

    A noite dos palhaços mascarados mostra bem a condição imagética de uma escrita silenciosa que ameaça a primazia de uma voz plena de presença. Os palhaços que rumam a um centro, se deparam com a própria conspiração que os perseguem e disfarçados misturam-se por entre outros e promovem a confusão. A primazia da voz se ve ameaçada pela escrita silenciosa que apesar de seu aspecto um tanto que pejorativo, tendo em vista, a situação de palhaços fora de seu palco ou ainda quem sabe, um palco que se estende para além de sua suposta extensão, ou seja, a escrita usurpando a primazia da voz, questionado sua presença plena e misturando-se a ela,que por sua vez, situação tal, que promoveu muitas noites de insônia a Saussure e muitos outros adeptos do estudo da linguistica. Muito pertinente a analogia.

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