Amor em Cinco Tempos de François Ozon

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Amor em Cinco Tempos é uma excelente oportunidade para refletir sobre o discurso amoroso. Como escrevi antes, há uma espécie de inflação discursiva, todos querem e precisam falar sobre o amor. Esse excesso verborrágico, todavia, não é acompanhado por uma experimentação discursiva, um esforço para elaborar novas narrativas sobre o amor; em geral, trata-se de um longo monólogo sobre um tema só: a verdade do amor e sua obsessão com o princípio idealizado de toda experiência amorosa. É a partir desse aspecto que se equilibra quase toda narrativa que construímos em torno do amor. Não faltam imagens que alimentam esse modelo. Basta lembrar como isso já aparece num dos textos fundadores do pensamento filosófico ocidental, qual seja, a narrativa de Aristófanes no Banquete de Platão (ainda escreverei mais sobre isso). A constante rememoração da idílica origem é a melhor maneira de anular o risco de qualquer reinvenção da palavra amorosa. É justamente a desconstrução desse discurso que o filme de François Ozon realiza. O enredo é bastante simples: acompanhamos o processo de formação, desgaste e dissolução do casamento de Gilles e Marion. Os cinco tempos do título tratam disso: a narrativa é dividida em cinco episódios – o encontro inicial; o casamento; o parto do filho do casal; a crise; finalmente, a separação. Essa história simples, no entanto, sofre um pequeno e decisivo deslocamento: o filme inverte o sentido habitual da narrativa, inicia do fim e segue de trás pra frente. O filme começa com uma cena duríssima, o casal diante de um juiz lendo friamente as cláusulas de separação, uma a uma, numa espécie de torturante manifestação final de um relacionamento que perdeu toda potência e vitalidade. Porém, a tortura infligida a dois não acaba aí. A cena é seguida por outra, ainda mais violenta. Os dois seguem para um quarto de hotel, onde parecem buscar uma espécie de celebração melancólica do fim. Com o mesmo formalismo da sala do tribunal, Marion se despe e se prepara para o último ato sexual com seu marido. No entanto, não há nada na situação que exprima qualquer tipo de sentimento amoroso, só vemos ressentimento, desgosto, tristeza e raiva. O recuo de Marion é seguido por um gesto de pura violência de Gilles, o estupro de sua ex-mulher. É a partir dessa situação, o encontro a dois sob o signo da tragédia, que retornamos paulatinamente para o início da história. Nesse sentido, seria natural um esforço retrospectivo de explicação, os demais episódios tratariam simplesmente de explicar o motivo do fracasso. O filme de Ozon é tudo menos isso. Não há explicações, nada que permitiria aquela reconfortante sensação para o expectador de “sei o que deu errado, meu relacionamento não é assim”. Nada se explica, apenas acompanhamos alguns momentos, com suas tristezas e alegrias, enfim um pouco daquilo que molda todo relacionamento amoroso. No seguimento final do filme, o primeiro tempo do relacionamento, a inversão da narrativa ganha todo seu sentido. É quando Gilles e Marion iniciam seu relacionamento, num encontro casual num hotel italiano durante as férias. Gilles estava acompanhado de sua namorada anterior. No entanto, este relacionamento encontrava-se falido, tão falido quanto aquele que presenciamos nas primeiras partes do filme. Esse paralelismo é reforçado com a repetição de algumas situações: o sexo sem vida dos dois, ou o frio apagar das luzes de um casal que não se suporta mais (numa cena que é a absoluta repetição de outra que retratava um desentendimento entre Gilles e Marion na segunda parte do filme). Esse paralelismo, o fim do namoro de Gilles como a mera repetição do fim de seu casamento, desloca aquela sensação de tragédia, o fim do relacionamento como uma espécie de catástrofe, para a de farsa, o fim não passa de uma repetição. Os relacionamentos que se sucedem não trazem nenhuma abertura, nenhuma experimentação, não criam algo novo. Não existe uma descontinuidade, uma ruptura, todos os relacionamentos são apenas distintas representações do mesmo ato, da mesma potência triste e melancólica. Esta farsa é efeito direto da pobreza narrativa, da impossibilidade de Gilles e Marion em reinventar suas próprias experiências, o que não deixa de ser a manifestação de uma espécie de pobreza afetiva. Assim, a desconstrução do discurso amoroso proposta por Ozon é também um alerta para os riscos da constante conversão da experiência amorosa em discursos empobrecidos e idealizados, que repetem apenas as mesmas experiências esvaziadas, que nada mais são do que eterna repetição da mesma farsa.

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3 Comments to “Amor em Cinco Tempos de François Ozon”

  1. mirellamaria disse:

    caramba, leandro! assisti a esse filme há muito tempo, mas constantemente ele me vem à memória. é muito forte, especial. curti tua análise, os filmes do ozon são assim, né? sempre nos lembrando da nosssa mediocridade.

  2. Leandro disse:

    Pois é, eu também tinha visto esse filme faz tempo, no cinema quando estreiou. Gosto muito do Ozon, assisti outro dele que é muito bacana faz pouco tempo, 8 mulheres. Bem, valeu pelo comentário, deixe outros. Um abraço.

    Leandro

  3. Rubia disse:

    "A constante conversão da experiência amorosa em discursos empobrecidos e idealizados, que repetem apenas as mesmas experiências esvaziadas, que nada mais são do que eterna repetição da mesma farsa".
    Usou as palavras exatas para explicar esse ato, essa busca sem fim pelo "amor".

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