Antes da Meia-Noite de Richard Linklater

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antes da meia-noite

Antes da Meia-Noite é tanto um desdobramento, uma espécie de continuação, quanto um deslocamento daquilo que foi tratado nas duas partes anteriores da trilogia do diretor americano Richard Linklater. Se, como disse antes, os primeiros filmes tratavam do encontro amoroso, tematizado a partir de dimensão ambivalente de potência e risco, o novo filme continua refletindo sobre a condição amorosa, porém não mais do ponto de vista do encontro enquanto um acontecimento singular, portanto como algo que se realiza na suspensão da mundanidade, mas ao contrário, reflete sobre o amor na sua duração e na ameaça que esta representa para a experiência a dois. A trama acontece nove anos após o (re)encontro de Jesse e Celine em Paris, durante uma viagem de férias do casal pela Grécia. Agora não estamos mais diante de dois jovens enamorados, que experimentam uma descoberta diante de um outro misterioso e cativante. A potência da descoberta é substituída pela vivência da rotina e dos problemas cotidianos: filhos, contas, empregos, cuidados com a casa, amigos, viagens, brigas, etc. O risco de perder-se naquilo que há de desconhecido no outro é ultrapassado pelo hábito de estar diante de alguém cada vez mais familiar e previsível. Entre Jesse e Celine parece que resta apenas uma espécie de cansaço. A vida mundana, isso que chamamos de dia-a-dia, ou de cotidiano, transformou o estar-junto num entendiar-se mutuamente. Nesse sentido, a mobilidade que víamos nos filmes anteriores, quando o encontro amoroso resultava num impulso que transbordava o sujeito amoroso, possibilitando uma transformação (ainda que de forma arriscada) que ocorria pela simples presença do outro, parece suspensa ou imobilizada. Esse sentimento de imobilidade fica mais evidente na composição do filme, quando comparada com as partes anteriores. O que constituía o elemento central da trama era a perambulação dos protagonistas pela cidade em que se localizavam (Viena ou Paris), como se o que fosse próprio do apaixonar-se fosse o gesto do caminhar. Andar e conversar, movimento e amor. Agora, porém, o espaço de movimentação é muito mais restrito. Há ainda esse momento. Mas ele está interpolado por outros, no qual o movimento não se faz presente. Pode ser tanto na conversa em torno da mesa do almoço, ou ainda mais claramente, a longa briga no quarto do hotel. O não-movimento no espaço corresponde a uma dificuldade de se movimentar na relação, de continuar se transformando na presença do outro. A duração, assim, parece se constituir num lento esvaziamento de uma potência amorosa originária. O casal seria aquele que persevera no tédio, aniquilando na rotina toda a potência que lhe originou. Porém, no interior dessa relação arruinada pela crise, quando parece não restar mais nada daquela dimensão amorosa que unira o casal, abre-se um espaço para outra espécie de encontro: uma espécie de recomeço ou redescoberta. A duração que sufoca pode ser também a que reinventa o encontro (e nesse caso, a ideia de reinvenção é muito adequada, na medida em é por meio de uma encenação que o casal encontra um espaço para ultrapassar o próprio tédio). Em grande medida, a conclusão da trilogia de Linklater se revela uma aposta nessa possibilidade de afirmação do amor, de reafirmação da possibilidade do encontro perseverar na duração. Uma aposta que se reinveste de um sentido ético, recomeçar aparece como uma disposição para potencializar aquilo que fora esvaziada pela rotina. Nesse caso, a experiência amorosa aparece como a contraposição da própria vida (afinal é a vida, enquanto rotina, que ameaça a experiência amorosa de Jesse e Celine), naquilo que ela tem de mundanidade (a banalidade da rotina e suas infinitas repetições). A possibilidade de afirmar e reafirmar a experiência amorosa é também uma possibilidade de se lançar para além e contra a banalidade mesma da vida.

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One Comment to “Antes da Meia-Noite de Richard Linklater”

  1. [...] 3. Antes da meia noite [Before Midnight, EUA, 2013], de Richard Linklater [...]

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