A rede social de David Fincher

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Danilo Ferreira de Camargo

Leandro Calbente Câmara

Rede social é um filme sobre um nerd americano que ganhou muito dinheiro com a internet. Essa é a história narrada no novo filme de David Fincher. Em quase duas horas de projeção, conhecemos como Mark Zuckerberg, um estudante de Harvard, criou e desenvolveu o sítio de relacionamento mais famoso do mundo, o Facebook, que hoje conta com mais de 500 milhões de usuários. Mas Rede Social não é apenas a cinebiografia de um bem-sucedido nerd. Ele é também parte da história de uma profunda transformação nos relacionamentos humanos. “As pessoas viviam em fazendas, depois em cidades e agora na internet”, é o que afirma Sean Parker, co-fundador do Napster e colaborador de Mark na trajetória do Facebook.

A frase de Parker pode soar exagerada aos mais conservadores que ainda não conseguiram visualizar a radicalidade da internet. No entanto, se consideramos a revolução que as redes de informática já produziram não é um disparate afirmar que, de fato, estamos diante de uma inovação não apenas na produção e na transmissão de informação, mas na forma pela qual a socialização dos indivíduos é organizada. Mais do que isso, o advento das novas tecnologias de informática tem transformado, inclusive, as bases produtivas do capitalismo, engendrando novas formas de exploração e resistência. Seguindo de perto as obras paradigmáticas de Negri e Hardt – Império e Multidão –, podemos dizer que nesse novo contexto o que está em jogo não é mais, ou tão-somente, a produção material de mercadorias, mas a produção imaterial de bens de consumo (afetos, imagens, idéias, subjetividades, linguagens virtuais). Essa nova forma de organização do trabalho imaterial, segundo os autores, se afirma como a tendência hegemônica do mundo capitalista.

Nesse sentido, o caso do Facebook é emblemático. Mark é atualmente o mais jovem bilionário do planeta, sua empresa já vale mais de 65 bilhões de dólares e há especulações de que a sua rede social pode suplantar o gigante Google em alguns anos. Um dos méritos do filme é demonstrar como um garoto de 19 anos, retratado como um babaca, criou praticamente sozinho uma rede social que rende um fluxo de capital extraordinário. Tudo isso em apenas seis anos de existência. Aparentemente, estaríamos diante de uma nova empresa capitalista como tantas do passado, aí incluindo as fabricantes de software. Porém, a grande diferença é aquilo que é produzido pelo Facebook: encontros, amizades, namoros, notícias, comunicação instantânea, negócios, debates políticos, diversão etc. Tudo isso, claro, dentro da lógica da produção imaterial.

O filme foi muito feliz em retratar o embate entre essa nova lógica de produção com aquilo que lhe antecedeu. A criação do Facebook, como retratada por Fincher, envolveu inicialmente três partes distintas: o próprio Mark; o brasileiro Eduardo; e os três membros de uma das mais prestigiosas fraternidades de Harvard. Porém, cada um tinha uma concepção própria de como o sítio deveria funcionar. A trama do filme se sustenta em torno da irredutibilidade dessas diferentes visões, fato que resultou em dois processos judiciais movidos contra o criador do Facebook. Mais do que apenas uma disputa por direitos intelectuais, esse enfrentamento representa uma tentativa desesperada do velho capitalismo em tentar controlar ou capturar as potencialidades da nova lógica produtiva.

Enquanto os membros da fraternidade pretendiam criar uma rede social exclusiva, na qual apenas os alunos da própria instituição teriam acesso, Eduardo pretendia expandir o sítio de relacionamentos para diversas universidades americanas, o que possibilitaria a venda de publicidade, tornando a empreitada num negócio lucrativo e com retorno garantido. Os primeiros ainda enxergavam a internet como um espaço fechado, hierarquizado, apenas para uns poucos indivíduos ricos e bem relacionados. Já Eduardo acreditava que o sucesso do sítio estava na sua subordinação ao capitalismo financeiro por meio de anúncios, marcas e propagandas de grandes empresas, ou seja, para ele o Facebook era apenas mais um canal publicitário como tantos outros. É contra essas duas concepções que Mark vai lutar.

Ele é o primeiro a perceber que uma rede social precisa ser dinâmica e flexível, não mais um espaço que apenas reafirma as diferenças sociais da velha burguesia industrial (representada pela poderosa aristocracia das fraternidades de Harvard), mas um espaço novo e dinâmico, e principalmente, aberto a todos. Mark também percebeu que a publicidade era apenas uma forma antiquada de negócio. Ele tinha nas mãos algo com muito mais potencialidade: ao invés de vender apenas produtos já existentes, a rede produz afetos, relações, subjetividades, enfim, é a produção imaterial que possibilitaria o sucesso daquilo que Mark tinha diante de si.

Só que Mark ainda titubeia, ele domina a linguagem da internet, mas lhe falta convicção. É por isso que Sean Parker é uma figura chave. Ao constatar as potencialidades do Facebook, Sean Parker fala sozinho em voz alta: “É a verdadeira digitalização da vida real”. No filme, o co-fundador do Napster é retratado como portador de uma consciência pragmática sobre os rumos da informática. É ele que, em determinado momento da história, organiza e determina os passos de Mark rumo ao sucesso. “Não ganhei dinheiro com o Napster, mas quebrei a indústria fonográfica”, diz ele a certa altura, demonstrando conhecer bem a potência e os perigos da internet. Vale lembrar que o Napster não só produziu uma revolução na distribuição e no compartilhamento de música como instaurou uma nova ordem na qual a arte, “imaterializada” em formato digital, tende a não ser mais exclusivamente uma forma de mercadoria. A grande inovação desse programa foi possibilitar o compartilhamento direto entre usuários, o que dificulta o controle e a punição dos envolvidos.

Depois de muitas batalhas na justiça, o Napster se tornou uma empresa integrada ao sistema de venda de músicas, mas o seu legado foi a possibilidade infinita de continuarmos compartilhando arquivos, de continuarmos afrontando a forma mercadológica da arte, de continuarmos burlando o direito de propriedade do capital.

Esse legado, absolutamente simbólico, demonstra a evolução do uso da internet nos últimos anos; um uso que tem inserido definitivamente a potência produtiva da multidão no jogo (bio)político do capitalismo contemporâneo. Ora, se a indústria da informática organiza o movimento da globalização, agencia as subjetividades, produz formas de vida e determina o sentido do imaginário coletivo com suas imaterialidades lucrativas, é também no interior dela que a multidão organiza suas resistências aos sistemas de controle. Hackers. Pirataria. Fraudes. Espionagem. Sabotagens. Estratégias variadas que no curto espaço da democratização da internet já nos permitem antever que a “digitalização da vida real” não encerra ou restringe, mas, ao contrário, potencializa o jogo entre poderes e resistências, controles e recusas, ordem e insurreições. Nesse contexto, as redes sociais como o Facebook tendem a se tornar, num futuro não tão distante, a síntese política do campo social. E tudo indica que nesse novo espaço de socialização digital uma outra relação do homem consigo mesmo e com as práticas e os saberes que o constitui está sendo construída. Uma relação menos disciplinar, menos fabril, menos antropológica, menos humana.

A única certeza, por enquanto, é que não há mais espaço para lamentações nem desqualificações desse mundo irreversivelmente presente e por vir. As redes sociais e a digitalização da vida não devem ser tomadas nem como catástrofes, nem como utopias sociais, mas sim como heterotopias. Outros tempos. Outros espaços. Outros diagramas de força que configurarão um outro… Não é possível saber. Mas tudo isso já enche de lágrimas os olhos de alguns homens demais apegados a essa forma humana tão moderna quanto obsoleta.

Daqui a algumas décadas, talvez, o Facebook será apenas uma nota menor na reconstrução da pré-história desse algo ainda em devir. E, certamente, o filme Rede Social não será mais do que o retrato medíocre de um nerd babaca que ganhou muito dinheiro com a internet.

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12 Comments to “A rede social de David Fincher”

  1. renatocinema disse:

    Sou fã assumido do estilo de David Fincher de contar histórias e cativas o público.

    Essa produção ainda não consegui assistir no cinema, devido a loucuras do final do ano, mas não deixarei escapar.

  2. Mari disse:

    Não vi o filme, mas gostei!

    E é isso que me interessa: uma nova relação do homem consigo mesmo, o que não deixa de ser a relação com o Outro.

    Estava até pensando em escrever sobre a Politica da Amizade nas redes sociais ;)

    ps: só este blog no google que está um pouco ultrapassado, né?

  3. Leandro disse:

    Renato, o filme é regular, mas permite boas reflexões. Por isso, vale a pena assistir. Depois me diga o que achou. Um abraço

  4. Leandro disse:

    Mariana, pois é, esse é um caminho de reflexão que também me interessa bastante. Escreva sim, fiquei curioso em saber o que está pensando.

    Ah, nessas férias pretendo resolver isso e migrar pro wordpress. Vamos ver se dá certo.

    Um abraço

  5. Cristian Korny disse:

    legal seu blog, minha primeira visita, e valeu, abras…

  6. Leandro disse:

    Que bom que gostou, Cristian. Tomara que esta seja a primeira de muitas outras visitas. Um abraço e boa leitura.

  7. Catatau disse:

    Muito legal o texto, dá motivos para ver o filme.

    Quanto ao facebook, engraçado que há muito não deixo de lembrar do texto do Deleuze, "Post Scriptum sobre as sociedades de Controle", toda vez que vejo o site.

  8. chenrique disse:

    Interessante perspectiva; mas acho que é uma visão ainda muito entusiasmada sobre o processo.
    De todo modo, só queria talvez retificar uma questão: a internet como um todo, e o facebook em especial, devem sua existência à sua subordinação ao capital financeiro.
    Os investimentos que tornam a pesquisa de tecnologia de ponta e que sustenta muitos negócios deficitários na internet (veja o caso do Amazon, passou anos sendo deficitário, como o Twitter é hoje) só é possível porque há constantes e renovados investimentos provenientes do setor financeiro (empréstimos bancários, inversão de investidores privados com excesso de liquidez e etc).
    Se a empresa não capta recursos diretamente de um cliente, a única alternativa possível para sustentar um negócio é tomar dinheiro emprestado no mercado financeiro ou abrindo o capital (o que dá o coloco novamente no centro do capital financeiro).
    A visão do Eduardo Saverin era a de recorrer ao capital comercial, às empresas que pagariam por anúncios de produtos e serviços. A visão do Zuckerberg/Parker sim é que necessitava do suporte do capital financeiro, do capital especulativo que busca novas oportunidades em busca de remuneração. Talvez por isso tenha dado certo na velocidade em que deu.

  9. Marcelo disse:

    Leandro, gosto do texto que você e o Danilo escreveram na medida em que aponta para algumas questões cruciais do capitalismo contemporâneo que de alguma forma atravessam a narrativa de "A rede social".

    Enquanto assistia ao filme, não conseguia deixar de pensar que qualquer leitura dele passa necessariamente por uma leitura das condições atuais, naquilo que rompem com as do passado, mas também naquilo que as prolongam, intensificam e/ou atualizam. Acho que o texto de vocês dá uma ênfase maior nas rupturas do que nas continuidades. Me parece que o comentário do Carlos Henrique evidencia justamente uma continuidade, uma herança crucial para o Facebook, que precisa ser reconhecida para uma compreensão crítica do filme do ponto de vista das formas de representação do capitalismo que nele se inscrevem.

    Pensei muito também sobre essa questão do retrato de Zuckerberg como um "babaca", como vocês escrevem. Acho que o tipo de "babaquice" que o personagem dele demonstra no filme se tornou hoje um referencial heróico. Não sei se isso é só de hoje, na verdade. Alguém precisaria fazer uma genealogia da figura do herói "babaca", aquele que se arroga a razão e passa por cima dos outros com sua mais-valia de saber/fazer. Sobre isso, lembro de um post do Rodrigo Cássio em que ele escreve: "O que o capitalismo nos retira de mais importante não é o poder econômico, os bens materiais ou uma hipotética “qualidade de vida”, mas sim a nossa interioridade, o nosso sopro*, potência criadora realmente livre; ou seja, o que há de melhor na condição natural de homens diferentes entre si." Me parece que o Facebook exemplifica poderosamente a usurpação do nosso "sopro", como diz o Rodrigo, para transformá-lo em mais uma mercadoria. Ainda escrevo algo sobre isso, com tempo…

  10. Leandro disse:

    Catatau, que bom que gostou. O texto do Deleuze é uma referência importante para pensar a contemporaneidade. Na mesma linha, tentando seguir a reflexão, te recomendo as obras de Antonio Negri e Michael Hardt (Império e Multidão, bem como a obra individual do filósofo italiano). A sociedade de controle está posta, não há como voltar atras. Então, o que importa agora é pensar formas de resistência nesse novo universo. É mais ou menos isso que estes autores (e toda uma linha de pesquisa que os acompanha) tentam fazer. Ótima Leitura. Um abraço e volte sempre.

  11. Leandro disse:

    Chenrique,

    Agradeço seu comentário e suas observações. De fato, o capital financeiro é um suporte importante para o funcionamento da Internet. Isso, porém, não significa que essas novas empresas funcionem na mesma lógica que organizava o capital financeiro. Isso que é importante, a forma como o novo capitalismo está invertendo a lógica de produção anterior. E não vejo empolgação exagerada, mas um fato que anda a passos largos. Caso tenha interesse, há autores interessantes pensando nessa perspectiva. Além dos já citados Negri e Hardt, lembro também de Maurizio Lazzarato (As revoluções do capitalismo), Christian Marazzi (O lugar das meias) e Giuseppe Cocco (MundoBraz). Enfim, é um debate que precisa ser aprofundado. Um abraço e volte sempre.

  12. Leandro disse:

    Marcelo, agradeço muito o comentário. Concordo inteiramente quando você fala de continuidades. Apesar de termos enfatizado as rupturas, isto não significa que não há continuidades. O que é importante é pensar como estas continuidades funcionam agora num contexto diferente, bem como quais potencialidades são abertas nessa nova realidade. E sua proposta, a genealogia do babaca, é bem interessante. Só não sei se concordo inteiramente com essa ideia de uma interioridade que é roubada pelo processo produtivo. Será que isso que chamamos de interioridade não é constantemente criado e recriado pelas relações humanas e pela relação com os meios de produção? A partir disso, é possível pensar espaços de ação, reação e resistência. Sempre fico meio assim com a ideia de uma subjetividade que é prévia ao poder. Agora ficarei aguardando o texto que você pensa em escrever, seria uma boa maneira pra continua a discussão. Um abraço e volte sempre.

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