A lição do pós-estruturalismo, uma vez assimilada pelos historiadores, parece poder sintetizar-se numa só frase: os acontecimentos, as estruturas e os processos do passado não se distinguem das formas em que se representam nas fontes documentais, dos discursos que os constituem, enfim dos textos. E um texto é apenas mais uma versão, mais outra forma de regresso a uma viagem sem princípio ou fim. O texto inicial dissolve-se na referência a outros, não importa se com o rótulo de ficcionais ou realistas. Qualquer leitura documental torna-se eminentemente intertextual. Ora, e porque não estabilizamos este ou aquele texto no passado histórico, o que teremos dele são apenas interpretações, e interpretações mais ou menos plausíveis. Consequentemente, os critérios verdadeiro-falso não se podem aplicar à historiografia. Os únicos protocolos analíticos relevantes são os de ordem estética, e não mais os normativos de cariz epistemológico. A conclusão: o passado não existe por si, é apenas uma realização com a assinatura, no presente, do respectivo historiador, o qual se descobre agora num ofício bem mais criativo, posto que também a história terá de viver sem o seu ponto de Arquímedes

(Jorge Ramos do Ó, O Governo de si mesmo, p. 90)

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