Conto de inverno de Eric Rohmer

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Conto de Inverno é a segunda obra da tetralogia Contos das Quatro Estações, do diretor francês Eric Rohmer. O filme conta a história de Félice, uma jovem mãe que tenta reencontrar um amor perdido. A narrativa começa com uma sucessão de imagens de Félice na praia acompanhada de um amante (Charles), compondo um quadro de pura alegria. Esta alegria inicial, entretanto, se perde. Ao longo da história, descobrimos que os dois se conheceram na praia, mas na hora de trocar os endereços, Félice fez uma grande confusão e lhe informou errado, o que provocou o desencontro dos dois. Também sabemos que Félice teve um filho de Charles e agora (cinco anos depois) vive a procura de algo que lhe falta. Incapaz de reatualizar em seu cotidiano aquele quadro de felicidade ao lado de seu amante, ela tenta em vão se envolver com outros homens, mas estes relacionamentos não parecem mais do que uma pálida reprodução da autenticidade do seu sentimento por Charles. Nesse caminho, ela se envolve com Loïc, um intelectual que trabalha numa biblioteca pública, e com Maxence, um cabeleireiro que pretende abandonar sua esposa e construir uma nova vida ao lado dela. Os dois se apaixonam por Félice, mas ela é incapaz de amá-los verdadeiramente. Há sempre a presença fantasmagórica de Charles lhe lembrando o rumo de suas ações e desejos. A força que esta lembrança lhe traz a torna capaz de decidir não tomar um rumo adiante, escolher qualquer um dos seus dois novos amantes, ainda que a paixão incondicional de Loïc a afete profundamente. Ao longo da trama, Félice é constantemente pressionada a abandonar sua recusa e decidir o rumo de sua vida, porém, ela sempre se recusa obstinadamente a tomar este tipo de decisão. É um gesto contra uma paixão de potência inferior, uma falsa paixão que tenta apenas preencher o vazio deixado pela sua perda. É como se ela optasse a não-viver uma relação inautêntica ao lado de outra pessoa. Esta escolha é difícil de ser compreendida, até mesmo um pouco irritante, na medida em que ataca diretamente nosso hábito tão freqüente de sempre escolher, ainda seja aquela tipo de escolha entre um “mal menor” a um “mal maior”. Sua opção é o absoluto contrário disso: ou uma vida plena ou nenhuma vida. Por isso, para Félice a única maneira de reintroduzir a plenitude de sua vida é apostar na possibilidade de um acontecimento capaz de abalar a normalidade medíocre do cotidiano. Nesse sentido, pode-se dizer que estas duas coisas se articulam nas ações da personagem: a recusa em aceitar o imobilismo das possibilidades de uma vida esvaziada e a aposta cega, quase como uma experiência religiosa, nas possibilidades de um acontecimento transgressor. Esta articulação acaba delineando uma espécie de ética, uma ética que valoriza e enfatiza o papel do inesperado, do não-calculado, do não-projeto, do ato singular. A não-ação de Félice assume um tom de resistência contra a normatividade do cotidiano. A força da sua paixão por Charles, talvez, nasça disso mesmo, da sua existência absolutamente desligada desse cotidiano. De qualquer maneira, o filme provoca uma reviravolta ao final, algo absolutamente coerente com esta aposta: Félice reencontra Charles num ônibus. O valor da recusa e do acaso, com isso, são reafirmados e investidos de uma imensa força. Assim, o filme constrói uma imagem bastante positiva e alegre, uma espécie de elogio do acaso, a única força capaz de transgredir e inflar as vidas esvaziadas pelo cotidiano.

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