Abutres de Pablo Trapero

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O novo filme de Pablo Trapero, Abutres, desenvolve sua trama num espaço temático muito semelhante àquele explorado em Gomorra, do diretor italiano Matteo Garrone (escrevi isso sobre o filme). Ambas as obras constroem suas narrativas em torno de uma espécie de vazio: um vazio criado pela anulação das garantias legais que deveriam proteger a existência dos indivíduos da violência e do arbítrio. Em outras palavras, ambos tratam do limiar da política, naquela zona de exceção onde a ação mesma do Estado (e consequentemente, dos direitos que a ele encontram-se sustentados) se encontra esfacelada. Enquanto o filme italiano funcionava a partir de narrativas fragmentadas, dando pouco destaque para esse ou aquele personagem individualmente, a obra de Trapero está centrada nas ações de seus dois protagonistas, o advogado Sosa e a médica Luján. Na trama, Sosa é um advogado que, após perder sua licença, precisou se envolver com uma empresa especializada em aplicar golpes nos seguros de trânsito. Seu trabalho consiste simplesmente em enganar as vítimas e seus familiares, lhes convencendo a assinar procurações que garantam plenos poderes à sua empresa para cuidar dos processos judiciais de indenização. No final, o que acaba acontecendo é que a empresa fica com grande parte das indenizações, repassando pequenos valores para aqueles que deveriam recebê-las. É por isso que estes advogados recebem o nome de abutres, afinal vivem das desgraças alheias, numa espécie de tanatoeconomia que alcança lucros proporcionais aos danos e mortes (vale observar que há um claro paralelo entre a ação desses abutres e o caso dos dead peasants, explorado no último documentário de Michael Moore, no qual grandes empresas também encontraram uma forma de lucrar com a morte e os danos de seus empregados. Escrevi sobre isso aqui). É claro que diante da possibilidade de imensos lucros, o filme começa mencionando que por ano cerca de oito mil pessoas morrem em acidentes de trânsito, estes golpes não poderiam ser realizados por amadores, mas sim por uma máfia muito bem organizada, envolvendo também policiais, hospitais, médicos, equipes de resgate, entre outros. Nesse grande maquinário, Sosa é apenas uma pequena peça. Por isso, ele acreditava que poderia permanecer apenas o tempo necessário para recuperar a sua licença profissional. No fundo, ele sempre enfrentou uma espécie de crise de consciência. Assim, ele funciona como a perfeita manifestação da figura trágica, ele sabe que faz algo errado, mas não encontra forças para se desvencilhar e lutar contra isso. Porém, um fato inesperado vai agravar ainda mais a sua crise de consciência: ele conhece a médica Luján, durante o resgate de um “cliente”, e acaba se apaixonando. Ela, obviamente, reprova a profissão de Sosa. E como de costume, o amor se transforma no grande motor que impulsiona o herói trágico. Só que quanto mais ele tenta se afastar, mais acaba enredado pelas ações da máfia dos abutres (e no processo acaba envolvendo também sua amada). A partir desse ponto, o filme ganha ares de thriller, com sequências incríveis e violentas, nas quais Sosa precisa confrontar seus antigos colegas. Nesse sentido, o filme realiza um movimento bastante interessante. Os dois protagonistas, no início da história, ocupavam uma posição, dizendo as coisas de uma maneira mais ou menos tosca, intermediária. Eram eles que realizavam a inserção daquelas “vidas que não merecem ser vividas” nas tramas da “sociedade civil”. Ela resgatava os acidentados, indivíduos marginalizados, excluídos, enfim vidas nuas; ele os transformava em fonte de lucro e produção econômica. Esse processo funcionava a partir da transformação daquelas vidas em matéria produtiva no momento em que se tornavam apenas isso: vidas sacrificáveis. Porém, o que eles não percebem, ou custam a perceber, é que essa posição intermediária é móvel e instável. E chega um momento em que as coisas se deslocam, lançando a ambos no mesmo espaço daquelas vidas nuas. É como se para eles não existisse mais a opção de abandonar o jogo biopolítico que estavam inseridos. Ao contrário, eles é que se tornam sacrificáveis e dispensáveis. A parte final do filme trata justamente da tomada de consciência dessa nova situação: é a tentativa desesperada de escapar desse limiar obscuro e vazio no qual se encontram. Enquanto no filme de Matteo Garrone todos já estavam imersos numa existência cindida, mais mortos do que vivos (pra quem não assistiu, esta frase é dita por um dos personagens de Gomorra e capta magistralmente o sentido do filme), e por isso a narrativa é fragmentada, afinal não estamos mais diante de subjetividades, mas apenas espectros quase-mortos; o que vemos em Abutres é justamente o processo de dissolução das subjetividades quando lançadas nessa zona de exceção, vazia de direitos ou garantias, convertendo-se puramente em vidas nuas. E poucos conseguiriam retratar esse processo com tanta intensidade como Pablo Trapero. Muito mais do que um filme de tese, o que o argentino consegue é impactar vivamente o espectador. No final é impossível sair do cinema numa posição confortável. Enfim, uma obra magistral.

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