Nos últimos anos, ainda que de maneira tímida, começaram a surgir os primeiros filmes que tentam refletir sobre as relações entre a internet e a sociabilidade contemporânea. Entre esses, temos alguns bem famosos, como o A Rede Social, e outros de menor repercussão, como Os Famosos e os Duendes da Morte ou Nome Próprio. Apesar das profundas diferenças, vemos neles um esforço comum de refletir sobre a íntima relação estabelecida entre a internet e a produção das subjetividades contemporâneas.

Nesse sentido, o documentário Catfish aparece como uma das mais interessantes contribuições para a reflexão sobre esta temática. O tema do filme (ou documentário, cabe ao espectador decidir se acredita naquilo como uma ficção ou um registro documental) é o relacionamento singular estabelecido entre Yaniv Schulman, um fotógrafo de Nova York, e Abby, uma pequena artista que vive no interior do Michigan. Os dois se conheceram através do Facebook, quando começaram a trocar algumas fotos e pinturas. Aparentemente, a garota se interessou pelas fotografias de Yaniv e começou a se comunicar com ele com o intuito de pintar quadros a partir delas.

Porém, logo a coisa foi ganhando outra direção. Yaniv passou a interagir com a família da garota, conversando com sua mãe (Ângela) e, principalmente, com sua irmã mais velha (Megan). Progressivamente, o interesse do rapaz se desloca da amizade com a criança e se concentra na relação estabelecida com Megan. Não é muito difícil de imaginar o que ocorre: os dois começam uma espécie de “namoro” à distância.

O filme acompanha o desenvolvimento desse relacionamento e a crescente expectativa de um encontro “real”. Só que existe um grande problema. A coisa toda não passava de uma grande invenção. O filme alimenta ao máximo o mistério, mas eventualmente o espectador esbarra com a revelação aterradora: nunca existiu uma Abby pintora, nem uma Megan apaixonada por seu amigo de facebook. Era tudo invenção de Ângela.

A segunda parte do filme gira em torno das investigações de Yaniv, que acabam revelando toda a mentira. Por isso, ele decide partir para Michigan e confrontar pessoalmente a pessoa que bolou tudo aquilo. No final das contas, Ângela é uma mulher de meia idade bastante insatisfeita com sua vida, que decidiu inventar uma espécie de nova personalidade virtual para aliviar suas frustrações. Ela inventou toda a história, criou vários personagens, alterou características e ações das pessoas que realmente existiam. Tudo para conquistar a atenção do ingênuo fotógrafo de Nova York. Infelizmente, a intensidade da experiência acabou desfeita com tanta rapidez quanto havia começado.

Essa possibilidade, ao mesmo tempo radical e efêmera, de reinvenção de si próprio, é o grande tema abordado pelo filme. Radical na medida em que Ângela utiliza um amplo conjunto de mecanismos para reconstruir sua própria personalidade. A coisa é muito maior do que a mera criação de um perfil falso no facebook. Ela inventa novos personagens que interagem e afirmam suas individualidades através dos espaços virtuais. É realmente impressionante acompanhar o detalhamento e o cuidado que ela utilizou nesse exercício de ficcionalização de si própria. Parece que nada lhe escapou (ou quase nada, afinal uma hora Yaniv acabou encontrando uma falha na trama).

Porém, ainda que as possibilidades de reinvenção sejam quase ilimitadas, há também uma fragilidade muito grande nesse processo. Não há uma espécie de lastro ou ponto de sustentação capaz de garantir a fixação dessas novas individualidades. Os personagens inventados por Ângela funcionam apenas na virtualidade da internet. Quando tudo é descoberto, acontece um desmoronamento daquele mundo de possibilidades, e resta apenas o retorno à pobreza do mundo “real”, com suas limitações e fixidez.

Essa oposição entre a fixidez e o deslocamento, entre uma personalidade estável e outra plástica e indefinida, permeia o discurso do filme. E é esse o grande aspecto da obra, na medida em que ela permite refletir um pouco sobre dois modos distintos de subjetivação. De um lado, encontramos aquela maneira típica da modernidade, na qual as singularidades se convertem em indivíduos, principalmente por meio do ingresso em diferentes espaços institucionais: a família, a escola, a indústria, etc. Todos esses lugares funcionavam de maneira conectada e a formação da personalidade funcionava necessariamente através da passagem por diferentes pontos desse grande dispositivo que chamamos de sociedade disciplinar.

Um ponto estruturante desse processo era o registro, talvez o mais importante mecanismo de determinação das particularidades individuais. Desde a mais tenra idade, quando a criança adentra ao espaço escolar ou de qualquer outra instituição, ela é marcada e catalogada, assumindo papéis estáveis e reconhecidos por todos: este é o bom aluno, aquele é o encrenqueiro, aquele outro é o deficiente, etc. Estas marcas não são restritas do ambiente escolar, mas circulam por outros espaços (inclusive no espaço íntimo, afinal o que era a escrita de diários ou cartas senão uma forma de registrar e exercitar a própria individualidade?). A sanha registradora é uma das marcas de nossa modernidade. Ela funciona como suporte de uma série de longos exercícios disciplinares. No final das contas, o indivíduo acabava se confundindo com os próprios registros, ganhando uma identidade e uma fácil apreensão do seu lugar no tecido social.

O que vemos na contemporaneidade é um processo bastante distinto. Existe uma espécie de reorganização dos processos de subjetivação. Como dizem, os cercados que costumavam definir o espaço limitado das instituições foram derrubados, de modo que a lógica que funcionava principalmente dentro das paredes institucionais agora se espalha por todo o terreno social. Por conseguinte, a indefinição do lugar de produção corresponde à indeterminação da forma das subjetividades produzidas. As instituições sociais imperiais podem ser vistas, assim, num processo fluido de geração e corrupção de subjetividade.

Não existe nada que evidencie com mais clareza esse processo de geração/corrupção de subjetividades do que o não-lugar do mundo virtual. Se antes era apenas através de lugares sociais fixos que se organizava o processo de individualização, agora a coisa funciona por meio de lugares dinâmicos e moduláveis. Este ganho de movimentação, porém, é acompanhado também por uma acelerada dissolução. Isso revela o caráter inerentemente líquido das subjetividades contemporâneas. É também uma maneira de compreender a forte crise institucional que atravessamos (a crise da escola, a crise da família, a crise dos partidos e sindicatos, a crise do mundo público, etc.).

Nessa nova configuração, é a própria estrutura dos registros que acaba modificada. Eles se encontram mais presentes do que nunca, mas agora precisam acompanhar a mobilidade dos processos de subjetivação. O que obriga a criação de mecanismos cada vez mais moduláveis e onipresentes. Uma das principais manifestações desses registros flexíveis são as redes sociais. É através delas que as subjetividades surgem, se manifestam e se corrompem, num processo contínuo e ilimitado. Hoje posso inventar um novo personagem, utilizá-lo ao máximo e quando cansar basta descartá-lo.

Estas duas maneiras de subjetivação não são excludentes e nem antinômicas, mas estão em constante tensão, deslocamentos e disjunções, possibilitando tanto o reforço dos processos de governança da vida contemporânea, quanto a abertura de novos espaços de resistência e de criação. É Ângela que sente todo o mal-estar criando por esse movimento. Ela não consegue realizar uma transição entre os processos virtuais e os processos “reais”, sofrendo com essa impotência. Seu desejo de libertar-se das amarras institucionais (no caso dela, a família), vivendo uma existência repleta de novas experiências, só pode se realizar através das suas identidades digitais, porém estas estão sempre em risco de rápida dissolução. Nesse confronto, ela encontra-se numa situação de paralisia e de apagamento. Por sinal, é essa posição de apagamento que justifica o título do filme: catfish é o famoso bagre, um bicho que serve apenas para manter outros peixes em bom estado de conservação. Ângela busca na internet uma espécie de escapatória dessa sua condição de bagre (por sinal, quem diz isso, no filme, é seu marido). É isso que transforma a trama do filme em algo muito triste e até meio angustiante.

Diante desse cenário, é muito forte o apelo da recusa, numa espécie de elogio do real e sua autenticidade humana. É como se a única possibilidade de existência é aquela dada pelos dispositivos de subjetivação da modernidade, como se aquele mundo que está acabando fosse a melhor maneira de conduzir nossas vidas. Se Ângela estivesse mais preocupado em viver sua própria vida, sem as ilusões da internet, ela certamente sofreria muito menos. Essa leitura reacionária (no sentido menos forte da palavra, de retorno ao que passou) é bastante forte, basta ver a freqüência dos discursos celebrativos dos bons tempos da família estruturada, da escola disciplinar ou da organização política em moldes partidários. Parece tudo muito bonito, mas no fundo esses dispositivos de subjetivação não passam de um maquinário de intensa produção de bagres.

Isso também não significa que a liquidez contemporânea possibilite a completa ultrapassagem dos mecanismos de controle tão presentes na modernidade. Muito pelo contrário. O controle nunca foi tão onipresente e intenso, porém é no interior desse maquinário que podemos encontrar novas possibilidades de dobra e de subversão. Do ponto de vista político, as novas potencialidades de resistência já começam a se tornar bastante visíveis. Basta observar o papel das redes sociais na organização dos movimentos revolucionários no Egito (uma pequena observação: alguns observadores contemporâneos continuam insistindo na tese de que as redes sociais não são capazes de auxiliar na ação política, é a tese da revolução não será twitada. Esse é um bom exemplo daquela visão reacionária que falei acima). E do ponto de vista ético, isso passa necessariamente por uma reflexão sobre as técnicas de si e os dispositivos de comunicação virtual. As possibilidades de ficcionalização de nossas próprias subjetividades implicam em relações muito diversas consigo próprio e especialmente com o outro (na medida em que o eu pode ser constantemente relativizado e reinventado, é noção mesma do outro que ganha um novo sentido).

No fundo, as duas coisas sinalizam para uma mesma situação: para o bem e para o mal, as redes sociais e os dispositivos virtuais estão no centro de qualquer experimentação do comum na contemporaneidade. É por meio deles que se torna possível a criação de novas práticas de compartilhamento e de convivência, mas é também neles que as práticas de governança e os dispositivos biopolíticos se reforçam e intensificam. Por isso, é tão importante refletir sobre o tema, buscando maneiras de ampliar esses espaços de encontros comuns.

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6 Comments to “Catfish, a subjetividade contemporânea e as redes sociais”

  1. Caru disse:

    Eu passei por situação muito semelhante à do Nev. Uma garota que aplicava golpes nas pessoas e ficava pulando de casa em casa, cometendo pequenos furtos, apelando pra compaixão dos outros. Ela inventava uma triste história de abusos na infância, adoção e um câncer que até hj (pelo que sei) ela ainda diz ter.
    Eu acabei desmascarando a garota quando percebi uma falha que me fez começar uma investigação. Assim como Nev tb.
    Eu consegui me livrar dela (que planejava dar um golpe em mim) e livrei a atual família com quem ela estava.
    Este foi pelo menos o quinto caso que soubemos que ela fez a mesma coisa. Eu cheguei a tentar alertar outras pessoas, mas acabei saindo como a menina má que persegue a doentinha. Enfim, a gente faz o que pode, né? Pior cego é o que não quer ver.
    Bem, meu depoimento é pra mostrar que acontece mesmo. Nós estamos cansados de ver isso na tv, mas geralmente só pensamos que acontecem com os outros.

    No ano passado, tb passei por experiências semelhantes com homens que viviam de mentiras tb. Necessidade de uma muleta emocional, mas isso já é mais comum. Só que agora se escondem atrás da internet e aproveitam dos recursos que ela fornece.

    Um abraço.

    Caru

  2. Carlos Eduardo Fernandes Junior disse:

    Foi com grande trsiteza que acompanhei o final do impossível relacionamento de Nev. Tenho me perguntado sobre os símbolos que as pessoas atribuem a essa ferramenta da comunicação. Acordamos e espiamos as últimas atualizações dos amigos da madrugada. Conversam consigo mesmo, em registros solitários do que é ter acesso a todos e acesso a ninguém. O público e o privado se confundem em uma terra aparentemente de ninguém. Ainda não compreendo bem o que move essa forma de relacionar-se, mas tenho absoluta certeza que já estamos em um período com outros pressupostos. É sempre bom acompanhar essa discussão. Parabéns pela reflexão.
    Carlos

  3. Leandro disse:

    Caru, essas histórias realmente acontecem e são tenebrosas. E isso é bem antigo, mesmo nos primórdios da internet (quando não existiam redes sociais, mas apenas as salas de bate-papo) já ouvia histórias dessas. De qualquer maneira, a questão que o filme lança, e isso que me parece importante, é como construir uma ética a partir das relações digitais. Enfim, acho que muito mais do que ficar imaginando as relações virtuais a partir de uma perspectiva puramente negativa, é necessário refletir sobre sua positividade, suas potencialidades. Coisa que ainda é muito difícil fazer. Um abraço e obrigado pelo comentário. Volte sempre.

  4. Leandro disse:

    Carlos, é muito triste mesmo a história dos dois. O desenlace final é de cortar o coração. A grande questão que o mundo virtual nos coloca é exatamente essa desarticulação de categorias que orientavam nosso mundo prévio. Como pensar em público e privado agora? E será que essas categorias ainda são importantes? Acho que não existe nada mais importante para a reflexão do que tentar entender e criar novas categorias que nos ajudem a agir nessa nova situação. E fazer isso sem o ranço da negatividade (aquilo que chamei de discurso reacionário). Como se a modernidade “realmente” tivesse sido o melhor mundo possível.

  5. Gilson Goulart disse:

    Achei o texto por acaso quando pesquisava justamente sobre a questão da subjetividade atual nas redes sociais. É um tema que me interessa muito e tive um grande prazer ao ler uma entrevista do Zygmunt Bauman no site Fronteiras do Pensamento que menciona a nossa realidade como líquida e que, ao contrário da pós-modernidade, não pretende se reconstruir ou solidificar. Vejo isso na atual subjetividade virtual estampada principalmente nas redes virtuais. Tenho pensado que acima de tudo, existe uma necessidade angustiante de se formar um simulacro de pessoa que nos torne atraente, que atraia seguidores (de modo geral), etc. O que me pergunto sempre é: quem será realmente a pessoa por tras do perfil glamouroso e intelectual ou descolado? E também o quanto é líquido e inconsistente o mundo construído por esses personagens. Parabéns, pelo seu texto, gostaria de publicar no meu blog com a sua autorização.

    • Leandro disse:

      Olá Gilson, acabei de ver seu comentário. Essa questão da liquidez também me interessa bastante, mas gosto de pensar nas possibilidades afirmativas dessa possibilidade. Por falar nisso, você já assistiu um filme do Woody Allen chamado Zelig? Tratei dele no texto mais recente do meu blog e acho que o filme pode te interessar. E claro, sinta-se a vontade para publicar meu texto no seu blog. Peço apenas, se possível, que você coloque o link do meu blog no texto. De resto, pode utilizar a vontade o que escrevo, modificar ou discutir no seu site.

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