As canções de Eduardo Coutinho

2

O novo filme de Eduardo Coutinho, As canções, é uma espécie de desdobramento daquilo que fora iniciado em Jogo de Cena. Tanto lá quanto cá, são filmes que registram breves depoimentos, vivências cotidianas, pequenos relatos afetivos. Num primeiro olhar, porém, existe uma grande diferença entre as duas obras. No trabalho anterior, existia uma espécie de dispositivo que colocava em xeque a condição mesma do discurso documental: a mistura entre pessoas “comuns” e atrizes embaralhava a noção de verdade que costuma sustentar esse gênero fílmico. Uma verdade que sempre se sustenta pela condição confessional do discurso. A verdade documental ocorre quando as pessoas estão dispostas a se confessar diante das câmeras. O efeito desse dispositivo era bastante intenso, embaralhando a condição confessional do documentário, na medida em que não ficava mais claro o que era simplesmente relato e o que era encenação. Em As Canções parece não existir tal dispositivo. As pessoas filmadas aparecem apenas enquanto tal, homens e mulheres que aceitaram ingressar no jogo documental, confessando suas íntimas lembranças diante das câmeras. O que estrutura essas narrativas é uma espécie de investigação sobre o vínculo intenso entre música e memória. Todos os entrevistados foram escolhidos por essa razão, para falar sobre a música que marcou a vida deles. É como se estas canções funcionassem como um fio que aproxima o presente do passado, entre o instante da entrevista e a lembrança que ficou para trás. A tese do filme é que as canções trazem à presença aquilo que se tornou ausente. O amor perdido, o pai morto, a juventude que passou, etc. Nesse caso, As canções não seria nada mais do que um registro dessas verdades íntimas, bem aos moldes de muitos outros documentários que buscam apenas deixar falar, deixar confessar. Não é gratuito que o próprio diretor mencionou, no breve debate após a sessão, que há quem acredite que sua nova obra realiza um recuo em relação aos experimentos realizados antes. Não vejo dessa forma. O que se passa é a introdução de outro dispositivo, outra forma de questionar a própria natureza do registro confessional. Novamente, a peça chave para o funcionamento desse dispositivo é o palco. A filmagem não esconde sua artificialidade: vez ou outra, acompanhamos a entrada e a saída daquele que será entrevistado; vemos também as indagações de alguns, os mais tímidos, que não sabem muito bem como se comportar diante das câmeras. O que dizer, o que lembrar, como lembrar? São as dúvidas que aparecem ocasionalmente, que se destacam nos pequenos gestos dos entrevistados. Aos poucos, percebe-se que estamos diante de uma grande encenação, cada um a sua maneira, assume e desenvolve um papel, uma reconstrução de si próprio. No palco, porém, não estamos diante de um espetáculo tradicional, como a leitura de um texto dramático, mas sim uma encenação de experiências afetivas, de narrativas de vida. Essa encenação é uma reconstrução, uma reinvenção de uma memória, de uma ausência. É por isso que a música se torna importante: é por meio dela que se encena, se reinventa a si próprio. É como se a própria confissão não passasse de um engodo, não no sentido negativo de mentira ou falsidade, mas sim como uma tentativa de criar um personagem que chamaríamos de subjetividade ou de intimidade. A música ocupa o lugar do texto dramático, do suporte que permite a criação desse personagem que se confessa diante das câmeras. Não é gratuito que os entrevistados masculinos e os femininos escolham temas tão distantes. E mesmo a escolha das músicas, mesmo quando se repetem, aparecem de maneiras totalmente diversas. A vontade de se reinventar é também a criação de uma autoimagem e nisto parece ser bem difícil, por exemplo, que um homem aceite colocar-se na posição de corno, do abandonado. Já para as mulheres, parece ser muito mais fácil assumir este papel. Existe uma autoimagem de gênero muito delineada, como se fosse esperado enxergar mulheres que amam exageradamente e não são retribuídas. Essa reflexão dos papéis de gênero, por si só, já valia o filme e merecia uma longa discussão (que não é exatamente o meu foco aqui). De qualquer modo, o que me interessa é que esse novo procedimento, longe de ser um recuo, me parece muito mais uma radicalização. É como se ele levasse ao limite extremo a desconstrução do valor de verdade que damos para nossas confissões. Toda confissão é uma encenação. Esta encenação está sempre ameaçada por uma vontade de verdade, que se esforça por reduzi-la à uma manifestação da verdade do sujeito. É dessa redução, por exemplo, que se sustenta todo dispositivo psi. Há também outra possibilidade, a transformação dessa encenação numa experiência estética e afetiva. O procedimento de Coutinho é luminoso na medida em que evita essa redução dos seus personagens a simples sujeitos psicologizados, mas possibilita uma criação de um campo estético, convertendo essas narrativas em uma experiência erótica, nos dizeres do próprio diretor. Presenciamos um esforço de liberdade, de criação e de invenção. Um esforço que trabalha para além da distinção entre documentário e ficção, de registro de verdades e de criação artística. Talvez seja por isso que a obra produza um efeito catártico tão grande nos espectadores, apesar da simplicidade dos relatos, é difícil não se emocionar.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

2 Comments to “As canções de Eduardo Coutinho”

  1. Não vejo a hora de poder conferir esse filme. Quanto mais simples a ideia, mais parece promissor. Coutinho é rei!

Leave a Reply

*

*

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.