Cisne Negro de Darren Aronofsky

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Existe uma tese que sustenta a trama de Cisne Negro e um problema inicial para refletir sobre o filme é tentar equacionar bem esta tese. O enredo é bastante conhecido, por sinal nunca vi tanta polêmica em torno de um filme. Nina é uma aspirante a estrela do balé. Sua vida se resume à busca do movimento perfeito, da técnica que lhe garantiria o sucesso irrestrito. Para isso, ela faz todo tipo de sacrifício: treina demasiadamente, repete exaustivamente cada um dos seus gestos, ignora a dor e o desgaste do próprio corpo. Nela não existe nada de espontâneo ou autêntico, há apenas uma força obstinada para o controle. Nesse sentido, Nina aparece como a figura mais bem acabada do sujeito que sabe governar seu próprio corpo para atingir o máximo de eficácia. Em outras palavras, ela se converteu num sujeito autônomo, aquele que não precisa de orientação para saber o que fazer consigo mesmo. Essa é a verdade do sujeito, a verdade que permite a transformação das singularidades em indivíduos (por isso, na modernidade surgiram tantos projetos pedagógicos, que apesar de todas suas inúmeras diferenças, sempre se voltaram para a conquista da autonomia individual, quando o sujeito não precisa mais receber ordem e se torna livre para conduzir a si próprio). Porém, por trás desse sólido controle de si próprio, existe uma porção atormentada da própria Nina. É como se existe uma potência represada ou reprimida, que tenta escapar dessa disciplinarização interiorizada pela bailarina. É um desejo que luta e resiste contra qualquer dominação ou controle, aquela porção que não se enquadra em nenhuma rotina disciplinar. O filme se desenvolve em torno do conflito interno de Nina, do choque que ela enfrenta diante dessas forças antinômicas e que acaba provocando o desmoronar da própria individualidade de Nina. As marcas mais evidentes desse enfrentamento se manifestam na própria carne de Nina, através de ferimentos auto-impostos (basta lembrar a preocupação da mãe quando percebe que ela está novamente se ferindo). Mas há outra manifestação desse choque, as alucinações e o descontrole emocional. Cada vez mais próxima do precipício, Nina encontra apenas uma alternativa: levar ao limite mais extremo sua própria disciplina para não ser confrontada com seu outro (e não existe nenhuma experiência mais radical de alteridade, em nosso imaginário, do que a figura do louco ou da desrazão). No entanto, quanto mais ela tenta racionalizar e enquadrar sua alteridade, mais ela desmorona. É como se ela tentasse capturar sua desrazão através da própria razão, no final as coisas não podiam acabar bem. Nesse sentido, o percurso da protagonista se torna uma espécie de metáfora da aporia mais íntima do processo de subjetivação da modernidade. A possibilidade de existência de uma identidade estável e fixa, aquilo que chamamos de sujeito ou indivíduo, só pode ser atingida através do controle da potência irrestrita e incontrolável do desejo, porém esse movimento só pode ser atingido com a própria anulação de toda possibilidade de individualidade. O destino trágico de Nina expressa com perfeição essa dificuldade, para atingir o movimento perfeito, ela acaba sacrificando a si própria. É como se no processo de subjetivação não pudesse se confrontar diretamente com seu outro, e o impasse leva à própria dissolução do sujeito. 

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7 Comments to “Cisne Negro de Darren Aronofsky”

  1. Prezado Leandro, suas críticas são ótimas e é sempre interessante interpretar os filmes sob o seu ponto de vista.

    Não entendo nada de cinema, entretanto, como eu comentei anteriormente no twitter, assisti ao filme e outros aspectos se evidenciaram. Ao meu ver, nada sutis.

    Como disse, Cisne Negro nos leva a uma reflexão sobre a vida, que pode ser trazida para cada um dos espectadores. Apresenta-nos uma série de impasses e enfrentamentos que muitas vezes são “corriqueiros” na vida de qualquer um.

    Através da arte pura e simples, faz uma alusão à arte de viver em sociedade. A arte se confunde com a vida da protagonista, que a experimenta e a vivencia intensamente, levando ao distanciamento da realidade, à loucura.

    Para mim, a essência do filme “Cisne Negro” evidencia uma das “regras” impostas pelo “sistema” para se viver em sociedade: a cobrança e a pressão em ser o melhor, em superar dificuldades e não ser “substituído” a qualquer tempo e a qualquer custo.

    Outro aspecto interessante e não menos importante é o fato da mãe transferir à filha todas suas frustrações, gerando uma carga absurda de “responsabilidade” e o consequente desequilíbrio emocional para lidar com as dificuldades encontradas no caminho.

    Abraços,
    Nirsan

  2. André PiJaMar disse:

    “É como se ela tentasse capturar sua desrazão através da própria razão.”

    Adorei este trecho. Além de resumir toda a essência do conflito individual da personagem, essa frase me faz pensar na própria experiência de assistir ao filme.

    Durante a exibição, a sensação de entrar em contato com algo extremamente profundo e inconsciente, manifestado através de reações emocionais aos símbolos da obra esteve sempre presente. Isso produziu dois resultados em mim. O primeiro foi uma eficiente sensação de nervos à flor da pele, característica dos bons thrillers. O segundo resultado, mais problemático, foi uma insistente tentativa de “racionalizar” estas sensações “irracionais”, de dar-lhes sentido através de argumentos sóbrios e concisos. Ou, como você colocou melhor, Leandro, de “capturar a desrazão com a própria razão”.

    Obrigado pelo ótimo texto sobre um dos mais poderosos — e eficientes — filmes que vi nos últimos tempos.

  3. O filme Cisne Negro recebeu de psicanalistas a tag de estética da psicose. É exemplar, neste filme, o modo sutil como a estrutura psicótíca envolta em esteriótipos sociais. O texto acima descreve bem alguns elementos que se destacam quando a identidade é construída como um eu controlador, superficial, exigente, em lugar de um estilo, uma marca, que permitiriam ao sujeito advir como singular quando todas as pressões sociais exigiriam dele fazer “identico”. A protagonista exibe a luta de um eu, para não se desmoronar, diante da falta de uma estrutura simbólica que desse angoragem ao sujeito do desejo.

  4. Leandro disse:

    Nirsan, obrigado pelo comentário. Muito boas suas observações. Concordo quando você diz que ela desmorona pela pressão da perfeição. Esse é um tema importante daquilo que chamamos de sociedade disciplinar, uma série de rotinas e técnicas para transformar o corpo individual numa bem acabada economia de gestos e movimentos. É por isso que não acho que a arte levou a protagonista à loucura. O que conduziu ela ao desmoronamento final foi a tentativa de levar sua própria disciplina ao ponto máximo. De qualquer maneira, o filme permite muitas reflexões. Um abraço e volte sempre.

  5. Leandro disse:

    André, que bom que gostou do texto. Não sabia que você tinha gostado tanto do Cisne Negro. Se bem, que seria estranho se não tivesse gostado. Ele recupera uma tradição fantástica que você gosta. Depois vou procurar um texto que li e deve te interessar, comparando o filme com a literatura gótica. Se achar, te aviso. Um abraço.

  6. Leandro disse:

    Olá Lilany, obrigado pela explicação simples e cara dessa interpretação psicanalítica do filme. Eu não sei se concordo inteiramente com ela, mas não deixa de ser uma tese interessante. Prefiro ver a protagonista como uma espécie de metáfora de um processo determinante da modernidade, qual seja, a subjetivação disciplinar. Ela carrega e tensiona ao máximo o dilema que todos carregamos de alguma maneira. Para conquistar uma identidade fixa e estável é necessário disciplinar ou domesticar a singularidade do desejo. Por isso que não concordo em falar que o sujeito pode advir singular. O sujeito é o que faz o idêntico, anulando a singularidade. A força dela para controlar isso acaba provocando seu completo desmoronamento. De qualquer maneira, gostaria muito de ler um texto mais longo, no qual você desenvolve isso que comentou tão brevemente aqui. Quem sabe não vira um futuro tema para seu blog. Um abraço e volte sempre.

  7. esse filme mostra como a loucura só é tolerada quando está a serviço da alta produtividade, uma maneira de dizer que o louco improdutivo pode ser classificado como a pior categoria de gente. A loucura que liberta é apenas a loucura do trabalho.

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