Bastardos Inglórios, a história e a estória

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Eu lembro que, num dos primeiros textos do blog, mencionei uma velha diferença vocabular entre história e estória. Uma diferença esvaziada atualmente. Muitos dicionários não chegam nem a registrar o segundo vocábulo. Ainda assim, acho apropriado retomar essa diferença para tratar de Bastardos Inglórios, o último filme de Tarantino. Como atesta o dicionário Houaiss, história é, entre suas múltiplas definições, o “conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade, segundo o lugar, a época, o ponto de vista escolhido; a seqüência de ações, de acontecimentos reais ou imaginários; enredo, trama; narração de eventos fictícios ou não; narrativa, estória”. Já estória, segundo o dicionário Michaelis, seria a “narrativa de lendas, contos tradicionais de ficção”. Esta diferença remonta ao inglês, no qual há dois termos correlatos: history e story; porém, tal divisão não se apresenta nas demais línguas européias. O que o inglês realiza é uma tentativa de resolver um problema importante a respeito da natureza mesma do termo história. Como nos conta Jacques Le Goff, um célebre historiador francês, a palavra surgiu no grego antigo derivado da raiz indo-européia wid-, weid, “ver”, daí que no grego histor significa “testemunha”, “aquele que vê”, “aquele que sabe”. Com isso, Historie significa “procurar”, “investigar”. A partir disso, o historiador explica que nas línguas românicas o termo história acaba encerrando três significados principais: 1) a ciência histórica; 2) a narrativa das realizações dos homens; 3) a narrativa, verdadeira ou falsa, com base na “realidade histórica” ou puramente imaginária, uma narrativa histórica ou uma fábula. O problema, portanto, reside na natureza epistemológica mesma da narrativa histórica, como traçar o limite entre verdadeiro e o falso, fato enunciado nas diferenças vocabulares entre história e estória. O esvaziamento (anulando o segundo termo) dessa distinção não atesta a resolução desse problema, mas tão-somente a aceitação, no uso comum da língua, de que não há mais motivos para problematizar a questão. Em outros termos, há um campo próprio à ciência histórica, que trata da verdade, e há outro próprio da ficção. Mais do que isso. Há uma valorização do primeiro em detrimento do segundo. O “efeito-verdade” é fundamental para legitimar o olhar contemporâneo sobre o mundo. Basta lembrar o apelo e sucesso dos reality-shows, mas também da multiplicação ao infinito das cine-biografias, biografias e outros relatos verdadeiros sobre o passado. Há uma verdadeira inflação da história, que suga e esvazia a estória, parece que mais do que nunca as pessoas se converteram em ávidas consumidoras de história. Com isso, o “efeito-verdade” sacraliza e garante um ponto fixo, que dá estrutura e lastro, para nossas narrativas. O que se passa em Bastardos Inglórios é exatamente o contrário. O filme narra as aventuras de um pequeno grupo militar, composto apenas de judeus, que se infiltraram na França ocupada, com o único objetivo de matar nazistas. A missão deles é bem simples: emular a barbárie própria dos seus inimigos, agir com a máxima selvageria e violência, sem limites, sem regras. Até esse ponto, não há nada que impeça a realização do mesmo circuito de verdade que contamina nossas narrativas, enchendo o filme de um realismo reverencial. Porém, o que acontece é o contrário. O desenvolvimento da trama caminha rapidamente para o absurdo, contradizendo “fatos históricos”; representando personagens reais de forma exagerada, beirando o ridículo (como o próprio Hitler); chegando ao ponto máximo de adulterar totalmente a narrativa canônica da Segunda Guerra. Na contramão do discurso hegemônico, o filme implode a história, convertendo-a em pura estória. Com isso, é a própria sacralidade da narrativa histórica que pode ser desfeita, lembrando ao espectador o quanto aquilo não guarda nada de fixo. Basta comparar Bastardos com outras narrativas que tratam do mesmo período, o grande exemplo que me ocorre é A Queda, uma cinebiografia dos momentos finais de Hitler. Tudo que esta realiza de reverencial, de fiel, de pesquisa, não existe na obra de Tarantino. O problema dessa atitude reverencial é que ela ajuda a naturalizar o que não é natural, oculta os jogos de poder que colocam em circulação os “efeitos-verdades”, deixa longe do olhar o fato de que a verdade mesma é resultado desses jogos. No fundo, o problema é que guardamos, mais do que nunca, a crença de que o conhecimento verdadeiro do passado é a chave para ordenar a ação mesma do futuro, há sempre uma fé oculta nessa função instrutiva do passado, por isso é tão importante inflar a história de um valor de verdade. É a velha questão: Pra que serve a história? Uma questão que não faria sentido se formulada nesses termos: Pra que serve a estória? Mas, então por que será que atribuímos um valor diferenciado para o testemunho verdadeiro e para o inventado? Será que há alguma diferença de fundo na utilidade da história e da estória?

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2 Comments to “Bastardos Inglórios, a história e a estória”

  1. ptvmj - danilofc@hotmail.com disse:

    Oi Lenadro, o que você acha de lutarmos pela extinção da disciplina "História" e no lugar criarmos a disciplina "Borges"? rs. Parabéns pelo texto.
    abs, Danilo

  2. adriano.osm disse:

    Eu sou um grande admirador da HISTORIA da 2a Guerra já que minha Bisavó paterta fugiu da Alemanha, onde deixou toda a familia. Achei o filme legal pela estória, mas concordo com vc, onde devia deixar bem claro antes e depois que trata-se de uma grande INVENÇÃO, e no minimos fizessem uma Menção Honrrosa ao que historicamente foi o maior Terror de todos os tempos.

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