A Onda Verde, do diretor iraniano Ali Samadi Ahadi, trata das eleições iranianas de 2009. Na ocasião, o candidato de oposição ( Mir-Houssei Mousavi) conseguiu conquistar forte apoio popular com uma proposta de medidas reformistas e democratizantes, propondo uma espécie de transformação gradual e sem rupturas radicais com a tradição do regime islâmico. Porém, apesar do apoio e de toda mobilização, inclusive com grandes manifestações públicas, as eleições sofreram fraudes enormes, o que resultou na vitória do presidente que buscava a reeleição (Mahmoud Ahmadinejad).

O documentário acompanha essas primeiras manifestações, dando especial ênfase ao clima esperançoso e otimista em relação ao futuro do país, mas também segue os desdobramentos da eleição. Após a fraude, uma parcela da população decidiu iniciar protestos e passeatas contra o governo, exigindo justiça e o respeito aos mecanismos democráticos. O governo, entretanto, adotou medidas duríssimas de repressão, dando total liberdade às milícias e ao exército para prender, torturar e atacar os manifestantes e os ativistas políticos. Ao final, a violência inaudita, especialmente dos milicianos, mas praticada com total autorização do governo, atingiu seus objetivos e conseguiu reprimir os protestos e assegurar o resultado oficial das eleições.

A proposta do filme é propiciar uma reflexão sobre as condições políticas criadas pelo atual governo iraniano, que tenta construir uma imagem democrática, porém não passa de uma verdadeira ditadura que não respeita os direitos humanos e trata seus próprios cidadãos como potenciais inimigos. Para recontar essa história, a obra utiliza uma forma de registro ainda pouco utilizada em documentários, qual seja, os relatos produzidos nas redes sociais (twitter e facebook) e blogs. É através desses textos, produzidos por manifestantes anônimos, que o filme reconstitui os fatos e tece sua narrativa. As imagens mesclam gravações feitas através de câmeras digitais dos próprios manifestantes, com animações baseadas nos relatos da internet.

Antes de assistir o filme, pensei que o foco do documentário seria justamente discutir o estatuto desses relatos, bem como relacioná-lo com a constituição de novos canais de manifestação e protesto contra as estruturas políticas vigentes. A sinopse, inclusive, reforçava essa expectativa, na medida em que anunciava o esforço de conceder a palavra às pessoas anônimas, recorrendo a relatos em primeira pessoa, recolhidos de fontes diversas, como postagens em blogs, no Twitter e Facebook. A natureza particularmente distinta desses textos pode colocar em xeque muitas oposições que estruturam as reflexões políticas tradicionais, bem como sinalizar para novas formas de manifestação da multidão na contemporaneidade.

Porém, não é nada disso que ocorre. O filme prefere seguir um caminho muito mais fácil, o do mero panfleto. A ideia não é problematizar nada, mas tão-somente sensibilizar a opinião público global do problema enfrentado pelo povo iraniano. O que vemos é um uso intenso de técnicas retóricas, o apelo à imagens fortes e a trilha sonora bem marcante, tudo para reforçar o sentimento de que medidas urgentes precisam ser tomadas. Para não deixar nenhuma dúvida, o filme esclarece que tipo de medida poderia ser tomada, sanções internacionais contra o governo do país.

Além disso, e isso que me parece mais grave, o documentário opera uma redução epistemológica nos relatos provenientes da internet. É como se esses relatos carecessem de uma legitimidade autônoma, precisando de um suplemento de veracidade para a construção da narrativa. Esse suplemento é fornecido por uma série de depoimentos de figuras públicas: jornalistas, ativistas conhecidos, políticos e membros de organizações supranacionais. São os depoimentos dessas pessoas que reforçam/legitimam as narrativas encontradas nos blogs e no twitter.

É como se as palavras anônimas da multidão não se bastassem sozinhas e fosse necessário que determinados agentes sociais, tradicionalmente reconhecidos como porta-vozes do povo, falassem em seu nome. Essa operação acaba tornando bastante supérfluo, por exemplo, as animações que dão vida aos textos, afinal é a imagem tradicional (o entrevistado falando diretamente para a câmera) que valida este discurso. No furor de convencer e sensibilizar, o filme acaba se tornando apenas mais uma obra que insiste numa tópica comum dentro da política imperial: a necessidade de agir para combater a falta de democracia de um determinado regime.

Não é por acaso que a grande solução oferecida pelo filme seja aquela mais conservadora, as já mencionadas sanções internacionais. É como se dentro do Império apenas a ação da polícia imperial possa garantir a criação de uma ordem democrática e o respeito aos direitos humanos. Essa leitura, evidentemente, precisa ser desconstruída. E o primeiro passo é dar voz a própria multidão, sem necessidade de eleger porta-vozes ou instâncias que falem por ela. O grande mérito do documentário é justamente esse, indicar uma possibilidade de reflexão ainda inexplorada, na qual esses relatos anônimos e fragmentados sirvam para a construção de novas narrativas, menos hierarquizadas e dependentes das grandes figuras da história.

(Filme exibido no Festival É Tudo Verdade)

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2 Comments to “A Onda Verde (The Green Wave) de Ali Samadi Ahadi”

  1. vitor disse:

    Vc tem razão. O filme poderia ser mais q um mero “clamor”, e abordá-lo de uma forma mais tangencial. Aliás, vc conseguiu uma distância crítica que eu não tive. A força daquelas imagens, daquele conflito foi mto impactante, e é realmente o ponto principal do documentário. Mas tbm achei uma certa incongruência entre a sinopse e o filme em si. Sem dúvida, é um dos grandes concorrentes, porém, mais pela temática do que pela abordagem.

    • Leandro disse:

      Vitor, é verdade. O documentário é muito forte e apela muito para a emoção. Ele vai se tornar uma bandeira política importante, afinal foi feito pra isso. Não dá pra sair do filme sem a sensação que estamos diante de algo muito errado. É claro que a partir disso, é possível problematizar muitas coisas, mas não foi a opção do filme. A grande questão é refletir sobre a relação entre o documentário e a linguagem das redes sociais, isso ajudará bastante a pensar no papel político que elas desempenham na contemporaneidade. Um abraço e volte sempre. Leandro

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