Anatomia do Medo de Akira Kurosawa

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Depois de assistir Anatomia do medo, mais um belo filme de Akira Kurosawa, é impossível não lembrar de um breve trecho de Multidão, um dos belos livros de Antonio Negri e Michael Hardt: a guerra, ao longo da modernidade, sempre foi um elemento da vida social; ela não dominava a vida. A guerra moderna era dialética no sentido de que todo momento negativo de destruição implicava necessariamente um momento positivo de construção da ordem social. As armas de destruição global rompem a moderna dialética da guerra. A guerra sempre envolveu destruição de vida, mas no século XX esse poder destrutivo chegou aos limites da pura produção de morte, simbolicamente representada por Auschwitz e Hiroshima. A capacidade de genocídio e destruição nuclear atinge diretamente a própria estrutura da vida, corrompendo-a, pervertendo-a. Quando isso ocorre, a guerra torna-se propriamente ontológica. Creio que o tema central do filme é justamente o dilema da razão diante dessa condição ontológica da guerra na contemporaneidade. Esse dilema se manifesta nos infortúnios do protagonista do filme, Kiichi Nakajima. Ele é o patriarca de uma família numerosa que cresceu e se manteve graças ao sucesso de uma fundição em alguma região do Japão. Porém, apesar do seu poder e de sua bonança financeira, existe algo que começa a apavorá-lo: a possibilidade de um novo bombardeio nuclear que acabaria dizimando toda sua família (o filme se passa em alguma data pouco posterior aos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki). Essa ideia, que inicialmente era apenas uma leve preocupação, começa a se tornar uma verdadeira obsessão. Tudo que Nakajima pensa é como encontrar uma forma de proteção, alguma estratégia que o resguarde da ameaça destrutiva que ele vislumbra. E depois de algumas tentativas ineficazes, ele finalmente encontra aquilo que lhe parece a solução perfeita, fugir do Japão e migrar para o Brasil. O plano parecia ótimo, afinal partiria em busca de terras férteis e seguras, nas quais sua família poderia trabalhar e recomeçar uma vida sem o medo da ameaça nuclear. Porém, seus herdeiros não enxergam as coisas do mesmo modo. Todos ficam ultrajados diante da possibilidade do patriarca em se desfazer da fundição e abandonar uma vida estável em troca de uma aventura em terras tão distantes. Seus filhos tentam convencê-lo a todo custo da loucura que está prestes a realizar, mas ele permanece irredutível. O impasse provoca uma disputa judicial entre o patriarca e seus herdeiros. Estes alegam que o pobre homem perdeu a razão, por isso deve ser declarado mentalmente incapaz, do contrário é o patrimônio da família que se encontrará ameaçado. Os juízes não demoram a se posicionar diante de tão extravagante imaginação, decidindo pela interdição de Nakajima. Todos considerem que o temor de Nakajima é completamente absurdo, uma loucura completa. Apenas um homem parece não concordar com o julgamento, mas ele também não consegue convencer os demais. Isolado e desesperado, Kiichi se afunda irremediavelmente no seu próprio medo. A impossibilidade de levar seu plano adiante, já que fora declarado incapaz e não poderia negociar a troca de sua propriedade por terras brasileiras, provoca uma espécie de colapso emocional. A lucidez diante da possibilidade de uma destruição global é acompanhada por uma espécie de impotência, não há nada que ele possa fazer contra tão imensa ameaça. Nesse sentido, Kiichi Nakajima pode ser visto como uma espécie de metáfora de uma razão (crítica) impotente, incapaz de transformar a condição ontológica ocupada pela guerra na contemporaneidade. A possibilidade de uma suprema destruição está definitivamente inserida no exercício da soberania e a guerra deixa de ser uma mera etapa da existência. Ele percebe, com todo seu desespero, que a morte e a destruição irrestrita finalmente se confundem plenamente com as prerrogativas do poder, o qual se torna efetivamente numa espécie de biotanatopolítica. Só que essa consciência é uma consciência impotente, triste e amedrontada. Incapaz de um gesto afirmativo, ela resulta apenas num delírio inconseqüente. Ao contrário dos demais, Nakajima é aquele que enxerga a racionalidade do mundo contemporâneo, que adentra na mola estruturante da ação soberana. Só que uma vez lá dentro, diante da racionalidade do soberano (ou melhor, da governamentalidade do mundo contemporâneo), o único refúgio que lhe resta é a própria desrazão. É uma espécie de gesto niilista, de crítica que se mostra incapaz de desconstruir a razão que lhe movimenta. Sem alternativas, incapaz de ir além de si próprio, o caminho da crítica é o mesmo de Nakajima, tornar-se um simples delírio impotente.

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