Canções de Amor de Christophe Honoré

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A trilha sonora, usualmente, possui um papel complementar muito importante para a construção de um filme. Quase sempre, ela reforça a força das imagens, dos personagens, do enredo, se plasmando de maneira tão intima ao filme que quase não é possível pensá-lo sem ela. É raro, porém, que a trilha sonora estruture o filme em torno de si. Canções de Amor é um destes casos. O filme, um musical bastante singular, foi inspirado nas canções do disco Garçon d’honneur do cantor francês Alex Beaupain. Ao diretor Christophe Honoré só bastou o ato taumaturgico de transmutar as canções num enredo fílmico e pronto: um resultado genial. O filme conta a história de Ismael, interpretado por Louis Garrel, que vive num relacionamento com duas garotas, Julie e Alice. No início, parece que o enredo todo vai girar em torno dos conflitos desse relacionamento complexo, porém o filme impõe uma fissura trágica nesta expectativa inicial: a morte súbita de Julie. O absurdo dessa situação, uma jovem que sofre um ataque cardíaco, determina um novo ritmo para a narrativa. Ismael aparece como a figura trágica do amante que sofre a dolorosa perda do seu objeto amoroso. Esta situação desnorteia suas ações e o afasta de tudo que poderia ligá-lo à experiência trágico-afetiva, em especial de Alice. A dor do luto parece sobrepujar suas forças. Porém, um novo evento, uma nova fissura, agora capaz de abalar a própria experiência trágica que havia posto em movimento a trama do filme, redireciona os rumos do personagem. Este acontecimento é o encontro com Erwann, um estudante que tenta a todo custo se aproximar de Ismael, reinvestindo nele a experiência afetiva da qual ele tanto tentava se desligar. A experiência do luto é retratada como a própria impossibilidade do recomeço, é a dor do amante ferido e que, por isso, tenta se proteger de uma nova dor. Nesse sentido, a figura de Erwann tem um papel importante para arrancar Ismael do seu imobilismo: ele representa a força do acontecimento (evenementielle) que é capaz de reintroduzir na trama a historicidade que fora ausentada. Não dá para deixar de sentir os ecos espinozanos dessa experiência, a força disruptora dos afetos, capaz de ampliar nossa potência de ação. O luto só pode ser superado pela reintrodução da experiência amorosa, do gesto amoroso, do contato erótico dos corpos, do puro afeto. É a passagem de um amor rompido para um amor que rompe. E para isso tudo funcionar, as canções possuem um papel central. Não é gratuito que, numa das mais belas, Erwann (esqueci de mencionar que são os próprios atores que interpretam quase todas as canções) cante um hino ao amor ligeiro, um hino para aqueles que amam apenas pela beleza do gesto: As-tu déjà aimé, pour la beauté du geste?. É sobre isso que trata Canções de Amor, sobre esse amor desprendido, capaz de inflar o corpo dos amantes, um amor esvaziado de qualquer expectativa (les amours qui durent, font les amants moins beaux, leurs caresses, à l’usure, ont raison de nos peaux.), sempre um recomeço, pura beauté.

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One Comment to “Canções de Amor de Christophe Honoré”

  1. IcaroReverso disse:

    as ressonâncias diante do sublime aparecem para reverdejar o puro afeto, enquanto aquilo que ambienta o encontro com o sublime se quebra. Tragédia imiscuida que seduz tríades e pares.

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