Bartleby de Herman Melville

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Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street, do escritor americano Herman Melville, é um texto arrebatador. Em pouco menos de 40 páginas, o autor cria uma imagem poderosa, encarnada na figura de Bartleby, um escrivão que se recusa a copiar.

O personagem que, a princípio, parecia apenas um trabalhador ordinário, uma figura apagada e meio sem vida, que apenas realiza seu trabalho, sem destaque ou energia, acaba se revelando uma entidade absolutamente singular.

O singular é aquilo que estilhaça a absoluta tranqüilidade do cotidiano, que desfaz todas as expectativas e instala uma nova ordem, absolutamente diversa da anterior. É isso que Bartleby realiza no escritório onde trabalhava. Isto porque, numa ocasião, após receber uma ordem do advogado que o contratou, o escrivão responde, “com uma voz singularmente amena e firme”, simplesmente acho melhor não.

Sua recusa desabilita toda a possibilidade de comando e de exercício do poder do advogado. É como se ele enunciasse uma “fórmula devastadora, que não deixa nada subsistir atrás dela”, que torce a possibilidade mesma da linguagem, que torna qualquer reação impotente, incapaz de continuar a submetê-lo.

A ferocidade desta fórmula é tamanha que chega a ameaçar o próprio funcionamento normal da sociabilidade dentro do escritório. A absoluta recusa de Bartleby é contagiosa e incontrolável. A sua constante reiteração, respondendo a qualquer demanda sempre com um acho melhor não, cada vez mais eloqüente e perturbador, fecha toda a possibilidade de ação numa inatividade absoluta e insuperável.

A vida vazia de Bartleby, apenas um funcionário burocrático, sem gostos ou histórias, sem um passado e sem nenhum desejo, encontra a única forma de resistir a sua própria vacuidade. O que o escrivão expressa é o grito de um “corpo que não agüenta mais”, que não pode mais suportar uma existência tão apagada.

Dessa maneira, ao escolher este caminho, embrenhando-se cada vez mais no apagamento da sua passividade, Bartleby se torna o verdadeiro antípoda da sociedade – a sociedade que demanda apenas ações mecânicas e desprovida de desejo, ou melhor, que transforma o desejo em disciplina e norma. Que demanda apenas gestos mecânicos, esvaziados de qualquer potência, de qualquer singularidade. O que ele recusa é continuar vivendo apenas uma vida nua e vazia.

O seu gesto transgressor perturba a normalidade de uma maneira tão profunda que a torna quase inexistente, que a ameaça e a leva ao limite. Logo, sua presença exige um ato restaurativo, um golpe capaz de reintroduzir a normalidade da vida ordinária. Ao optar pela passividade, Bartleby se torna o único verdadeiro excluído de uma sociedade que opera por mecanismos cada vez mais inclusivos, que captura cada vez com mais eficiência a singularidade de todos os gestos. Resta, assim, apenas sua completa exclusão do corpo social, do contrário há o risco do singular restaurar a sua centralidade na criação de modos de vida.

Bartleby, afinal, manteve a sua opção inabalável, desejou, até o fim, se manter na sua passividade a retornar a sua vida esvaziada. A força do seu gesto se transforma num emblema que sinaliza para a necessidade da recusa, de se reintroduzir no cotidiano o acho melhor não.

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