Capitu

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A adaptação de Luis Fernando de Carvalho para a obra prima de Machado de Assis resultou numa belíssima, guardando um pouco do espírito de José Dias, reflexão sobre a força do ciúme. A trama é por demais conhecida: Bento Santiago, já na madureza da idade, resolve ajustar as contas com sua vida, “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”, escrevendo suas memórias. Estas começam numa “célebre tarde de novembro” quando Bentinho toma consciência de sua paixão por Capitu, vizinha e amiga de infância. Suas memórias vão reconstruindo a dolorosa trama desse relacionamento consumido pelo ciúme doentio do narrador. Acredito que a grande dificuldade em adaptar o texto para uma linguagem visual é encontrar um meio capaz de recuperar toda a ambigüidade de uma narrativa tomada pelo desgosto e o ciúmes, escapando de uma postura demais objetiva e realista. As memórias de Bentinho estão muito mais coladas aquela trama onírica própria aos delirantes, desgovernados pelo ciúme, do que a fria narrativa da realidade. O grande mérito da adaptação de Carvalho está na maneira como conseguiu dar vida a essas imagens delirantes. Tudo é exagerado, desmedido, deslumbrante. Dom Casmurro, consumido pelas suas lembranças, surge como a quintessência dos insensatos, pronto para contar os detalhes de sua história, para apontar ao espectador os detalhes de sua tragédia. E como é próprio aos insensatos, os mínimos detalhes são os mais relevantes. Por isso tudo precisa ser representado nos detalhes, toda a caracterização da série é detalhada ao máximo, o que gera uma estética que transborda a sensibilidade daquele que assiste. É quase como se não fosse possível acompanhar o bombardeio de imagens e sons que dão vida às lembranças de Bentinho. Há toda uma teatralidade dos excessos, o que não poderia ser diferente, afinal o próprio narrador lembra que “a vida é uma ópera e uma grande ópera”. São esses excessos, maniacamente detalhados, que recriam o universo próprio do ciúme, que permitem ao narrador encontrar os elementos que dão sentido a sua obsessão, o ciumento surge como o grande hermeneuta dos signos amorosos, aquele indivíduo único que é capaz de decifrar os mais ínfimos detalhes para encontrar uma verdade particular. É essa a grande beleza da adaptação de Carvalho, dar vida e imagens à realidade particular do ciumento. O grande drama do texto de Machado de Assis não é a veracidade da traição de Capitu, mas a força devastadora do ciúmes de Dom Casmurro, sua capacidade de inventar uma realidade mais forte do que qualquer realidade objetiva. A linguagem grandiloqüente e exagerada de Carvalho consegue, de maneira impecável, dar vida a esse drama. É, portanto, uma adaptação que consegue ao mesmo tempo se manter fiel ao texto original e também ir adiante, criando uma estética própria capaz de criar uma bela reflexão sobre a paixão e seu negativo, o ciúme.
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