A Trapaça de Federico Fellini (1955)

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A Trapaça é o quinto filme de Federico Fellini, lançado em 1955. É um filme que ainda guarda uma estrutura narrativa mais tradicional, bem diferente daquilo que o diretor irá realizar com A Doce Vida e seus filmes posteriores. Em Trapaça, acompanhamos as peripécias de três sujeitos que ganham a vida aplicando pequenos golpes, enganando os pobres e os camponeses que moram nos arredores de Roma. O líder do grupo é Augusto, um velho trapaceiro que só quer saber de aproveitar a vida. Ele é acompanhado por Picasso, o mais jovem dos três, casado e pai de uma filha pequena, ele sonha em se tornar um pintor profissional; e por Roberto, o mais ambicioso e cínico, sem nenhum compromisso com nada, deseja apenas aplicar um belo golpe e resolver seus problemas financeiros. O motor da trama é a tomada de consciência dos personagens, se no início eles não enxergavam nenhum problema ético nas suas trapaças, ao longo do filme essa situação vai se modificando. O ponto de virada é a festa de final de ano na casa de um antigo golpista, agora convertido num rico empresário. Uma cena típica do universo felliniano, a cena retrata sem piedade a cúpula decadente e perversa da sociedade italiana, absolutamente vazia de sentido ou valores. Lembra muito a festa burguesa em A Doce Vida, bem como diversas outras situações da filmografia do italiano. É nesse ambiente que os personagens começam a enfrentar uma espécie de crise de consciência. É o momento da escolha individual entre a queda ou a salvação. Esse é o grande problema do filme, o traçado ético dos personagens precisa ser realizado num vazio de valores, há apenas um sentido imanente ao mundo, por isso depende apenas dos modos de engajamento de cada um. É por isso que o personagem que dá início a essa crise é justamente aquele que apresenta o maior compromisso com o mundo: Picasso. Ele que sonha em ser pintor e se esforça para manter sua esposa próxima de si, acaba assim sendo o primeiro que se recusa a continuar aplicando seus golpes. No extremo oposto está Ricardo. Ele não parece preocupado com nada além dos prazeres imediatos: mulheres, bebidas, comida, dinheiro. Sua escolha já está determinada desde o início, não há limites para sua ambição, por isso ele não parece enfrentar verdadeiramente nenhum problema ético. Mesmo após ser humilhado na frente de todos, Ricardo não se corrige. O interessante é que o filme não moraliza o personagem, ele não é castigado por sua opção. Ele simplesmente some, aparentemente após ser bem sucedido num golpe com uma rica viúva. No meio termo dos três, o personagem que sintetiza o problema do filme, está Augusto. Ele materializa a ambigüidade própria da existência, não consegue decidir realmente que caminho irá seguir. Da mesma forma que Picasso, ele tem uma filha, a qual deseja ajudar a continuar estudando. Porém, como Ricardo, não encontra as forças necessárias para abandonar a vida de golpes. Na impossibilidade de um engajamento afirmativo, ele acaba flutuando ao sabor da facticidade do mundo. Isso expressa uma representação trágica da existência moderna: é o tormento próprio da condição moderna, estar impossibilitado de realizar uma escolha ética, seja qual for. É ele quem sente o vazio do mundo, um vazio que não consegue preencher. Isso é muito interessante, pois revela já nesse filme como o tema da falência dos valores transcendentais para a construção de uma moral do homem moderno perpassará grande parte das obras de Fellini. O destino final de Augusto representa muito bem a visão pessimista do italiano, no final das contas é muito difícil sustentar uma existência tão aberta, absolutamente desprovida de qualquer sustentação exterior.

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