Cidadão Boilesen de Chaim Litweski

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Cidadão Boilesen é mais um filme que aborda o período da ditadura militar brasileira. No meio de tantos outros títulos, fica até difícil de acreditar na possibilidade de se dizer alguma coisa nova. E no fundo, o documentário de Chaim Litweski não apresenta grandes inovações do ponto de vista historiográfico. A obra trata do percurso de um importante membro da burguesia paulista, o dinamarquês Henning Albert Boilesen, que se envolveu profundamente com a repressão aos “subversivos” no Estado de São Paulo. Seu envolvimento não foi apenas financeiro, fato partilhado por muitas outras personalidades importantes do período, mas chegou a participar de sessões de tortura e até mesmo auxiliar no aparelhamento e no aprimoramento das técnicas de tortura.

As íntimas relações entre a burguesia brasileira e o regime militar já são muito bem conhecidas, ainda assim a montagem do documentário consegue apresentar detalhes relevantes, de maneira concisa e dinâmica. Além disso, o filme realiza uma combinação muito interessante de relatos testemunhais e/ou jornalísticos com material ficcional, como as cenas de uma peça de teatro sobre o assunto, ou mesmo a utilização de farto material fílmico sobre o governo militar. O filme também escapa de um simples monólogo (algo muito comum em documentários sobre a ditadura militar), apresentando falas em defesa de Boilesen, como as manifestações do seu próprio filho, porém sem deixar nenhuma dúvida sobre sua participação em inúmeros crimes políticos cometido pelo regime de exceção.

Ainda assim, caso o filme fizesse apenas a recomposição dessas narrativas, seria apenas mais uma obra regular e didática, aquele tipo de trabalho que só é útil como material didático. O que é interessante no filme, e merece ser bastante problematizado, é a tese construída a partir da figura de Boilesen. Uma questão que se tornou importantíssima ao longo do século XX é sobre a responsabilidade individual daqueles que praticaram crimes durante regimes de exceção.

A questão ganhou notoriedade a partir do julgamento de um importante oficial nazista (Adolf Eichmann), que escapara dos tribunais do pós-guerra, mas acabou preso e julgado algum tempo depois. Eichmann ocupou um posto destacado na burocracia nazista e teve grande participação no esquema que tornou possível o funcionamento da “solução final”. Por isso, foi julgado por crimes contra a humanidade, contra a população judaica e por ter participado de uma organização criminosa.

Para se defender, construiu uma engenhosa argumentação que, em linhas muito gerais, poderia ser resumida na seguinte ideia: estava apenas cumprindo ordens. É a partir dessa defesa que a filósofa Hannah Arendt elaborou um conceito central para pensar o funcionamento dos regimes de exceção, qual seja, o de banalização do mal. Também de forma muito genérica, o conceito exprime aquela situação na qual o extermínio de vidas torna-se uma questão puramente burocrática, tal qual bater o carimbo num documento ou arquivar uma cópia de um contrato. É como se na excepcionalidade política, surgisse uma zona de indistinção tão profunda que mesmo um indivíduo sem histórico de violências poderia vir a praticar crimes atrozes contra outros indivíduos.

No caso do documentário sobre Boilesen, ocorre uma profunda inversão nessa lógica: ele não aparece apenas como um indivíduo que cumpria ordens, ou que concordou em financiar o regime de exceção para proteger interesses pragmáticos. Henning vai muito além, é um indivíduo que deseja o mal, que enxerga a tortura como uma espécie de prazer violento. Para demonstrar a tese, o filme realiza uma conexão entre dois tipos de discurso. O primeiro é o histórico escolar do jovem Henning. Após uma consulta aos arquivos dinamarqueses, o filme revela que Boilesen teve um histórico escolar bastante apagado, sem nada de relevante, exceto um pequeno acontecimento: certa ocasião, um colega de classe fora severamente castigado pelos professores e Boilesen acompanhou a punição com um prazer todo especial, fato que despertou a atenção dos professores e mereceu o registro escolar. Esse pequeno ocorrido talvez não despertasse nenhuma atenção especial, afinal crianças fazem essas coisas o tempo inteiro.

Porém, a questão é acompanhada por outro tipo de discurso, dessa vez de uma instância muito mais técnica e precisa: a palavra do psicólogo. Henning foi amigo íntimo de um psicólogo dinamarquês e esse indivíduo ocupa um espaço significativo na narrativa do documentário. Lá pelas tantas, ele faz uma consideração muito interessante, quando tenta explicar o profundo envolvimento de Boilesen nas torturas. Ele diz o seguinte: a cultura que ele encontrou na América Latina lhe deu oportunidade para viver seus pecados e seu lado mais escuro, coisa que ele nunca teria feito na Dinamarca, porque seria impedido pelo sistema, mas ele encontrou um país com um banquete à sua frente, para que ele pudesse seguir seus impulsos mais malignos.

A articulação desses dois discursos permite uma espécie de inversão, muito mais do que a banalização do mal, o que vemos no seu caso é a própria maldade, as pulsões mais destrutivas materializadas nas ações de um rico e bem-sucedido industrial de respeito. Pode-se dizer, por conseguinte, a partir da tese do filme, que a maldade é a condição psíquica própria de certos indivíduos, o que acaba por inserir a moralidade dentro de um dispositivo psi [1]. E a manifestação dessa dimensão oculta da existência individual dependerá, em grande maneira, da relação entre a estrutura psíquica individual e a estrutura social na qual está inserida.

O regime de exceção ganha um novo sentido, é aquele no qual a maldade latente em alguns indivíduos pode se manifestar livremente. Enquanto Eichmann subordinava suas ações a uma racionalidade burocrática – ele fazia apenas aquilo que lhe era ordenado – Henning agia fora de qualquer racionalidade, por isso aparece como uma figura excepcional no período. Mesmo que muitos outros empresários tenham financiado o regime militar, nenhum deles ganhou tanta visibilidade e provocou tanta revolta quanto o dinamarquês. Talvez por isso tenha sido ele que foi justiçado.

É a partir dessa tese que o filme tenta dar conta da complexidade da figura do empresário europeu. Apesar disso, há um que de teleologia na explicação, afinal é muito fácil justificar a posteriori qualquer tipo de comportamento. Mas esse não é o maior problema da tese. O que mais incomoda é que ela possibilita uma espécie de estranhamento radical. Quando observamos aquele indivíduo que carrega no seu íntimo a marca da maldade, logo sabemos que não somos como ele.

Isto o coloca numa posição de excepcionalidade, tanto em relação ao próprio espectador, mas também em relação aos demais agentes envolvidos com o regime militar. E ainda que essa não seja intenção imediata do filme, acaba ocorrendo uma espécie de esvaziamento das responsabilidades desses outros agentes. Mesmo que muitos depoimentos mencionem o envolvimento de outros empresários, a maldade mesma é um predicado exclusivo de Boilesen. E isso é um problema de primeira grandeza, pois o filme pode, em última instância, recair numa uma forma de terapia nacional ou terapia verbal que confina os problemas no passado (Negri e Hardt), eclipsando uma verdadeira possibilidade de crítica do presente. Esse é o risco da redução psicológica operada pelo filme. Quando a violência da exceção se torna ela mesma uma exceção, um caso quase patológico, não há muito espaço para uma crítica.

 

[1] Nesse sentido, o filme revela um aspecto muito curioso, como odispositivo psi funciona na mesma lógica do registro escolar. É como se pequenos acontecimentos transcorridos dentro do espaço escolar, mesmo aqueles de aparência mais banal, pudessem revelar traços importantes da personalidade individual. Por isso, a escola registra compulsivamente, na tentativa de capturar a essência mais íntima de cada um.

(Texto publicado originalmente em Cinefilia: cinema para ver e discutir)

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