Cinzas do Passado Redux

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Wong Kar Wai persegue, em seus filmes, um tema recorrente: o efeito dilacerante da perda como parte constituinte da experiência amorosa. Para expectadores como eu, que conheceram sua obra a partir das produções mais recentes, como Amor a Flor da Pele e 2046, é bastante interessante perceber como este tema já estava presente numa das suas primeiras obras: Cinzas do Passado (agora em versão) Redux. Filmado originalmente em 1994, o filme provoca uma interessante sensação de familiaridade, o que demonstra a rigorosa coerência do universo que Kar Wai cria em suas obras. Cinzas do Passado conta a história de um espadachim que abriu mão de sua arte, que agora vive apenas resolvendo os “problemas” daqueles que o procuram, agenciando outros espadachins para eliminar os inimigos de seus clientes. Sua única motivação é financeira, não se comove com nada, se recusa a arriscar sua vida sem receber uma grande soma em troca, nenhuma causa o move. Seu cinismo com o mundo é a forma que encontrou para lidar com seu passado, marcado pela dor do abandono, do desejo negado, da perda da mulher amada. Nos filmes de Kar Wai, o tempo sempre aparece dessa forma, como uma marcha imperturbável da dor paralisante, da pura infelicidade e impotência provocada pela paixão que não se realiza plenamente. Esta experiência do tempo, atualizada constantemente pelos registros da memória, contamina de tal forma a ação dos personagens que provoca um absoluto divórcio com o engajamento do presente. O tempo é aquilo que arrasta seus personagens para o imobilismo, uma amarra que não permite qualquer possibilidade de ação direcionada para adiante. Viver ligado ao tempo, na constante rememoração das lembranças doloridas, na pura experiência da perda e da morte, se torna a própria impossibilidade da vida. A historicidade, no universo de Wong Kar Wai, é o próprio campo da inexistência, da inatualidade, do inerte. Nesta situação, seus personagens só podem encontrar um certo alento, ainda que provisório, quando escapam dessa teia da memória, e com isso se desgarram de qualquer experiência afetiva. Cinzas do Passado trata disso. Dos caminhos que seus protagonistas tentam seguir para escapar das amarras do tempo: de um lado, o esquecimento, o desejo de abandonar todas as memórias, todas as lembranças dolorosas, transformar a vida num constante reinício, cheia de possibilidades, mas descarnada de qualquer experiência afetiva; do outro, o completo cinismo, na impossibilidade de se divorciar totalmente das próprias lembranças, o que resta é aceitar o absurdo da existência e se defender contra a dolorosa experiência afetiva. O mundo de Wong Kar Wai, como é evidente, tem um tom opressivo, doloroso, sufocante. O que é interessante em sua obra é a forma como sua fotografia ajuda a materializar o vazio afetivo de seus personagens. Há todo um conjunto poderoso de imagens, extremamente estilizado, cheio de cores e efeitos, nas quais cada detalhe trabalha para hipnotizar o espectador. A impossibilidade de realizar a passagem da potência do desejo ao gozo da paixão é retratada por uma estética do ornamento excessivo, da imagem que transborda e que anestesia os sentidos. Esta é, talvez, a marca mais genial de seu cinema, a profunda vinculação entre a imagem e a narrativa, a forma e o conteúdo, um universo profundamente coerente e harmônico, organizado segundo sua própria beleza interna.

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