Amor à Flor da Pele de Wong Kar-Wai

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Um problema central em Amor à Flor da Pele é a insuficiência da linguagem. Os personagens se mostram, freqüentemente, incapazes de uma expressão adequada, uma comunicação plena. Ao invés disso, o que vemos são quebras, elipses, silêncios e lacunas. A estrutura mesma do filme é cheia dessas quebras, cenas recortadas e incompletas. A narrativa é mínima, cheia de sutilezas, de não-ditos. O relacionamento de Mo-wan Chow e Su Li-zhen Chan começa graças a esta insuficiência. Os dois se aproximam pela incapacidade mútua de interpelar seus respectivos cônjuges. A esposa de Chow e o marido de Chan, como logo descobrimos, se tornaram amantes. Porém, os protagonistas não conseguem confrontar seus parceiros, a descoberta da traição só acontece por rastros indiretos do fato, nunca pelo diálogo face a face. Os dois tentam superar esta incapacidade através de um jogo: um exercício da linguagem, através da representação do papel da figura ausente, como se a única linguagem possível fosse aquela que se manifesta na não-presença do seu interlocutor, na pura representação. É assim que, por exemplo, eles ensaiam o momento fatídico no qual Su Li-zhen confrontaria seu marido com as evidências da traição, eles experimentam justamente aquilo que não irá se realizar. Isso representa a existência de uma fratura fundamental na sociabilidade, no relacionamento humano. Este tema é recorrente na obra de Wong Kar-Wai. Há sempre uma distância instransponível entre os indivíduos, o que impede a plena realização de qualquer experiência afetiva. O que vemos é sempre uma sucessão de experiências abortadas, de relacionamentos fracassados, de amores destruídos, o que provoca um sentimento disseminado de solidão e angústia. O campo por excelência desse fracasso é o da experiência amorosa, que ocupa sempre o centro de suas narrativas. É muito interessante como esse tema é retomado em Amor. Mo-wan e Su Li-zhen, através dos seus jogos – que se torna o único campo de realização da linguagem, o único espaço de comunicação –, acabam se tornando eles mesmos enamorados, o que inviabiliza a continuidade do jogo. O ponto culminante é quando eles se obrigam a encenar a própria separação. A comunicação se mostra decididamente ausente na sociabilidade de fato, funcionando apenas no campo da representação. É como se todo relacionamento, cedo ou tarde, estivesse fadado a um mutismo insuperável. Nos seus filmes anteriores, este problema já estava presente, porém é apenas em Amor que esta imagem fraturada dos relacionamentos humanos ganha uma enunciação definitiva. Uma das imagens finais do filme, quando Mo-wan conta para seu colega como os antigos guardavam seus segredos, cavando um buraco no qual ocultariam tudo que não pode ser dito, é a melhor síntese dessa visão. No final das contas, há sempre uma dimensão de incomunicabilidade, um segredo decisivo, que marca e distância de cada um com os demais.

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