Abraços Partidos de Pedro Almodóvar

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No início de Abraços Partidos, Harry Caine, o roteirista cego, explica para Judit Garcia, a produtora que lhe assessora, a nova idéia de roteiro na qual está pensando em trabalhar: baseado na vida de Henry Miller, trataria de um homem que, depois de abandonar o filho com síndrome de down, o reencontra muitos anos depois, quando é recebido com grande afeto e carinho. O tema do roteiro, ainda que pela negativa, trata do ressentimento, da impossibilidade de se reconciliar com o passado. Este me parece ser o tema central do novo filme de Almodóvar. Como se reconciliar consigo mesmo, vivenciado de maneira menos traumática uma experiência aterradora do passado?. Paira sobre os dois, por razões muito diversas, uma espécie de teia que os prende a um trauma comum. Caine reinventou sua própria existência, meio que construindo uma nova narrativa de si mesmo, abandonando seu velho eu: o diretor de cinema Mateo Blanco. Este abandono representa o reconhecimento de uma impotência: a incapacidade de um olhar que narre e explique o mundo, que enxergue além do ressentimento. Judit também é incapaz desse olhar, na medida em que guarda para si uma responsabilidade exageradamente pesada em relação a tudo que aconteceu. Essa impossibilidade do olhar é muito bem representada pela incapacidade de remontar o filme “Garotas e Malas”, que Blanco estava produzindo na ocasião do acidente. Ou ainda mais claramente na cena em que vemos as fotografias tiradas em Lanzarote, todas rasgadas. É como uma metáfora desse olhar ressentido, incapaz de enxergar o mundo. Porém, há uma possibilidade de reconciliação, quando um terceiro elemento, despido da culpa, estabelece uma nova relação com o olhar e com o passado. Este terceiro é Diego, filho de Judit. Ele convence Caine a contar um pouco de seu passado, na tentativa de compreender os muitos mistérios de sua mãe. Esse recontar abre caminho para a reconciliação tanto de Caine quanto de Judit. Ela mesma finalmente abre mão de toda a responsabilidade que assumiu pra si, também através desse ato narrativo. Na impossibilidade de um olhar puro, que garanta o acesso objetivo do passado, é a palavra que estabelece uma linha capaz de recuperar os fragmentos da memória. No cruzamento da palavra com o olhar, torna-se possível uma experiência de ascese, na qual a culpa começa a ser expurgada. O que é mais bonito é como o filme estabelece como metáfora dessa experiência a própria prática cinematográfica. A superação da culpa é acompanhada pelo trabalho fílmico, pela possibilidade de retornar ao filme irrealizado, o que também permite um olhar de adeus ao passado.

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2 Comments to “Abraços Partidos de Pedro Almodóvar”

  1. Anonymous disse:

    Ontem fui assistir ao filme Abraço Partidos, e agora após a leitura do comentário feito pelo Leandro, vejo que tive quase que a mesma percepção.
    O que pude reparar analisando não só o filme, mas também a realidade humana, é que nós temos muitas dificuldades de lidar com problemas, com traumas ou algo que nos cause uma grande dor, que a melhor forma de superarmos tudo isso é encarando de frente a situação, foi desta forma que Mateo Blanco deixou para o passado seu pseudônimo de Harry Caine, o filme retrata também a nossa dureza de coração e como gostamos de possuir as pessoas para nós, mostra de como gostamos de decidir a vida do nosso próximo, de mostrar poder e o total despreparo para a perca. Vivemos em um mundo de competição onde temos quer ser os melhores sempre e passar por cima de tudo, e sabemos que podemos viver de uma forma melhor, mais feliz e com menos traumas, basta respeitarmos os nossos limites

  2. Leandro disse:

    É… a vida não é fácil. Valeu pela leitura e pelo comentário. Um abraço. Volte Sempre.

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