Billy Elliot de Stephen Daldry

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Billy Elliot, do diretor Stephen Daldry, é um daqueles filmes repletos de sentido político, mas sem cair em nenhuma forma de panfletarismo ou didatismo que sempre ameaçam o gênero. A história se passa em meados de 1984, numa região mineradora da Inglaterra, durante a última grande greve organizada pelos sindicatos dos mineiros locais. Mais do que uma simples greve que reivindicava melhores condições salariais, tratava-se de um enfrentamento político da maior importância: a greve era uma tentativa de fazer frente às reformas idealizadas pelo governo de Margareth Thatcher, especialmente orientadas para o desmantelamento da organização sindical como uma força social relevante. Apesar da força dos trabalhadores, que resistiram em greve durante um ano, no final o movimento foi obrigado a capitular, sem nenhuma negociação ou ganho. Pode-se dizer, assim, que esta longa greve representa o canto do cisne de uma forma secular de luta política e social dos trabalhadores europeus. É nesse contexto que acompanhamos o desejo de Billy Elliot, um pequeno garoto de família mineira, ingressar na mais importante escola de balé da Inglaterra. Para tanto, não basta superar a rigorosa seleção, mas também enfrentar toda sorte de incompreensão, tanto de seu pai e irmão, quanto da comunidade que o cerca. O caminho natural do menino era acompanhar os passos de sua família, ou seja, assumir o rígido e másculo papel que cabe a todos aqueles que viveram suas existências dentro das minas. Por isso, ele deveria praticar boxe, onde exalaria toda agressividade que o mundo das minas exige. Porém, Billy se mostra absolutamente desconfortável com essa existência, incapaz de qualquer sucesso nesse exercício de força. Sua potência é de natureza toda diversa. Não são os movimentos agressivos do boxe que lhe encantam, mas a poesia da dança e do balé. É lá que Billy consegue encontrar algum alívio para a existência aflitiva na qual todos estavam imersos. É óbvio que essa opção vai provocar uma ativa resistência de seu pai e, especialmente, de seu irmão mais velho. Como aceitar que o membro mais novo da família assuma um papel tão pouco masculino? Para eles é como se o menino renegasse o próprio mundo no qual vivem: as minas, o sindicato, a luta, a greve. Um mundo que está desmoronando, vivendo seus últimos lampejos. É aí que o filme realiza seu mais belo movimento. Mais do que contar apenas uma boba história de superação pessoal, daquelas que as narrativas de auto-ajuda tanto gostam, o filme desloca o problema mesmo da política. Afinal, os desejos de Billy, longe de negar a luta política, possibilitarão um novo sentido para a luta. O esgotamento do movimento sindical, da greve como um instrumento político de primeira grandeza e dos grandes combates contra o sistema, colocam o problema da ação num plano absolutamente diverso. Não são mais os grandes atos, mas os pequenos gestos que ganham uma relevância decisiva. É isso que se manifesta na decisão tomada pelo pai de Billy. Apesar de todos seus preconceitos e resistências, ele acaba contagiado pela beleza do intenso desejo de dançar que move o menino. Essa coisa tão pequena, aparentemente tão insignificante, consegue desarticular toda a força dos pequenos fascismos, tão cheios daquele amor do poder, que mobilizava a todos. É a força desse afeto que inspira um gesto de abertura radical: o pai de Billy decide furar a greve, abrir mão de suas convicções, numa espécie de supremo sacrifício para conseguir o dinheiro necessário para a participação do menino no exame de ingresso na escola. Nisso se manifesta aquilo que Foucault chamou de uma arte para uma vida não fascista. Na falência mesma da luta política tradicional, cheia de ascetas políticos e militantes sombrios, uma luta despotencializada e ressentida pelas voltas da História, que martela insistentemente uma vontade uníssona de comando, abre-se novas possibilidades de existência, menos totalitárias e mais intensas, capazes de novos afetos. É como se a grande possibilidade de um ato político significante resida nessa abertura ao desejo do outro. Dessa maneira, pode-se enxergar nas derrotas do movimento trabalhista não o fim da política, como tantos falam, mas sim o seu deslocamento numa nova direção. Pode ser menos charmosa, afinal quem nunca sonhou em mudar o mundo, mas certamente é mais intensa e valiosa. No final das contas, esse belo filme não é nada mais do que um elogio da potência transgressora e única dos desejos. O que o transforma numa obra verdadeiramente política.

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2 Comments to “Billy Elliot de Stephen Daldry”

  1. Jose Ramon Santana Vazquez disse:

    …traigo
    sangre
    de
    la
    tarde
    herida
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
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    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro…

    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ

    TE SIGO TU BLOG

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía…

    AFECTUOSAMENTE
    LEANDRO

    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DEL FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER , CHOCOLATE, EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO.

    José
    Ramón…

  2. Leandro disse:

    Olá José,

    Gostei muito do seu comentário. Fico feliz que siga meu blog. Um abraço e volte sempre.

    Leandro

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