Além da Vida de Clint Eastwood

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Antes de assistir o novo filme de Clint Eastwood, Além da Vida, fiquei meio surpreso e receoso com a sua temática. O filme parecia ser mais um que embarcava nessa onda de “cinema espiritual”. O tema do além – da vida após a morte e de suas conseqüências para o mundo dos vivos – vem motivando um número crescente de filmes. O problema é que esta onda espiritualizante traz consigo um discurso fortemente moralizante, que muitas vezes nega a potência da vida, na medida em que instaura uma ordem transcendental que orienta as ações humanas (como se a verdadeira vida não fosse aqui). Além disso, esses filmes são quase sempre muito pobres e desinteressantes, repletos de lugares-comuns e banalidades. Felizmente, o filme de Eastwood, apesar da proximidade temática, escapa desse discurso moralizado e tenta esboçar uma reflexão muito mais interessante sobre o espaço da vida sobre a morte. A narrativa é centrada em três personagens: a primeira é Marie Lelay, uma famosa jornalista francesa que passava suas férias no Sudeste Asiático quando a região foi afetada pelo trágico Tsunami de 2004. Arrastada pelas águas, a jornalista passa por uma experiência de quase-morte, na qual ela enxerga aquilo que acredita ser o além-vida; O segundo personagem é George Lonegan, um americano atormentado por seus poderes mediúnicos que o impedem de viver uma vida normal; Finalmente, o terceiro é Marcus, um pequeno garoto inglês que perde seu irmão gêmeo num acidente de trânsito. O que há em comum entre eles é a forma como a experiência da morte se transformou num crescente obstáculo para suas vidas. A obsessão de Marie com sua experiência trágica acaba lhe custando seu emprego, sua reputação e seu relacionamento. Marcus também se tornou obcecado com a ideia de entrar em contato com seu irmão morto, o que lhe afasta de sua família adotiva e de qualquer convívio social, a única coisa que lhe interessa é encontrar alguém capaz de ajudá-lo a reencontrar seu irmão. Já George prefere se afastar do além, tentando seguir uma vida normal, porém seus esforços sempre acabam frustrados. É ele, por sinal, a figura chave do filme. Sua vida sempre gira no vazio, seu talento aparece como uma barreira que corta qualquer relacionamento com o mundo dos vivos. É por isso que ele tenta esconder suas capacidades mediúnicas, como uma tentativa de voltar a viver. George é o personagem que expressa da melhor maneira a tensão que perpassa o filme inteiro, qual seja, uma espécie de antinomia entre vivos e mortos. A tese que sustenta o filme é mais ou menos a seguinte: o além é uma realidade, não há como negar isso (o filme representa o além de maneira bastante realista, não deixando dúvidas, por exemplo, de que George realmente entra em contato com os mortos), porém o contato com esse outro mundo pode significar uma espécie de esvaziamento, ou melhor, de impotência da vida; por conseguinte, é necessário um aprendizado, como um exercício realizado sobre si próprio, para evitar esse esvaziamento. Sua capacidade de comunicação com os mortos, não por acaso a palavra médium vem de meio, de intermediário, o torna uma figura problemática. Ele não é nem um morto e nem um vivo propriamente. Sua vida é apenas uma suspensão ou uma indefinição. O que George busca é, sobretudo, abandonar essa posição intermediária, encontrando uma forma de continuar vivendo. Nada expressa melhor essa condição do que a situação envolvendo George e Melanie. Os dois se conheceram num curso de culinária e começaram uma paquera. A situação se desenvolve e parece que ele finalmente vai conseguir escapar do seu isolamento. No entanto, ela descobre que George é capaz de se conectar com os mortos e o obriga a usar seus talentos com ela. É claro que a situação não acaba bem. É interessante a contraposição entre a cena da paquera (especialmente aquela que é a cena mais bonita e sensual do filme) e a cena do contato com o além. A potência amorosa é convertida no seu negativo, numa situação ressentida e amarga que destrói qualquer possibilidade de relacionamento. Nesse momento, seria fácil transformar a trama em mais um discurso moral. Para isso, bastava investir num caminho mais espiritualizado, como se diante da dificuldade de se relacionar com o além, a solução fosse abraçar um discurso religioso qualquer. Isso significaria uma inversão, na qual a vida (entendida sempre como potência criadora, como o espaço da ação e da ética) resta subordinada ao seu negativo, o além (o espaço do já dado, do definitivo, da impotência). Porém, o filme segue por um caminho bastante diferente. Isso acontece por meio de dois movimentos. Em primeiro, há uma clara recusa de qualquer tipo de salvação religiosa. Na realidade, a religião aparece sempre de forma negativa no filme. É o padre que não respeita os ritos fúnebres do irmão de Marcus e acaba a cerimônia em minutos para poder atender o máximo de famílias no mesmo dia. Ou ainda pior, o grande número de charlatões que tentam dar algum conforto ao menino, com seus falsos truques e profunda má-fé. Mas é também o irmão de George que tenta a todo custo convencê-lo a reabrir o negócio de sessões mediúnicas, na expectativa de voltar a lucrar com os talentos do irmão. Na impossibilidade de se apoiar no discurso religioso, os três precisam encontrar outra forma de lidar com a morte. E é isso que é interessante no filme. A única maneira de lidar com a morte é continuar vivendo. A parte final do filme (quando as três tramas se unem em Londres) trata essencialmente disso. Aprender a lidar com o além não significa uma celebração da morte, numa postura que permanece presa apenas à espera de uma experiência transcendental, mas sim uma espécie de celebração da vida. E isto ocorre a partir do encontro dos três, quando cada um depara uma maneira de superar aquela posição de suspensão da vida provocada pela espera da morte. Se a maior parte das obras “espíritas” traz consigo um discurso moralizante é por não buscar esta manobra, qual seja, de restituir a vida a uma dinâmica imanente, na qual o que vale é aquilo que se faz da própria vida. Não custa lembrar aquela bela frase de Espinosa, não há nada em que o homem livre pense menos que na morte, e sua sabedoria não consiste na meditação da morte, mas da vida. Pode-se dizer que o filme de Eastwood faz exatamente isso, ele fala da morte para fazer uma meditação da vida. Por isso, é um belo filme.

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7 Comments to “Além da Vida de Clint Eastwood”

  1. Junior disse:

    Percorri uma avenida esvaziada de vida, por através dos altos portões de ferro, vi condomínios-fortalezas…e num cinemark de sociabilidade "higiene-nópolis" salvei minha noite ao ficar inebriado com o velho Eastwood e mais uma, no dizer de Calbente,celebração de vida numa poesia bem filmada.

    Lindener Pareto

  2. Leandro disse:

    É isso mesmo Lindener, o filme é bem bonito, a melhor forma de salvar a noite. Um abraço. Leandro

  3. Carlos Eduardo Fernandes Junior disse:

    Também fui ao cinema com muito receio do que Clint teria a dizer sobre esse tema que aqui no Brasil é a bola da vez. Ao contrário dos companheiros acima, não encontrei nada. Aborreci-me com a condução do filme e sua trilha sonora absolutamente previsível. Os dedilhados e acordes de piano apontavam uma trama que aos sessenta minutos já denunciaria o final do filme e os encontros da jornalista e do vidente. Concordo que a recusa do discurso religioso é um belo ponto, porém a suspensão da discussão, inclusive da ideia de repensar o tema pela abordagem científica a partir dos indivíduos que passaram por experiências de quase morte, permite o silêncio. Não descontroem-se as ideias. Volta a dizer que ví apenas a suspensão do tema. Decepcionei-me muito com o filme. Infelizmente.

  4. Caio disse:

    Testando ferramenta de comentários.

    Acho que os únicos probleminhas que encontrei foram o posicionamento das imagens nas postagens, o posicionamento dos textos na barra da direita e a ausência de uma caixinha de seleção que permitisse que “seguíssemos” os comentários de cada postagem. Normalmente essa caixinha está embaixo da caixa de comentários.

    De resto, gostei do resultado!

    Quanto ao filme, não assisti, mas gostei da possibilidade que a perspectiva que você abordou traz. Porque tinha ouvido falar que o filme era “espiritualista” e estava no caminho de “Nosso Lar” e fiquei meio assim, mas uma leitura diferente é ótima.

    Assisti na sexta-feira a “Meu tio”, do Jacques Tati. Achei ótimo!

  5. Leandro disse:

    Olá Caio, muito obrigado pelas sugestões. Muito bem lembrado a caixa de “seguir comentários por e-mail”. Tinha me esquecido dela. Já adicionei, mas preciso testá-la. Se você puder assinar um e me ajudar, agradeço. Vou dar uma olhada no alinhamento das imagens, talvez encontre uma forma melhor. Só não sei se consigo arrumar aquilo que você falou do alinhamento da coluna direita, mas vou pedir ajuda para alguém mais entendido.

    Fiquei sossegado, o Além da Vida é bem diferente desses filmes espíritas e/ou religiosos. Vale ver.

    To querendo ver esta animação nova, baseada num roteiro do Tati. Parece bem bacana.

    Um abraço.

    Leandro

  6. Caio disse:

    Assinarei esse aqui. Vamos ver

    A animação chama “O mágico”, se não me engano e parece ser bem legal!

    Hoje li seu texto sobre Abutres, que estava deixando para depois de assistir ao filme. Gostei de ambos.

    O filme chega muito bem no ponto “estamos aqui, parece não haver volta, e agora?” e se torna mais fabuloso e angustiante quando Sosa toma a decisão de sair. Muito bom e muito bonito esteticamente.

    Um abraço,

    Caio

  7. Leandro disse:

    Caio,

    Isso mesmo, é “O mágico”. Assisti ontem, muito bonita. Tenho certeza que você gostará bastante dela. Também gostei muito do Abutres, um baita filme.

    Ah, descobri o problema das imagens. Ele estava acontecendo no Firefox, parece que só nele. A imagem ficava pra fora do espaço da postagem. Estou arrumando isso, porém ainda não terminei. Também estou colocando tags nas postagens. Bem, depois me diga se deu certo a inscrição dos comentários.

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