A onda (Die Welle, 2008)

1

A onda, do diretor alemão Dennis Gansel, é um filme de tese. Uma tese simples, clara e até meio óbvia. O problema é que tão compenetrado em acertar seu alvo, o filme acaba seguindo um caminho inesperado, até mesmo no sentido oposto de sua premissa central. O tema do filme: é possível repetir a experiência do totalitarismo? Para responder ao problema lançado, a obra recupera um fato real, coisa que é muito claramente anunciada ao início do filme, ocorrido nos EUA na década de 1960. Um professor decide realizar um experimento com seus alunos para demonstrar a lógica de funcionamento de uma sociedade fascista, criando uma dura e rígida disciplina, cheia de códigos uniformes, dentro da sala de aula. O problema é que o experimento escapa do controle do professor, extravasando inclusive o ambiente escolar, e acaba resultando num acidente trágico com um dos alunos.

A situação real foi transposta, no filme, para a Alemanha contemporânea. O professor Rainer Wenger, um tipo muito liberal e popular entre os estudantes, é obrigado a assumir um projeto didático sobre governos autocráticos. Logo de início, todavia, os alunos se mostram insatisfeitos com o tema do curso, pois eles acreditam que o assunto já é absolutamente ultrapassado, afinal não há mais espaço para uma autocracia na Alemanha democrática do presente. Para Wenger, porém, tal percepção é muito oportuna, se revelando uma ótima oportunidade para demonstrar a fragilidade dos valores democráticos e individualistas em qualquer sociedade.

Sua idéia é simular, dentro da sala de aula, a criação de uma sociedade totalitária, apelando para uma rígida disciplina, com o objetivo de anular individualidades de todos os envolvidos. Durante uma semana, ele aplica uma série de procedimentos com este intuito. Começa estabelecendo uma ordem dentro da sala de aula: ninguém mais pode chamá-lo pelo seu nome, mas apenas de Senhor Wenger; ninguém pode falar sem pedir autorização e sem se levantar; até mesmo os movimentos corporais mais elementares são organizados segundo essa rígida disciplina. Em seguida, é necessário estabelecer uma reorganização do ambiente escolar: os alunos são alinhados de uma maneira prévia e determinada; todos devem vestir um uniforme padrão e desprovido de qualquer adorno; o trabalho deve ser realizado por todos com empenho e determinação. A idéia dessas regras é estabelecer uma harmonia e eficiência dentro da comunidade, inspirando o trabalho coletivo e a força da unidade. A disciplina opera sobre todos, o que torna possível a completa subjugação da vontade individual em favor da lógica uniformizada do coletivo.

Na argumentação do filme, é a partir dessa possibilidade que se torna possível compreender a formação de um regime totalitário. Desse ponto em diante, Wenger é caracterizado como uma espécie de aprendiz de feiticeiro, incapaz de controlar as forças que ele próprio liberou. O feitiço acaba se virando contra todos e, no final, provoca uma grande catástrofe. A tese do filme, portanto, consiste em afirmar que “o autoritarismo começa com a anulação, muitas vezes voluntária, do indivíduo” [1]. A banalidade desta afirmação, porém, oculta muito mais do que revela. Insistir nesse entendimento precário a respeito da formação dos regimes totalitários apenas ajuda a naturalizar uma série de coisas a respeito de nossas subjetividades e da experiência política do século XX. Muito mais interessante é pensar com o comentário de Vladimir Safatle a respeito do filme. Ele lembra que, bem ao contrário do que o filme tenta demonstrar, a individualidade não se realiza num contexto desprovido de constrangimentos autoritários, mas ela é gestada “através da internalização de profundos processos disciplinares e repressivos” [2].

É deste ponto que gostaria de partir. Na tentativa de demonstrar enfaticamente sua tese, o filme acaba acenando para outra questão, muito mais interessante, qual seja, o papel da escola moderna na formação de pequenos regimes autoritários, pequenos fascismos. Ora, não é difícil traçar uma analogia entre a força da onda e o ideário padrão de uma escola eficiente. A disciplina está alojada lá no centro desse ideário, cheio de regras de comportamento, disposição do tempo e dos gestos, respeito e educação, organização no trabalho, tudo gira em torno de um espírito de domesticação das forças dos jovens estudantes.

A energia caótica dos pequenos monstrinhos é organizada até transformá-los em estudantes autônomos, livres e críticos no final do percurso escolar. No caminho vai se criando uma série de registros, notas, informações, dados, que vão se combinando na formação de algo que podemos chamar de individualidade. Para tanto, certas regras são fundamentais, as punições, a imposição de uniformes idênticos, as normas, o que permite a criação de um espírito homogêneo no corpo discente, com a incorporação das disposições disciplinares da instituição.

É claro que nem todos se adaptam. Há sempre aqueles que resistem ao uniforme ou se rebela contra elas. A linha entre o normal e o patológica é impiedosa, quem não se adapta é segregado. Porém, é necessário racionalizar essa exclusão, o funcionamento da instituição escolar demanda um alargamento extensivo, o alcance de todos. A falha é, assim, uma conseqüência de problemas identificáveis: a família anômica, a incapacidade biológica, o desequilíbrio social, o que demanda a criação de um aparato paralelo de disciplinarização.

Por isso, esta escola ideal ocupa um papel central no projeto da modernidade, é a base de nossas sagradas liberdades individuais e democráticas. Tanto é que não se trata mais de um privilégio, mais de um dever da sociedade garantir a inclusão de todos os pequenos na instituição escolar. O professor não deixa de ser também um aprendiz de feiticeiro, que vai brincando com seus feitiços para moldar o corpo infante, na expectativa de metamorfoseá-lo em um exuberante sujeito. O problema é que freqüentemente tudo escapa do seu controle.

De qualquer maneira, acredito que a analogia já está devidamente traçada. É curioso como o filme não investe numa das características mais importantes para o funcionamento de um regime totalitário: a produção de registros extremamente precisos e individualizados de todos aqueles que estão sob sua alçada, sem o que nunca seria possível pensar, por exemplo, na execução da solução final. Deixando de lado essa ausência, o filme lembra, mesmo sem querer, o quanto há de violência na experiência escolar.

É dessa violência que nasce nossa particular individualidade. A escola é o espaço mais privilegiado de exercício dos micropoderes sobre os corpos de todas as singularidades somáticas, convertendo-os em sujeitos “livres”. A interiorização de normas e disciplinas serve de esquadro para definir a personalidade, o ajuste às regras sociais, as características mais intimas de todos, a “alma” interior do sujeito. O autoritarismo, portanto, não está lá onde acaba a individualidade, mas é o próprio exercício do poder que possibilidade a criação dessa individualidade.

Nesse sentido, percebo uma nítida relação entre o filme alemão e Entre os muros da Escola. Ambos os filmes, cada um a sua maneira, lançam um olhar que permite ao espectador problematizar certos discursos que tentam colocar a escola, de maneira muito tosca e banal, como a grande redentora de uma humanidade carcomida. Entretanto, é justamente essa visão que transforma a instituição numa fábrica de fascismos, disciplinando vidas e corpos.

Em Entre os muros, a escola é retratada no seu impasse, representando aquilo que há de mais irreconciliável, o dilema ético que nasce em torno do exercício desse poder, dessa fabricação de subjetividades. Já em A Onda, o problema é posto na margem de seu próprio discurso. Ao preferir tratar o tema do fascismo na banalidade do binômio repressão/individualidade, é o próprio dilema ético que resta em segundo plano. O espaço institucional escolar é absolvido. O excesso de Wenger é assumido como a metáfora de um fantasma que paira sobre nossas frágeis democracias. Porém, o filme lança uma solução reconfortante, na medida em que aposta na proteção da individualidade (com a punição de Wenger) para esconjurar este fantasma. Mas, é muito mais assustador quando se percebe que é no seio de nossa individualidade, naquilo que temos de mais construído – nós mesmos – que habita este fantasma.

 

 

Notas

[1] O führer do colegial em http://veja.abril.com.br/260809/fuhrer-colegial-p-138.shtml

[2] Afinal, de onde vem a onda? Folha de São Paulo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

One Comment to “A onda (Die Welle, 2008)”

  1. iarinha disse:

    Oieeee,
    Tambem falei desse filme no meu blog….
    beijos

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.